sexta-feira, junho 25, 2004

Pelé, o Édson.

[Juro que não é preguiça, mas depois de ler o Ricardo Calil hoje no saite nominimo.com.br, deu vontade de publicar inteiro a crítica. Ainda não vi o filme.
Confio no Calil.]



Pelé: eterno, omisso e cafona



25.06.2004 |  Um filme sobre o mais elegante jogador de futebol da história pode ser cafona? Um filme que consegue resgatar 300 gols desse craque, quase todos brilhantes e muitos deles inéditos nas telas, pode ainda assim ser omisso? Um filme com texto de um grande cronista esportivo pode estar repleto de clichês futebolísticos?

Se esse filme for “Pelé Eterno”, documentário de Aníbal Massaini Neto que estréia hoje nos cinemas brasileiros, a resposta para todas essas perguntas é, infelizmente, sim. A produção consegue ser, ao mesmo tempo, imperdível pelo conteúdo que mostra, criticável pela forma com que mostra e imperdoável pelo que esconde.

Em primeiro lugar, o imperdível: o belo trabalho de pesquisa e restauro de imagens, que demorou cinco anos e percorreu o mundo todo. Graças a ele, o público poderá ver pela primeira vez no cinema a estréia de Pelé no Maracanã, aos 17 anos, jogando com a camisa do Vasco, em um combinado do Santos com o time carioca; a estréia de Pelé na seleção brasileira em 1957, também no Maracanã; e o gol mais rápido de sua carreira, com 30 segundos de jogo, contra o Corinthians, entre várias cenas inéditas.

Além disso, poderá conhecer melhor algumas histórias lendárias, muito bem ilustradas e comentadas, como a da expulsão do juiz colombiano que deu cartão vermelho a Pelé ou a da trégua na guerra entre dois países africanos para ver uma partida com o atleta. As cenas antigas têm o duplo poder de nos deixar maravilhados, ao vermos o maior jogador da história no seu auge, e melancólicos, ao lembrarmos como a bola de futebol parece muito menos redonda hoje em dia.

Agora, a parte criticável: texto e visual do filme são de uma cafonice ímpar. E vale a pena abrir parênteses aqui para a definição do “Aurélio” para cafona: “diz-se da pessoa que, com aparência ou pretensão de elegância, foge ao que convencionalmente é de bom gosto”. E, embora gosto sempre se discuta, as inúmeras passagens bregas que tentam parecer sofisticadas no filme deixam pouca margem a dúvidas.

A produção fez grande estardalhaço sobre a reconstituição em computador daquele que é considerado o gol mais bonito da carreira de Pelé, conhecido como o gol da Rua Javari. Pelé chapelou três jogadores e depois o goleiro do Juventus antes de marcar, sem que nenhuma câmera tenha registrado o feito. Essa passagem foi anunciada como uma revolução na animação gráfica brasileira. Na tela, porém, lembra uma versão piorada do game Fifa Soccer.

Esse não é um caso isolado. Todas as vinhetas eletrônicas do filme padecem da mesma deselegância indiscreta. E o documentário utiliza o tempo todo um recurso incômodo e dispersivo: enquanto são exibidas cenas antigas de jogos em preto-e-branco, surgem no canto direito da tela as cabeças coloridas de pessoas comentando as jogadas, como se tivessem sido guilhotinadas.

Além disso, as declarações de Pelé parecem ser, em sua maioria, decoradas e interpretadas. E, como ator, ele sempre foi um grande jogador de futebol. Assim, essas cenas lembram de forma constrangedora as propagandas que ele fez para o Viagra ou a Vitasay.

Já o texto de Armando Nogueira tem uma certa tendência ao parnasianismo da crônica esportiva de antigamente: “Pelé e a bola nasceram um para o outro e viveram um pacto de amor eterno”. Ou para o clichê puro e simples: “Quem é rei nunca perde a majestade”. Nas efêmeras páginas de jornal, pode até funcionar. Na tela, porém, a poesia do texto é pequena e redundante em relação à de Pelé.

Em outros momentos, a coisa descamba para a grosseria mesmo. Por exemplo, as metáforas futebolísticas que o filme usa para falar dos “gols” que Pelé marcou com as mulheres – algo muito apropriado para uma mesa de boteco, mas não para um documentário. Talvez a cafonice do filme como um todo, além de alguns momentos de cafajestismo, seja uma herança tardia da experiência do diretor Aníbal Massaini Neto como produtor de pornochanchadas nos anos 70.

Por fim, vamos à parte imperdoável: o documentário é uma cinebiografia autorizada, definida pelo protagonista como “a Bíblia do Pelé”, o que significa que qualquer coisa prejudicial a sua imagem foi deixada de lado. Nesse sentido, o filme é mais um esforço para separar o Édson do Pelé, o homem do mito, posição muito confortável para o jogador, mas que não permite a compreensão total de sua personalidade.

Sobre a polêmica carreira empresarial de Pelé, o filme trata apenas de pequenos negócios malsucedidos dos anos 60. Pelé conclui que seu problema sempre foi confiar demais nas pessoas (em sua recente participação na novela “Celebridade”, ele dá um recado parecido: “Manda dizer para a Maria Clara que eu também já fui traído, mas dei a volta por cima”). Nada é mostrado sobre as acusações de falcatruas contra as empresas de Pelé nos anos 90.

A respeito do uso de sua imagem por políticos, o filme se resume a mostrar Pelé ao lado de Juscelino e Jango, mas nunca junto aos presidentes da ditadura. Por outro lado, o documentário utiliza como trilha sonora, sem qualquer dose de ironia, o hino ufanista do governo militar, “Pra Frente Brasil”, na voz de Zeca Pagodinho.

Sobre a condição do negro no Brasil, o filme traz uma pomposa declaração de Pelé sobre seu orgulho racial, mas não cita que ele foi constantemente acusado de não se engajar na luta contra o preconceito. Sobre seus filhos fora do casamento, cita de passagem que ele reconheceu judicialmente a filha Sandra Regina, mas esquece de dizer que isso aconteceu a contragosto, depois de vários exames e de uma longa batalha judicial.

Mesmo seus pequenos pecados no futebol, como o hábito de revidar os pontapés ou simular faltas que não recebeu, são elogiados no filme como um exemplo de boa malandragem. Mas talvez o maior problema de “Pelé Eterno” seja a falta de generosidade. Em nenhum momento Pelé destaca, por exemplo, a importância de seus companheiros Edu e Coutinho no Santos, ou de Garrincha ou Tostão na seleção. É um filme com um protagonista e nenhum coadjuvante.

Apesar de todos esses problemas, os lances geniais e casos saborosos tornam “Pelé Eterno” um programa interessante não apenas para quem gosta de futebol, mas também para quem ama o cinema. Se, como definiu o cineasta Samuel Füller, o cinema é “emotion/ a motion” (emoção/movimento), não pode haver nada mais cinematográfico que um drible ou um gol do maior jogador todos os tempos.

calil@nominimo.ibest.com.br

Um comentário:

Anônimo disse...

Pois é Julio, como você, eu também estou me programando para ver, e mostrar aos meus filhos, o filme do Pelé.
Porém tenho de vir aqui criticar, talvez a únuca falha do crítico Calil. Falha típica de quem nunca jogou futebol organizado, nem nunca foi cassado em campo por jogar futebol muito melhor que os outros. "Nos seus pequenos pecados" eu vejo a redenção do único gênio do futebol que conseguia revidar os botineiros e ainda ganhar a falta. Deve ser porque o Sr. Calil era um botineiro nas peladas e se achou no direito de entrar de sola.
No mais, um abraço
Boi