terça-feira, julho 27, 2004

Somos todos Bruce Gold


Flor de obsessão


[Uma das minhas obsessões é Jeffrey's Bay, uma de nossas Mecas- e Bruce Gold.
O texto abaixo foi uma das Tempestades escrita em 2001, logo depois de um mês de J. Bay.
Trilha recomendada: Gill Scott Heron- From South Africa To South Carolina (faixa- johannesburg)]



Today is a wonderfull day to die - Bruce IS Gold


Ultimamente venho ponderando muito ao redor da inutilidade do surfe e suas coisas.
É aí que a gente se pega folheando uma revista de surfe no meio de um dia apressado, urgente de mínimas tarefas, trabalho, contas – que diabos! Deixe-me dar uma olhadinha nessa Surfer velha…
Subitamente seu dia ganha outra forma.
Em vez dos numeros do talão de cheques, os anos em que foram batidas aquelas fotos maravilhosas do deserto do Sahara( com o inesquecível navio fantasma afundado), o tamanho da prancha do Michael Peterson no cut-back que ainda deixa rastros no surfe moderno, ou tentando decifrar quantos anos tem Bruce Gold, o último surfista hippie, que sorri de maneira quase infantil por trás de sua barba branquinha.
Bruce Gold foi um dos pioneiros em Jeffrey’s Bay, a melhor direita do planeta, onda referência para direitas perfeitas, intermináveis, tubulares, velozes: “– a onda era igual a Jeffrey’s…”
Recurso muito usado em conversas sobre condições extraordinárias.
“- …parecia Jeffrey’s, mas com água quente…”
Sempre parece Jeffrey’s, mas…alguma coisa.
Dito isso, voltemos ao motivo desse texto: Bruce Gold.
Na faixa dos 60 e tantos, Bruce é um desses personagens literários, com uma intensidade de vida passada tão grande que pode se dar ao luxo de viver hoje serenamente, sem maiores sobr’olhos, como gostava de escrever o poeta Pessoa.
Lá por volta de 68, depois da famosa descoberta de Cape St-francis, no filme Endless Summer de Bruce Brown ( a onda então ficou conhecida como Bruce’s beauty), foi quando os surfistas sul-africanos começaram a explorar a costa que cercava Porth Elizabeth em busca de outra direita como a belezinha que os yankees tinham achado.
Em plena época do ‘Flower power’, a rapaziada viajava de carona, acampava na praia e surfava sem roupas de borracha em pleno frio de inverno.
Quem, deavisado, avista caminhando atualmente pelas areias da praia da Baía de Jeffrey’s, um coroa de roupas coloridas, parecendo aqueles malucos beleza que sairam de órbita e ainda não voltara, nem desconfia que quando o surfe está acima dos confortáveis 6 pés, Bruce Gold ainda é um dos melhores surfistas lá, wetsuit surrado, prancha velha.
Longa barba branca, magro, parece sempre estar pensando em algo de suma importância para o destino da humanidade, como por exemplo, a inutilidade de passar a vida em torno do surfe.
Sobre o desenvolvimento da cidade que escolheu pra morar desde o início da década de 70, Bruce diz que tem muitos automóveis, mas ele pouco se importa. Sua casinha é pra lá de simples, um barraco meio escondido.
Uma casa de surfista.
“- hoje é um dia maravilhoso para morrer.”
Diz o cara que traz ouro no nome e o surfe no coração.
Todo dia parece ser um dia maravilhoso pra fazer qualquer coisa, quando se trata do velhinho garoto que escolheu a vida que a comunidade inteira de surfistas deseja, mas que pouquíssimos tem coragem de aceitar como definitiva. Por isso é que a gente, meros mortais, devotamos tanta admiração a esses caras, no fundo é um pouquinho de inveja.
Inveja de assistir esses surfistas viverem uma vida tão simples, quase inútil, que sempre que podemos tentamos reproduzir quando nos arremessamos em busca de alguma onda, esteja a duas horas de carro, ou a dois dias de viagem, avião, ônibus, trem, carona….
E é nessa repetição que o surfista alcança a felicidade de nada fazer, de esperar sentado por uma onda no Mar, de passar dias aguardando uma ondulação que, pode ser que venha, pode ser que não venha. O que vale é a espera.
No fundo acho que somos todos meio Bruce Gold.

2 comentários:

Anônimo disse...

Grande post Júlio!Oxalá tudo fosse tão Gold quanto o Bruce. Um abraço!

MCG

Anônimo disse...

é júlio, desconfio cada vez mais que a época dourada do surfe já passou mesmo [mas continua no coração de caras como esse bruce gold], ainda mais depois de assistir ontem ao filme tubular swells. MP, Mark Richards [que balé era aquele?, quanta arte, velocidade, incrível como usava as pernas com a precisão de maõs de esgrimista, o movimento perfeito, belo...], Lopez [todos sabem que ninguém dominou tanto uma onda, tão naturalmente, como ele em Pipeline, toureiro era pouco]...
tá, a tal da evolução... mas dá para comparar a arte do gaivota ferida com esses voadores de hoje? ou não tem nada a ver fazer essa relação? só sei que é muito melhor, e inspira muito mais a surfar, ver as cenas desses mitos do que qulaquer outra coisa. como sugestão, escreve sobre o MR, escreve sobre a arte perdida, por favor
abraço, zé augusto