sexta-feira, março 07, 2008

O Anarquista



Curren sempre foi o verdadeiro anarquista. Voce olhava pra ele e identificava logo um atleta profissional, poderia facilmente ser confundido com um golfista ou Tenista.
Sobrava postura e determinação - transbordava contradição.
Um exemplo: em 96, numa estrevista ao Jornalista e historiador Matt Warshaw (autor da Enciclopédia do Surfe), Curren bagunçou com tudo: 'Competição é o formato mais puro do surfe profissional, para mim, porque não está tentando ser nada mais do que realmente é. (Disputar) Campeonatos é a maneira mais honesta de ganhar a vida surfando.'
Aquilo era um ato de rebeldia inesperado, principalmente vindo de Curren, o primeiro dessa geração de super-profissionais a deixar o circuito mundial de lado para viver uma vida simples, com um único compromisso de aprimorar a técnica do melhor surfista do planeta.
Um camarada de pouca cautela afirmaria que Curren fundou toda essa nova onda de soul surfing quando deu as costas a ASP e foi promover a campanha (The Search) do seu patrocinador na época (Rip Curl), brilhantemente criada por Derek Hynd.
O 'The Search' consistia numa incessante busca (dã ?!) pela onda perfeita ao redor do mundo, quase uma antítese circuito mundial de então.
Ídolo maior do maior ídolo de 96 (Slater), Curren confundiu Warshaw quando respondeu uma pergunta que parecia óbvia com um raciocínio surpreendente. Warshaw queria saber se a vida de viajar pelo mundo fazendo filmes e fotos era a carreira ideal para um surfista profissional.
Qualquer um diria que sim, é.
Não resta a menor sombra de dúvida.
Para Curren restava um bocado delas.
'Algumas marcas estão tentando dizer que competição é uma droga e que o negócio é o 'soul', eles querem vender a idéia de 'soul'. Eu acho que deveria se chamar 'crass-roots' (alguma coisa próxima de raíz de merda).
Eu passo boa parte do meu tempo hoje cumprindo a agenda de compromissos do meu patrocinador. Toda hora tem alguma coisa que eles querem que eu faça e eu tenho que ir.
É como um emprego corporativo.
Quando eu competia, eu dizia: olha, tenho que treinar para a próxima etapa do circuito mundial e pronto.
Eu tinha um objetivo e eles não se metiam nisso.
Hoje eu faço apenas o que eles querem.
É uma farsa.'
Opa! Deve ter pensado Warshaw, ele mesmo um ex-competidor (limitado) e astuto entrevistador: Lá vem Curren novamente aprontando...
O assunto tratado pelos dois era liberdade e Curren nunca se sentira tão preso.
Seria muito mais cômodo para Curren simplesmente concordar e reafirmar o juízo orientado do mercado, mas seria tambem preguiçoso e pouco desafiador.
O mundo inteiro parava e olhava encantado para as aventuras produzidas para Curren nos vídeos 'Search' que Sonny Miller fazia todo ano para Rip Curl. A 'Fish', hoje tão bacana quanto essencial, foi uma transgressão do Curren.
Ele fazia esse tipo de coisa, como surfar com uma 5'7'' num mar de 10' na Indonésia, por despeito, igualzinho Slater tenta fazer, mas Curren fazia com mais estilo - como daquela vez numa bateria contra Matt Hoy em Hossegor, surfando numa tampa de privada, 5', duas quilhas, reta, quadrada, fazendo mágica e assombrando toda ASP. Aquilo era o tipo da coisa que ia contra tudo que a indústria tenta vender: uma prancha velha e antiquada, completamente descartável na opinião de 101 entre 100 dos surfistas, sobrepujando um foguete novo em folha.
Não era uma 'Brown Beauty' como a que Slater surfou por quase uma década, Simon Anderson 6'2'', round pin inaugurada em J. Bay 96, sensacional virada sobre Knox e vista pela última vez em 2006 rasgando oito pés de onda em Bells Beach, vitória pra cima do Parko.
Nem a Ronnie Woodward do Sunny, que lhe deu os dois primeiros triunfos na ASP e quase 6 anos depois ainda rendia a primeira jóia da tríplice coroa Havaiana.
Não senhores, essas pranchas eram apenas velhas, usadas a exaustão, mas modernas triquilhas que poderiam ter sido shapeadas pelos shapers de ponta em qualquer momento.
A 5' do Curren era um acinte, pesada, antiga, completamente ultrapassada e talvez sequer tenha sido um dia uma prancha razoável. Naturalmente Curren seria capaz de surfar 50 por cento melhor com uma leve e moderna triquilha e provavelmente nem tinha a intenção de humilhar Hoyo nem toda a indústria mundial de pranchas, queria apenas, vejam só que ironia, divertir-se.
E, por vezes, a diversão é a forma mais pura de anarquia.

10 comentários:

Henrique Cesar disse...

Em relacao a resenha "O Anarquista" eu acredito que o que foi dito não tem nada a ver com Anarquia. Muito pelo contrario: assume que Curren é um viciado em competitividade, um viciado em superar tudo e todos. A mais essencia do capitalismo.
No tocante ao desanimo de Curren em viagens promocionais, me parece que realmente ele nao encontra motivação neste novo trabalho. Natural. Me parece que antes ele trabalhava na Bolsa quando competia. E agora ele passou em um concurso publico e vai ter que cumprir as metas de seu patrão, como ele bem disse.
Isso pode ser melhor explicado por razões filosoficas ou psicologicas. Mas, de jeito nenhum, por anarquismo ou qualquer escolha politica.
Agora, engracado este blog pois estava discutindo essa semana comos meus amigos a mesma questão.
Free surf X Campeonatos: Dane Reynolds X Slater. Depois se quiser eu mando o texto que eu escrevi.
Como amante do Curren eu recomendo esse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=DtY9Iwtd16E
Um abraco, Henrique.

Anônimo disse...

É NITIDO que além de perder o cabelo Slater perdeu o STILO !!

Anônimo disse...

O surf de Curren é a própria arte que se desenha a cada movimento, sem palavras, simplesmente, stylemaster.

Bruno - RJ

Anônimo disse...

"bicho, quem não tem estilo, é um méééééérda..."

retirado de um VHS dos idos de mil novecentos e noventa alguma coisa!!

José de Arimatéia

Anônimo disse...

Slater foi perdendo o stilo proporcionalmente a queda de cabelo

Anônimo disse...

Slater foi perdendo o stilo proporcionalmente a queda de cabelo

RV disse...

troquei a porra do filme que tinha esta bateria entre Curren e Hoy por um tal de MadWax, acho que é isso. Fui enganado...

Sputnik disse...

Coitado do Curren. Deve ser desagradável coisa chata "ter" que viajar pelo mundo em lugares paradisíacos, pegar ondas de sonho, receber um alto salário... Pô o cara reclama ainda? O que ele queria?

Anônimo disse...

Curren é um alcolatra, tem problemas como todos nós....

Bodhi disse...

Se tem um surfista melhor que o curren é o...
Ah, deixa pra lá.
Chato é a pose de entediado que ele faz, nunca o vi sorrindo.