sexta-feira, maio 07, 2004

The Performers


Muhamad Bugs, a tirada mais elegante do circuito

(João Valente me encomendou uma série de textos sobre os filmes que mais influenciaram o surfe na minha modesta opinião. Chamava-se 'Os filmes da minha vida', inspirado na coluna de um crítico de cinema português que o Bala admirava. Por preguiça paramos a série ainda no seu comecinho.
Aproveito agora para republicar e, quem sabe ?, dar continuidade à bendita idéia do J.V.)

O inverno havaiano de 83/84 foi pleno de histórias que, contadas hoje, parecem fruto de imaginação fértil e forte influência de substâncias ilegais.
Boa parte dessas lendas partiram de um trio de australianos liderados por um surfista enlouquecido pelo estrelato e a vontade de tornar-se bi-campeão mundial. Seu nome ?
Wayne “Rabbit” Bartholomeu.
Pensem em David Bowie.
Imaginem Mick Jagger.
Escutem David Byrne.
Vejam Rabbit.
Campeão do mundo em 1978, Rabbit chegou no Havaí em 83 com a missão de tutelar a primeira temporada dos jovens James “Chappy” Jennings e Gary “Kong” Elkerton, e treinar feito um louco para conquistar o tão sonhado bi – Rabbit tinha solidificado uma vantagem sobre Tom Carrol de 850 pontos antes do Havaí!
Isso numa época que a Quiksilver começava a investir numa imagem de surfista “Pop-star”, quando criaram o ‘slogan’: If you can’t rock’n roll, don’t fuckin’ come!”, os famosos shorts com estrelas.
E Rabbit, naturalmente.
Nessa atmosfera de glamour do profissionalismo emergente dos anos 80 – dois anos mais tarde, Tom Carrol seria o primeiro surfista a assinar um contrato de 1 Milhão de Dólares, por cinco anos, com a própria Quik – surgia então uma novíssima maneira de divulgar e eternizar nossos heróis: O vídeo.
The Performers não foi o primeiro, imagino que não, mas foi sem dúvida nenhuma a mais poderosa arma da guerra que se anunciava entre as grandes marcas de surfwear.
A abertura é clássica e inesquecível.
Um album de fotografias contando a história do surfe desde os primórdios, com fotos do Bishop Museum, passando deliciosamente pelo Duke, Wally Froiseth, Malibu, San Onofre, Dora, Rincon, MP, Nat, Carrol e Curren. Tudo com data e nome na legenda da foto, aula de história – com Pink Floyd ao fundo.
Uma frase da música “Another brick in the wall” resume todo momento que o surfe passava em meados de 80 e uma cena, aparentemente despretensiosa, ilustra a senteça com a imagem de dois surfistas caminhando, pranchas equilibradas na cabeça, óculos escuros Vuarnet e um sorriso malicioso no canto da boca, a frase tinha sentido universal: “We don’t need no education”.
Harry Hodge, conhecido com Hollywood Harry, o homem que deixou a Quiksilver do tamanho que é hoje na Europa, dirigiu o filme e Jack Mac Coy, sempre ele!, fez a maior parte das imagens, nenhum dos dois, e isto é mera suposição, teriam a menor noção do impacto daquele início de filme.
A mensagem era clara: quem abraçava a vida voltada exclusivamente para o surfe não precisava de educação formal e tradicional – o que precisávamos saber estava ali.
Assistindo a mesma cena 20 anos depois, a tijolada é ainda mais forte, afinal escrevo sobre futilidades por mais de 15 anos, assim como Drew Kampion, John Severson, Steve Pezman, Cadilhe, Warshaw, Hynd e outra centena.
Ainda que limitada, chama-se a isso cultura.
Fugi do assunto e volto já.
O roteiro de Performers é conduzido por um programa de rádio enquanto Rabbit dirige pelo North shore escutando que “Pipe tem quebrado com mais de 10 pés e o baixinho Chappy Jennings pode ser baixo em estatura, mas bota pra baixo…”
Outra forma inédita e aborrecidamente copiada que o filme introduz são os perfis ( 300 anos antes do Taylor Steele), cada surfista é apresentado com um pedacinho só pra ele, com direito a preferências musicais e culinárias, local e data de nascimento e quiver de pranchas para o Havaí – isto era uma estratégia de marketing soberba, criação instântanea de ídolos.


Virada para os livros, geração Free Ride derrubando portas em Pipe.

A trilha tinha requintes cada vez mais raros em vídeos de surfe, como por exemplo, “This must be the place (Naïve Melody)” do Talking Heads, David Byrne cantando do fundo do coração: “Never for money, always for love!”.
O surfe ia assim perdendo sua alma ‘hippie’ e ganhando aspectos mais agressivos em campanhas publicitárias, “Se voce não surfa, não comece. Se surfa, não pare” alertava um. “Only a surfer knows the feeling”, aconselhava outro.
Enquanto isso, o velho Rabbit, então com 29 anos, carregava a turma nas costas, abrindo os caminhos e mostrando por onde a moçada podia andar sem medo.
O perfil de Rabbit encerra o vídeo, depois de Kong, Richard Cram, Marvin Foster, Max Medeiros, Willy Morris e cia, obviamente nos apontando quem estava no topo em suposta hierarquia da realeza.
Uma falha apenas no Performers que foi justamente consertada na sequência The Performers II: a ausência de Tom Carrol.
Exatamente por isso, pela mera presença de Carrol, The Performers II é outro vídeo fundamental.
E isso é outro papo.

The Performers (1984)

Direção – Harry Hodge

Produção – Bruce Raymond e Harry Hodge

Imagens (dentro e for a d’água) – Jack Mc Coy

Trilha – Simple Minds, Pink Floyd, John Cougar, Rose Tatoo, Inxs, Talking heads

Surfistas – Chappy Jennings, Gary “Kong” Elkerton, Marvin Foster, Max Medeiros, Richard Cram, Wes Laine, Mickey Neilson e Bryce Ellis.

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