quinta-feira, dezembro 23, 2004

Proxima onda

Temos tantos motivos para comemorar que nem sei por onde devemos começar.
Quando, em 91, Gouvêia se tornou o primeiro brasileiro dentro dos tope dezesseis da ASP ainda não tínhamos o WCT e os 44.
No ano seguinte Fabinho escalava o ranking desde o 13º até o 5º lugar, uma façanha quase fantasiosa para época, deixando Kong, Lynch, Pottz, Carrol, Macaulay e cia na rabeira, e ganhava a companhia do seu escudeiro fiel, Teco, logo ali, em 15º.
Tenho vergonha de lembrar que Derek Ho foi campeão mundial em 93, chego a ficar corado defronte o Imac - escrevi assim no jornalzinho que fazíamos e ninguem lia, Wet Paper: 'Ver Derek Ho ser campeão mundial foi tão desgostoso para mim quanto assistir a derrota de Tyson para Buster Douglas...'
Esqueçamos 1993 sem contudo deixar de notar um solitário brasileiro nos top 16, Fia novamente, no mesmo décimo terceiro de 91.
Que ano otimista foi 94. Nada menos do que 4 malandros nos 16: Teco em oitavo, Jocélio de Jesus em 11º, Fia 12º e o Gambazinho de Cabo-frio, Vitinho, 15º.
O sonho corporativo de termos um campeão mundial nascia nas redações mal informadas de São Paulo e em escritórios de marketing esportivo.
A partir dali qualquer Zé-Mané que ganhasse um campeonato de rua já era apontado como futuro Kelly Slater.
Diga-se de passagem que Slater em 94 inciava sua absurda campanha de 5 títulos mundiais consecutivos, depois do hiato de 93, sem esquecer seu primeiro, em 92 conquistado no dia 14 de Dezembro (que importância tem isso ?).
Victor chega a sexto lugar em 95 e mais nenhum brasileiro o acompanha nos top, fica um misto de alegria e amargor depois de tanta festa pelo ano anterior.
Ficamos de 96 até 99 (Jojó, 16º em 96, Neco, 13º, 97, Peter, excelente 8º em 98) acostumados com apenas um representante do nosso exército de Brancalene entre os top 16, culminando com o mais espetacular resultado de todos, rufem os tambores!, um honroso terceiro lugar do Vitin Ribas, na frente dos medalhões que estampavam (e estampam até hoje!) revistas nacionais e internacionais, a saber: Bob boa-gente Machado, Ross, Dorian, Garcia e todo resto.
Manchetes anunciavam o campeão mundial como o novo redentor, um verdadeiro messias que nos viria salvar do destino trágico terceiro-mundista macaquinho de auditório.
Sunny finalmente leva o seu pra casa em 2000, aqui mesmo no Rio, Herdy e Teco figuram entre os 16, 12º e 10º, que bom que ainda nos resta uma esperança.
O Bronco nos salva em 2001, melhorando ainda sua posição em 98, terminando num notável sétimo lugar.
Fora dos top 16 novamente em 2002, Peterson é mais uma vez o melhor brasileiro em 19º e Herdy, 21º, em 2003, leva o prêmio consolação de melhor do país naquele ano.
Motivo pra comemorar ?
Sim. O retorno do Branco aos top 10...
Título do Mineirinho e possível bi do garoto nesse início de 2005.
A imprensa, timidamente, começa a perder o pudor de amadurecer, apesar das espinhas e do cabelo na mão quando trata-se dos estrangeiros.
A bíblia dos neo-neo-pós-mudernos-surf-pop-star, Transworld Surf, tentáculo do grupo Transworld apontado pro surfe, belo mercadinho, diga-se de passagem, confessa em recente texto no editorial que a revista não é mais adolescente, que quer crescer, casar e ter filhos, papo sério, chega de comunicar só com moleque de 15 anos que enche a paciência.
O editor diz que deseja agora cuidar dos aspectos mais importantes do surfe, como por exemplo, o novo projeto da cozinha do Donavon, a coleção de carros do Parko e até, numa onda retrô, estampa A.I. de prancha das antigas na capa - é chique!
Enquanto isso, nas redações da cidade grana senhores com mais de 40 anos traçam estratégias para pescar rapazolas em busca de aventura e eternizam a ridícula imagem dos dois neurônios: um para os surfistas de alma e outro para os surfistas de verdade.
Boa notícia ?
A gigante Quiksilver vai parar nas mãos certas depois de uma década perdida nesse mercadão de Deus e, quem sabe, pode começar uma nova era no surfe brasileiro, pressionando os barões das multinacionais a investir um pouco dos seus milionários lucros de volta no Bananão.
Seria interessante ver a Quiksilver montar um baita time, com Mineirinho, Raoni, Rodrigo Resende, Pedro Henrique, Stephan Figueiredo, os tres últimos sempre descartados dos grandes planos de marketing das transnacionais.
Fábio Fabuloso foi uma boa notícia, apesar do retumbante fracasso nas bilheterias, demonstrando que os números mentem, que os dois milhões de surfistas são todos de final de semana e os 40.000 exemplares rodados todo mês devem parar em salas de espera dos dentistas que ainda pegam onda.
Surfista do ano: Pigmeu.
Estrelando o Sambatrance(Outra boa notícia, taí), Pig saltou da telinha para a Tríplice coroa com uma final, uma oitava de final e dois dos melhores tubos do dia que Sunny resolveu que não haveria Pipe Masters porque o Backdoor estava longe do seu agrado.
Bruno Santos teve seu dia de Pepê Lopes deixando os aficcionados grudados até altas horas para comemorar o vice em Pipe e mereceu até elogios do Master Slater.
O surfe na TV, paga, pena com os Formigas e Paunolimas da vida, sempre querendo mais destaque do que os surfistas que aperesentam.
Mariana Becker e Claudinho seguiram o circo do WCT, ponto pra Globo ? Deve ser.
Nenhum blog surge com bom senso para contrastar com a pasmaceira que anda por aqui - só em Portugal, onde a cabeça serve mais do que vestir boné- onde ainda impera o diário de adolescente, embora esses adolescentes tenham todos mais de 25 anos e não perceberam.
Camisas floridas e Donavon no rádio, 2005 promete.

PS - uma hipótese: o que aconteceria se Ozzie Wrigtht declarasse que voar não tá com nada e o negócio é usar a borda, jurando nunca mais tentar um aéreo ?
Duas: Jack Johnson se muda para Santa Teresa junto dos Malloys e Taylor Steele, abrem uma birosca, produzem pequenos documentários sobre Velha guarda da Portela (o mantra é: Buena Vista)frequentam a Lapa, jogam sinuca e defendem uma comunidade alternativa vegetariana.
O que seria dos sem-noção ?

PS 2 - [Mensagem recebida do Marcus depois do texto publicado "...sem esquecer seu primeiro, em 92 conquistado no dia 14 de Dezembro..." tá de sacanagem... finado alternativa, grande evento, curren desvirginando com direito a tubo do alem...gouveia no auge; slater, ali, o + jovem campeao, chegando com cara de sono contra carrol... bicho, fiquei muito puto quando o FF perdeu p/ damien hardman, pq ainda por cima tinha um espirito de porco do meu lado...dezembro? duvido!
Na mosca, Marcus.]

6 comentários:

Anônimo disse...

hi julio, aqui é o eddie, de aracaju. fica fácil falar da falta de público do fábio fabuloso, mas o filme ainda não foi distribuido nacionalmente, acho q quando ele chegar por aqui (nordeste) vai uma galera boa.

fora isso concordo plenamente com o teu texto.

feliz ano novo,

eddie

Anônimo disse...

Belíssima crônica retrospectiva.
Só faltou lembrar que em 2004, no meio de um oceano flat de "notícias" marketeiras para o mercado pit-surfista adolescente, tivemos o Goiabada tinindo, point break de canudos inteligentes, paladino da crítica consciente e isenta, soul surfer do brasileirismo.
Parabéns pela luta Júlio!
Um fértil e feliz 2005, usando muita borda,
"Abrazzo",
Leo

Julio disse...

Salve Eddie,
pela falta de grana, fizemos pouquíssimas cópias girando, portanto a estratégia era lançar homeopaticamente, de tantinho em tantinho, como diz no filme.
No mundinho ideal teríamos cada cinema do norte-nordeste com uma cópia do filme, mas cada uma dessas cópias custa uma pequena fortuna, assim sendo...
Isso, sem contar com o fato que, depois de assinando o contrato com a distribuidora perdemos completamente o controle do filme.
Bem, o inferno, voce sabe, está cheio de boas intenções.
Espero que um dia o Fábio Fabuloso chegue em Aracaju - e não se surpreenda se não durar sequer uma semana em cartaz.
Abrazzo e feliz 2005
Julio

Anônimo disse...

Ótima a analise sobre surf na tv paga. Há limite para tudo, e ninguém com senso de surf aguenta mais ver formiga e seus amigos - na maioria com idade e peso avançados - em sessões de tow-in em ondas pífias. Querenos ver surf de verdade, para surfistas de verdade. Difícil escapar do atual - e ridículo - formato no qual se "explica" - terrivelmente diga-se de passagem - o surf para leigos. Chega de binho e grillo fazendo jam sessions com a maryeva regurgitando baboseiras! Chega do formiga! Chega de explicar o surf para pregos! Queremos o surf, de verdade, sem explicações ou hype. Seria tão bom se todo esse air time fosse usado mais conscientemente.........podemos sonhar com tal utopia? Valeu marreco.....abs e boas ondas!
SA

Anônimo disse...

cadê vc, julio?
estamos órfãos de textos de surfe de coração de verdade e aquelas suas pescarias culturais e botequinzais. volta logo, abraço, zé dos alfaces
ps- vc tem guardado aquele seu texto que fala do dia em que desceu do buzão pra ver um pôr-do-sol? queria preparar pra volta às aulas da molecada.

Kwan disse...

A "Próxima Onda" também é minha, amigo. Vê no meu blog ;) Um abraço.