sexta-feira, setembro 24, 2004

Aula

[Surf Portugal, #138/ ano 18/ Julho de 2004]


foto de Todd Messick do Moonshine Conspiracy

Numa volta de bicicleta entre Leblon e Arpoador conto 5 escolinhas de surfe.
Criançada aprendendo como remar, como subir na prancha, como furar uma onda malvada que quer te pegar.
Olho com candura, mas em algum lugar escuro dentro de mim uma voz se levanta: Bom pro esporte nada!
E argumenta…
Nem vamos nos ater ao lado didático da conversa, pois surfe é demasiado humilhante para ser ensinado, quiçá aprendido.
Um desses sítios da grande rede tem como lema uma frase brilhante: ‘Não é sobre um estilo de vida, é sobre a vida.’
Bonito, não ?
Então, nós buscamos no esporte um passatempo, como diz o termo, uma forma de pasar o tempo e quem sabe juntar qualquer desculpa para uma terapia, higiene mental, cada um na sua.
Os primeiros passos tem uma importância enorme quando iniciamos no surfe, assim como os mesmos primeiros passos, remetem á infância, blah, blah,blah…
Sujeito simula movimentos, ajusta daqui, equilibra de lá e voilá! Surfando todos estamos.
O alemão de férias no Algarve, o canadense em Ipanema, de pé na espuma, glorioso, sorriso de orelha a orelha.
Enfim encontramos, toda comunidade, uma maneira de introduzir (Epa!) nossa maravilhosa e única experiência para os ditos ‘meros mortais’.
O lado escuro irrita-se.
Uma ova com isso!
Quem disse que o mundo seria melhor se todos surfassem?
Aonde escutei que se todos exprimentassem o surfe uma única vez estáriamos, toda humanidade, salvos?
Um babaca continua babaca surfando, senão pior.
O insistente vai prevalecer sobre o hablidoso quando ele menos esperar.
Rodinhas irão falar horas sobre o talento perdido que foi fulano.
Assim no surfe como na terra.
Subjetividade permeia o surfe desde os primórdios e, agora, nessa onda das escolinhas, como habilitar um professor virou tese de mestrado em curso de filosofia.
Um profissional aposentado seria um melhor professor do que um magistrado de educação física na universidade federal ?
Aquele senhor que nunca fez nada da vida, parte integrante do mobliário da Praia Grande ou de Carcavelos, Arpoador ou Saquarema, o mesmo senhor que sequer consegue formular uma frase é capaz de ensinar um inglês a surfar ? Tanto quanto o articuladíssimo e engajado surfista e ativista ecológico da Praia Mole ?
Qual é o critério ?
Na altura, parece menos importante o envolvimento com o mar desde que as aulas acontecem sempre na beira d’água e os alunos pouco são exigidos além do mero ajoelhe-levanta-faz com a mão assim-pula da prancha.
Cabe aos novos surfistas escolherem se vale ou não a pena ir um pouco mais fundo.
Amedronto-me em pensar que um rapazinho dos seus 10, 12 anos, tenha seu primeiro contato com o surfe através de camarada que nada tem para lhe oferecer além duma fórmula burocrática da concepção do surfista.
Chamem de romantismo e me digam que os tempos são outros, ninguem mais quer perder meia hora do dia, nem pais, nem filhos, para aprender sozinhos o que pode ser ensinado a preços módicos em cada esquina.
Alem do teor de fast food que as escolinhas carregam, é preocupante a quantidade de gente que, à beira da falta do que fazer, se imbúi do personagem de instrutor sem nunca ter tido um envolvimento maior com o surfe do que gastar o tempo na praia.
Talvez seja capaz de reconhecer o vento, no máximo, mas não carrega consigo a chama, a paixão, embora isso não lhe desqualifique, pelo mar. Temo que a escolinha seja refúgio dos imprestáveis, como tenho atestado aqui no Brasil, tomando dinheiro de inocentes em busca de um pouco de emoção.
A falta de referência de quem procura uma escolinha é alarmante.
Reparem que o momento inaugural do leigo com o surfe agora tem hora e área marcada e limitada. Não existe um método eficiente para ficar ereto na prancha e encantar-se. A subjetividade vira um temível argumento a favor dos incompetentes.
Dora indignou-se com isso no final dos anos 60, em meio a febre dos filmes da Gigdet- onde ele atuava-, a moda da cultura de praia, Malibu, Hollywood, Beach Boys…mas nem por isso deixou de capitalizar nessa.
O Cavaleiro negro, como gostavam de chamar ao Mickey Dora, denunciava que aquele ‘bando de pregos’ não era capaz de ensinar nada a ninguem porque o surfe exigia uma dose de sacrifício maior do que eles eram capazes de emprestar aos iniciantes.
A comercialização vai matar o surfe, dizia Dora, pessoas sem amor ao esporte vão tomar conta.
No entanto, quando ouço um bom amigo dizer que ‘matriculou’ seu filho numa escolinha de surfe, sentou na areia e assitiu o moleque fazer a sua primeira onda até o fim, comoveu-se…quando me confronto com uma dessas, jogo um pouco de luz no lado negro e mando Dora passear.

3 comentários:

marcus viana disse...

o Marreco, a coisa nao eh tao ruim assim, e pode melhorar. umas aulinhas teoricas com o "mentor" certo, uns videozinhos para ajudar, e gotcha! o grumete absorvera o sentido...ou nao.

aquele,

Anônimo disse...

Fala Julin,
Boi de novo. Tá certo. Passei todo o último verão carregando (literalmente) meus filhos e dois agregados através da arrebentação maroleira de verão no Recreio/Macumbinha, para com satisfação vê-los com "aquele" sorriso quando conseguiam ir em pé até a beira numa espuma. Fiquei mais contente, quando, em determinada hora, me diziam: "não precisa me levar, vou remando", e iam mesmo, abandonando o "barco" quando uma série de 1/2 metrão varria a galera. Mas o melhor é ouvi-los, entusiasmados, profetizando o drop no corte as rasgadas que tentarão dar amanhã. Mas, também assisti a inúmeras cenas grotescas protagonizadas por alunos desses ditos "professores", entregando uns PRANCHÕES "malibu", para leigos totais largarem/droparem nessas mesmas séries de 1/2 metrão na cabeça uns dos outros, com as trágicas consequências de cabeças abertas, costelas danificadas, dos alunos ou banhistas em sua volta. Tive, eu, que avisar a um grupo de "alunos" que é mais fácil e seguro, voltar para o "outside" pela correnteza perto das pedra, onde ninguém pega onda, ao contrário do que eles faziam no meio da balburdia geral. E o pior,ouvir desses "alunos" um "puxa, obrigado, é mais fácil mesmo, o "professor" nem tinha avisado isso...". Bom, tem gente que leva a sério e dá boas aulas, tem gente que arrumou um jeito de fazer dindin naquele tempo em que só era "mobiliario da praia". O problema é esse leigo saber quem é quem!
Sorte que, sempre aparece um surfista caridoso, que vendo a dificuldade e o perigo tenta dar uns toques pra ajudar. Tive isso quando estava aprendendo, passo isso adiante agora que posso.
Abraço

Anônimo disse...

é júlio, como vc diria, é a famosa faca de dois "legumes". tá, podem ter algumas escolinhas com surfistas de verdade, de coração, ensinando; mas como se pode ensinar um ato de amor, que é o surfe, sendo pago pra isso? sei lá, tb acho que vai dar certo só o moleque que acordar ainda cedinho e ir lá pra fora ralar e ralar até ficar de pé - numa pranchinha - e depois de um tempão começar a manobrar.
pq só quem ralou e ralou pra ficar de pé numa pranchinha sabe que parece não ter o mesmo valor se meter numa escolinha e ficar de pé facilmente num pranchão...
abraço, zé augusto