quarta-feira, março 28, 2007

Cinco contra um

[Tempestade em copo d'água/Janeiro 2007]


Russ Short e Taylor Knox usando a borda numa bonzer. Trinta anos separam as duas fotos.

Me fiz uma pergunta outro dia: Por que não há um único surfista no circuito mundial surfando com as tão alardeadas inovações em design de pranchas ?
Lendo as publicações especializadas somos induzidos a achar que cada nova configuração de quilhas ou rabetas nos emprestará super poderes.
O amigo questiona intrigado, se o fato de nenhum surfista profissional surfar com uma quatro quilhas no WCT (exceção feita ao convidado do evento no Tahiti, Danny Fueller, que chegou nas quartas com uma, e só) deveria influenciar sua decisão na hora de escolher seu barquinho.
Ora bolas, sendo o amigo um surfista eventual ou mesmo um dedicado aventureiro, deve ter percebido que as novidades são sempre muito bem vindas dentro d’água.
Uma fish encaixa como faca quente na manteiga quando a onda vem deitadinha, cansada, preguiçosa, sem muita vontade de nos levar.
Pra isso tambem serve o que cismam de chamar de Funboard, Egg, Evolution, mini mal e haja criatividade e marketing pra vender tanto do mesmo.
Usar o automobilismo como referência, recurso comum aos deslumbrados, não funciona bem.
Digamos que o WCT é a fórmula 1…
Alguem enxerga alguma semelhança entre a situação dum surfista de final de semana com uma réplica do prancha do Slater surfando na praia lotada e um motorista eventual com um Ferrari F1 nas ruas próximas de casa.
Não, definitivamente não.
Em nenhum momento da jovem história do nosso esporte houve tanta diversidade no equipamento usado, então por que, insisto na pergunta, não há um surfista sequer nos top 45 que não arrisca algo diferente.
Um fanático de boné com a aba virada grita ao fundo: Taj Burrow!
Pacientemente respondo ao malandro.
Tem razão, Taj tem testado, e aprovado, novos materiais na milagrosa prancha Firewire ™ , mas tem as mesmas tres quilhas que todos outros 250 no ranking.


Uma, duas, tres, quatro ou cinco ?

Vejam voces, quando a empresa Lost lançou o filme 5’5’’, Wardo, Andy e Cory pareciam adotar uma fish (5’5’’) definitiva e irresistível como modelo insubstituível e agora, 12 anos depois onde e o que estão surfando ?
Não paira dúvida se os tres ainda guardam no fundo da garagem (eles usam muito garagem para guardar pranchas lá) uma meia-dúzia de fishes e bonzers, mas por que não em Jeffrey’s ?
Lembro da foto impressionante do Taylor Knox cravando as cinco quilhas da sua Bonzer™ em Off The Wall, a legenda anunciava que o Sr. Knox divertira-se como nunca e falou maravilhas do bólido- por que, Taylor, se me permite a intimidade, não repetir a dose em Bells ?
Pro surfista comum, eu e voce, fica a impressão que treino é treino e jogo é jogo.
Quando o gigante gentil, Simon Anderson, tirou aquela aberração de cima do carro no estacionamento de Bells, Páscoa de 81, maiores ondas em quase uma década de evento, e atropelou a concorrência com uma prancha de tres quilhas, a comunidade inteira prestou atenção mas deu de ombros: sorte, casualidade.
Simon foi obrigado a repetir o gesto de levantar a taça no final de semana seguinte em ondas medíocres, pra esquerda.
Dessa vez a turma de entreolhou e balançou a cabeça aceitando a superioridade do mestre cervejeiro Anderson, que com quase dois metros de altura e mais de 90 kilos tinha triturado os top 16 em condições ridículas.
‘Não funciona no Havái!’ logo apressaram-se os detratores.
Ainda em 81, Anderson ganhou o Offshore Pipeline Masters.
Em 1982 11 em cada 10 surfistas usavam triquilhas.
Passados 25 anos, já não existe mais surfistas que fazem suas próprias pranchas no circuito (talvez o último foi Glyndon Ringrose), a triquilha prevalece com pequenos diferenças na rabeta, um com swallow outro com squash.
Assistimos quase todas grandes estrelas exprimentando novos designs nos filmes, as revistas pregam a diversidade, os surfistas pregam a diversidade, mas no WCT ninguem arrisca perder uma bateria por ter escolhido o equipamento errado.
Se não me falha a memória, Curren foi o último a tentar, e sucumbir, a competir com pranchas esquisitas (shapadas por ele, bico de pato…azuis, lembram ?) numa de suas inúmeras tentativas de retorno ao circuito.
A solução para uma diversidade maior de equipamento seria uma bateria no feitio da expression session em cada etapa, talvez.
Eu fico curioso para ver esses camaradas enlouquecendo com toda sorte de quilhas, rabetas, bordas e fundos.
Aos que acompanham o WCT e WQS fica uma leve desconfiança.
Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.

9 comentários:

Anônimo disse...

CORREÇÃO: segundo a revista la dos garotos de ipanema, blackwater, DANIEL WILLS (este a usou no quik pro), DYLAN LONGBOTTOM, fazem suas pranchas...

Anônimo disse...

Concordo, talvez falte coragem, talvez os patrocinadores proíbam ! Já filosofou Thomas Campbell em seu épico Sprout: "cada condição exige um tipo de prancha", e atualmente, os únicos que me saltam aos olhos são Rob Machado, Joel Tudor, Dave "Rasta" Rastovich e Tom Curren. Pq será ?

Anônimo disse...

http://bonzer5.com/bonzerworld/

Rodrigo disse...

puta merda, a foto do Knox tá do caralho!

Sempre na Moda disse...

Sprout - épico ?

E Julio, de onde sao essas imagens?

Machado ta pegando muito...

Anônimo disse...

o sprout relata feitos heróicos* relacionados ao surfe, de pessoas distintas, como tom wegener, gerry lopez, joel tudor...

sem dúvidas é épico !

* antônio houaiss - épico (adj.) - relativo a feitos heróicos.

bruno disse...

finalmente - e novamente, por quê não (?)- uma ótima leitura para o pescoção de sexta-feira.

Severino Silver Surfer disse...

Antigamente caras como Richie Collins e Dadá Figueiredo fabricavam, competiam e comercializavam suas próprias pranchas.. E venciam campeonatos! Por que isso não acontece hoje? Porque queremos tudo mastigadinho, ninguém quer arriscar, é tudo padronizado e politicamente correto... Eu vi esse filme 5'5" da Lost, realmente inspirador, mas infelizmente uma exceção. Saudades do Cheyne Horan...

Felipe Siebert disse...

Boa matéria... parabens...

minha opinião...

Em termos de competição, o objetivo é a performance e nesse ponto as triquilhas são insuperaveis considerando os criterios de julgamento adotados. Não há o que discutir a não ser que os criterios de julgamento mudassem.

Sobre o gosto por pranchas alternativas, na minha visão, descnsiderand s campeonatos, ocorre o seguinte: quem não gostaria de experimentar uma fish, uma bonzer, uma monoquilha ou um longboard?

Para mim a graça está ai... já cheguei no meu "máximo" em termos de surf de triquilha dai resolvi experimentar algo diferente e hoje continuo surfando com varios modelos, inclusive a minha velha triquilha (principalmente nos mares fechadeira)...

Em termos de competição realmente não há o que discutir... mas como eu não sou competidor e sequer acompanho o WCT...

Abraço,