sábado, janeiro 15, 2005

Norte

'Y las fronteras se mueven,
como las banderas.'
Jorge Drexler, (Frontera, 1999)



Estive fora, pausa anual para exercer vagabundagem, vagarosamente vagando por terras sul-americanas.
Aliás, vagar não é bem adequado, desde que estive motorizado - no volante, divaga-se.
Lima fica a quatro horas de voô saindo de Zampa (todos aviões saem de Zampa hoje em dia), outra perna de hora e meia até Piúra, 240 Kilometros de asfalto e estou em Mancora.
Logo no iníciozinho, a picada ainda coçava de tão recente, herdei do namorado da irmã mais velha uma pequena coleção de surfer e Surfing antigas, provavelmente para me manter entretido e não aborrecer os amassos depois da praia.
O Bichinho do surfe estava por todos os cantos e se conseguisse escapar de um lado, ele me pegava no outro - eu estava cercado.
Ronald já tinha tentado de tudo: a primeira prancha (vermelha, com raio branco, 7'2'', quilha de madeira encapada, rabeta sem um pedaço do 'pin', aspecto duvidoso), segunda prancha (igualzinha, Mudinho, rabeta inteirinha, bem mais nova, buraquinho na quilha pro estrepe), discos do Santana, histórias fascinantes e dias inteiros passados na praia sem ter absolutamente nada para fazer a não ser, sim senhores, ir para água e tentar me divertir como dava.
Enquanto isso, no prédio onde eu morava, e ainda moro, 30 anos atrás, toda minha turma de pelada cismou de pegar onda com essas pranchas duras e deixar as planondas encostadas.
Pôrra, nada era mais sagrado do que o surfe de peito. Como todos podem trair a pureza e a inocência do jacaré numa prancha de isopor pela lascívia e virilidade do surfe de pé ?
Seria como assumir que deixamos de ser crianças.
Pra encerrar o assunto, meu primo Guilherme tambem começou a surfar, portanto, além do futebol e dos torneios internacionais de botão, tinha um parceiro fiel e um rival aguerrido para ver quem dominava aquele cavalo bravo primeiro.
Pois, eu falava sobre as revistas que tinha ganho e dentro de uma dessas tinha o famoso poster, aquele que é arrancado com todo cuidado para voce se arrepender o resto de sua vida pela página central perdida em cinco de cada dez revistas de sua coleção.
A foto era um sonho: uma onda corre impávida para esquerda, a água barrenta me trazia a impressão que devia ser quente, quente...nada na areia a não ser um barco de pesca, descansando na praia depois de uma semana dura, esperando as ondas diminuírem para voltar pro mar - na legenda, lia-se, Mancora, Peru.
Ficava bem em cima da cama, colada na parede com durex, quando ventava muito ela balançava até descolar e eu tinha que tascar uma segunda mão de durex pra segurar.
Aguentou firme uns dois ou tres anos, ainda está guardada, toda grudada, com outras fotos que ornaram meus sonhos mais molhados.
Imaginava que um dia estaria pisando naquela areia escura, sozinho, nem totalmente só, com o barco e a onda.
Mancora me procurou nas mais obscuras memórias e me atraiu.
Estava marcado a tanto tempo...

Don de Fluir

'Porque bailas,
como quien respira,
con un antiguo don de fluir...'

Jorge Drexler ( Eco, 2004)

Confesso logo de cara que fui na dica do Arthur Dapieve e não me arrependo, tenho que dar o braço a torcer: Jorge Drexler é o nosso Jack Johnson.
De música o Dapieve entende, não nego, duro é quando se mete a escrever sobre o que Rubem Braga chamava das 'coisas boas da vida', principamente surfe, seu novo Fetiche (dele e do seu cupincha no JB, Renato Lemos), aí o caldo entorna.
Drexler tem sete discos, conheci 4 baixando na grande rede, posso talvez arriscar que todos são bons.
Lembra muito Caetano Veloso quase sempre, mas mantem uma aura de cancioneiro errante, desses que podemos encontrar tocando num barzinho de beira de praia em qualquer balneário, do Chile ao México.
Bahia tambem serve, como ele mesmo diz no primeiro disco (Éden, La luz que sabe robar, 1992), 'Juntaba plata en invierno,
soñaba con el Edén, escuchaba a Joao Gilberto y sólo pensaba en volver.', sempre com o mar ao fundo feito em 'Cerca del mar', 'Toda piel se vuelve presa del yodo, toda bisagra se vuelve a herrumbrar, todo el mundo dice pasar de todo, y todo el mundo vuelve, vuelve a probar.', puro surfe ?
Aqui no Brasil é solenemente ignorado, assim como Sidestepper, Juana Molina, café Tacuba, federico Aubele e todo resto de bacana que se faz em Espanhol aqui ao lado, enquanto inunda-se as rádios e TVs com estrelas latinas como Rick Martin, Shakira, Alejandro e adjacências.
Drexler tocou aqui em Dezembro, uma noite no Rio outra em Porto Alegre.
Numa tarde em Lobitos, sol morrendo no Pacífico, nosso amigo peruano cantava sorrindo o refrão da canção 'Frontera' no carro, era justo a primeira vez que ele escutava e já entoava, íntimo da letra: 'Yo no sé de dónde soy, mi casa está en la frontera'
Por um longo tempo olhei para o mar quase sem ondas e me senti latino-americano, parte de tudo aquilo, dos pelicanos voando em grupo, do crepúsculo vermelho, dos barcos, das minúsculas ondas, da música.

Um comentário:

Anônimo disse...

ae, julio, texto pra alimentar ainda mais o surfe longe de casa. estou aqui por natal, na rota do início de carreira do fabinho gouveia. ponta negra. boas ondas. estive na paraíba, povo pacato, calmo, educado. peguei ondas ruins lá, mas deu pra sentir o valor de um povo cheio de cordel, como o de campina grande, bela cidade com clima europeu [é, na paraíba de verão!]. aqui em natal meus dois amigos, uma menina fissurada e um moleque que voa nas valas, estão tristes pq fabinho fabuloso não deu as caras,o filme, justo na terra onde ele poliu seu surfe, o que falo pra eles?
grande abraço e bem-vindo a 2005, zé do cajá em busca da gota serena.