quarta-feira, abril 09, 2008

Meu big rider é uma moça

Revista Surf Portugal>Tempestade em copo d'água>181>Fevereiro 2008



Sérgio olhou pra mim com enorme surpresa: Voce nunca viu O Homem de Aran ? Nem ouviu falar, como assim ?
Voce que gosta tanto de histórias de mar, precisa conhecer esse documentário.
Fui atrás...
Pauline Kael, uma crítica que admiro muito e volta e meia consulto por conta dos mais de trinta anos que escreveu para a revista The New Yorker afirmou que 'Man of Aran' era um tributo cinematográfico à luta do Homem contra a natureza hostil.
Soava familiar demais.
A curiosidade aumenta.

Maverick



Aran é um pequenino arquipélago na costa oeste da Irlanda, num dos mares mais furiosos e perigosos de todo o planeta.
Conhecemos a fama das ondas irlandesas, geladas, temperamentais e poderosíssimas.
Aran é bombardeado por essas ondas por todo lado.
Em 1931 Robert Flaherty, o maior documentarista da época e um dos maiores da história do cinema, ouviu falar do modo rústico e inóspito que vivam os pescadores da colônia de Aran.
Flaherty vinha de uma experiência frustrada quando desisitiu da filmagem do mítico filme 'Tabu'. Uma estória dos mares do sul.', junto do diretor alemão Murnau e sonhava em fazer um poema-cinematográfico. Seu primeiro filme, 'Nanook do norte', sobre a difícil vida de uma família de eskimos no ártico canadense assombrou o mundo com imagens tão reais duma vida tão fictícia para o mundo moderno de 1922 que despertaram desconfiança do público.
Como podiam viver daquele jeito ?

Essa pergunta permeia toda sua obra.
Assistindo o 'Man of Aran', eu não parava de me perguntar: como... ?


Ghost Trees


A sequência inicial do 'Man of Aran' é duma violência nunca antes vista.
Um barco com 3 pescadores se aproxima da encosta enquanto ondas grandes não param de arrebentar nos recifes próximos.
A camêra acompanha a embarcação com o cuidado de manter as espumas das ondas no mesmo quadro, é impossível precisar a distância, percebemos que não há praia para aportar, apenas pedras.
Os pescadores chegam, a mãe e o filho acompanham tudo de cima do despenhadeiro.
Entre uma onda e outra (calculo uns 3 ou 4 pés de quebra-coco imperdoável em cima das pedras), os pescadores conseguem encaixar o barco, que não é pequeno, na pedra mais chata.
A mulher e o garoto descem para ajudar.
A cena segue com uma tensão quase insuportável para quem tem alguma familiaridade com o mar.
É difícl não pensar numa entrada em J. Bay, Uluatu, ou Coxos.
As ondas não param e o barco é severamente punido.
Os homens conseguem afastar o barco, por vezes a mulher é golpeada e derrubada pela força das ondas.
Repentinamente a mulher percebe que a rede de pesca ficou para trás e todos correm para resgatà-la.
A rede está presa na pedras.
Flaherty aponta sua lente para ondas e para as pedras aumentando a força da imagens.
Todos tentam desesperadamente soltar a rede.
A espuma é tão forte e grande que cobre todos, dos pés a cabeça. Na tentativa de escapar duma onda a mulher corre mas é alcancada e abatida pela espuma indomável. Seu marido a agarra pelos cabelos e a arrasta pelas pedras.
Pensamos em Mark Foo e aquele fatídico dia em Mavericks.
Flaherty sempre provocava suas estórias, ou seja, não achando uma família ideal para retratar nos seus filmes, Flaherty fazia uma pequena seleção entre a população local até conseguir formar o que ele considerava personagens perfeitos: um homem, uma mulher e uma criança.
Era uma obsessão de Flaherty documentar a vida do ponto de vista desse núcleo familiar e seu heroísmo em sobreviver apenas.
Encarar a cólera do mar diariamente para existir e nada mais é algo incompreensível nesse mundo que vivemos.
'Man of Aran' foi filmado em 1932/33 e foi o primeiro filme de Flaherty falado.
Aquele tempo hoje parece tão distante, tão fantasioso, quase uma utopia, uma Atlântida.
Uma colônia de pescadores que vivem num lugar tão inabitável que somos incapazes de aceitar que existiram.
Aran não tinha terra para plantar então eles tinham que achar rachaduras nas rochas e usar algas para adubar e plantar batatas.
Flaherty sabia o que precisava fazer para emocionar a audiência e nas suas pesquisas descobriu que brevemente antes da sua chegada em Aran (60 anos parecem breves, não ?) os habitantes tinham que caçar tubarões maiores que seus barcos para conseguir o óleo que retiravam do fígado do bicho.
O filme mostra uma dessas caças, em cenas que, dizem, inspiraram Ernest Hemingway a escrever, ou descrever, seu mais famoso livro, O Velho e o Mar.
O Tubarão-frade do filme é o segundo maior do mundo, atrás apenas do Tubarão-baleia, Flaherty provocou os pescadores a pescar, ou caçar, o peixe apenas com arpão, um feito que sozinho faz qualquer Laird Hamilton parecer um colegial assustado.
São dois dias de luta até trazer o gigantesco peixe até a praia.




Cortez Bank

Assistir 'Man of Aran' é uma obrigação para essa comunidade que se diz tão em sintonia com o Mar chamada surfistas.
Tudo ali remete ao surfe: Sobrevivência, resistência, afinco, regogizo, medo, superação.
Depois de ver e rever o filme, fiquei com a impressão que todo esse heroísmo celebrado e comercializado dos nossos big-riders é meio sem graça diante do Homem de Aran.
Nunca tinha me sentido tão pequeno.
Durante cada minuto do filme fiquei encolhido, torcendo pela vitória do Homem em cima daquela natureza hostil descrita pela crítica acima.
Sofri com os humores do mar de Aran.
Tinha sempre a sensação que somos todos um bando de garotos mimados e que não duraríamos 15 minutos num ambiente daquele.
Na cena final, os pescadores enfrentam um mar raivoso quando tentam retornar à margem. Por sorte conseguem desembarcar são e salvos, o barco é destruído pelas ondas.
Flaherty registra tudo com cuidado, com atenção aos detalhes.
Sua câmera são seus olhos.
O Homem de Aran parece derrotado mas Flaherty sabe que sua maior virtude é continuar vivo e a música cresce num tom épico, mostrando a família voltando pra casa.
Fica meio bobo comparar isso a um dia de surfe.
Usamos o surfe como metáfora para quase tudo, mas desta vez a coisa inverte-se.

11 comentários:

Janco Tiano disse...

Porra tenho que ver esse filme, fiquei agoniado só de ler o texto. Se pescar um marlin de dentro de um "barcão" com toda a tecnologia que os melhores equipamentos de hoje oferecem já é uma tremenda pedreira pra tirar o bicho da água eu nem quero imaginar o que deve ser encarar um tubarão-frade só com um arpão. Somos mesmo um bando de mimados, já que ter que encarar uma situação dessas para não deixar sua mulher e filhos morrerem de fome é uma situação complexa demais para nós que temos supermercados a disposição.

Anônimo disse...

concordo plenamente

André Côrtes disse...

http://filmescopio.blogspot.com/2007/07/os-pescadores-de-aran-o-homem-de-aran-o.html

sei que não é a mesma coisa, mas clica no t´titulo que exibe o filme.
vlw

Paulo de Tarso Duarte disse...

E nem precisa ir tão atrás no tempo...
Vendo as imagens dos pescadores de caranguejo e seus navios no Atlântico Norte, qualquer história de Big "Raider" perde o sentido.
Para se ter uma idéia, no raking de periculosidade das profissões, no mundo inteiro, é clssificada em... 1º lugar, à frente dos trablhadores de plateformas oceânicas, que todos julgavam mais perigosa.
O que os caras passam em alto mar, furacões, "rogue waves", águas gélidas, tormentas, amputações, naufrágios... morrem vários todo o ano.
O capítulo que assisti a pouco tempo, mostra de dentro da cabine do capitão, o navio à noite no meio de uma tormenta surreal e sendo acertado por uma "rogue wave" e quase emborcando.
Se alguém não sabe o que é uma "rogue wave" faça a buca no "Gugu" e vejam os relatos e fotos...

Paulo de Tarso Duarte disse...

O vídeo do barco e da onda no Mar de Behring, considerando um dos pontos mais perigosos do planeta!


http://www.youtube.com/watch?v=l_8hOai9hGQ

Paulo de Tarso Duarte disse...

Mais um vídeo!

Reparem na onda que avança sobraa plataforma de petróleo!!

http://www.youtube.com/watch?v=uiSn0C-RrLE

cepatussi disse...

Pode comentar o comentário?
Paulo de Tarso, será que a 6'2" segura? Hehehe!
Carlos Eduardo Patussi

Paulo de Tarso Duarte disse...

Só se for biquilha, Patussi!!!!!!!!!!!!!!!!!
E tipo ovo!!!!

André Côrtes disse...

meu big rider é uma moça e o nome dela é maya!

Mariana Mesquita disse...

Julim,
Vou estragar a surpresa de Pepê e avisar que ele está levando um trocinho daqui pra Daniel (de cuja existência eu nem suspeitava). É um sling, uma espécie de carregador de bebê que funciona até os três anos. Pra saber mais, clica lá no blog da gente: www.slingcasulinho.blogspot.com Lá vocês podem aprender a usar direitinho, qualquer coisa é só me avisar!
Pra não ser ainda mais mazela, deixo pelo menos a cor / tema do bicho pra vocês descobrirem ao vivo... Um beijo bem grande pra você, Maristela e o filhote.
PS - Lá no site você vai poder conhecer Antonio, o MEU filhote! Hehehe. Saudade!

Anônimo disse...

Consegui baixar o filme no E-MULE, começa a ficar bom no minuto 38. 5 caras em um barquinho a remo pescando um tubarão. Sensacional, o tubarão afunda e começa a arrastar o barco de um lado para o outro. Pelo que eu entendi com meu pobre inglês a pescaria demorou 2 dias. Imaginem 2 dias segurando uma corda com um tubarão na outra ponta.

Abílio