quinta-feira, maio 06, 2004

A grande mentira

Na capa da Surfer estava estampada a grande manchete: The Big lie.
Logo no editorial Sam George conversava informalmente com o leitor sobre como tudo aquilo que se publicava era, vez ou outra, uma grande duma mentira.
O assunto tratava das fotografias publicadas, sempre espetaculares, mas enganosas no sucesso do sujeito retratado.
Me recordo - escrever lembrar está fora de moda, dizem...- do Matt Warshaw, esse mesmo, o autor da enciclopédia do surfe, discursando sobre imprensa além mar e apontando as revistas brasileiras como pobres na edição de fotografia, preocupadas demais em destacar os patrocinadores, na qualidade técnica da foto, mais do que, digamos, nas suas particularidades.
Numa rádio isso seria como tocar somente um sonzinho bem produzido e aparentemente comercial ao invés de arriscar numa coisa mais suja, autêntica e verdadeira.
Nesse caso, da rádio, ficaríamos todos ouvindo os artistas que dispôem de recursos, entenda-se grana, enquanto Pixies ou Sonic Youth seriam - e são! - desprezados pela dança do dial.
Aqui no Rio de janeiro nem temos mais quem toque música que preste na FM, assim como me recuso a gastar meu rico dinheirinho para ver fotos de surfistas medíocres, realizando movimentos ainda mais ridículos, com legendas do tipo: fulano de tal dando uma rasgada power em Rocky Point... cicrano voando com muito estilo em Ubatuba...
Espero sempre uns dois meses para folheá-las na casa de amigos que ainda batem ponto na banca, curiosos com o conteúdo da imprensa especialiazada tupininquim.
Comigo não, violão.
Nos meus loucos devaneios, fico aqui do cantinho torcendo para que surja um camarada realmente empolgado com o negócio e resolva exercer uma coisinha esquecida, conhecida no século passado como jornalismo.
Gostaria de ler na Fluir algo sobre a relação do nosso excelentíssimo presidente da CBS, orgão (Epa!) máximo do esporte perante o governo federal, Juca, e Peterson Rosa, tricampeão brasileiro, recordista de vitórias na Abrasp, ambos paranaenses - apesar do Bronco ter nascido, quero crer, em Santos.
Me intriga a trajetória, por vezes meteóricas, desses presidentes.
Mas não se acanhem em apontar toda minha ignorância, pois desconheço os meandros do surfe amador brasileiro faz tempo.
É apenas curiosidade de aficcionado...
Me encheria de alegria ler um artigo de 12 páginas na Hardcore, a mais surfe, esmiuçando as artimanhas da ASP, Prefeitura do Rio, WCT, orçamentos, prazos, agências, comissões, porcentagens e afins. Por que saiu do Rio, quanto custou, quem pagou ?
Isso tudo permeado com um histórico das premiações dos internacionais no Brasil, os grandes momentos, como aquele absurdo tubo do Slater na Barra, ou o terceiro lugar do Vitinho, com apenas 16 anos em 88, ou ainda o surpreendente quinto lugar do Fedelho no primeiro Hang Loose na Joaca perfeita, o da retomada, em 1986.
Por que não uma longa entrevista com Valdir Vargas, ou Cauli, sobre os primeiros passos do Brasil no recém criado circo da IPS, mais tarde ASP, na Alma Surf (sem o E), que tanto gosta de ostentar uma relação mais íntima com o surfe (com E) e seu legado.
Como se criar um leitor exigente e crítico com textos tratando os pobres coitados como retardados ? explicando tim-tim por tim-tim temendo que não compre a revista no mês seguinte.
Querem ver um fato curioso ?
De todos colunistas que escrevem para essa tal imprensa especializada, uma meia dúzia, apenas os cariocas tem a pachorra de publicar opinião.
Seria isso uma pergunta ?
Sem bairrismos, por favor.
Isso é fato.
Na Fluir temos o Fred e o Bocão - e antes tinha o Rominho.
Podem me apontar um camarada com texto à altura dos dois acima que arrisque um textozinho mais ácido sobre assunto relevante ?
Na grande rede surgem alternativas, como o Pierre Alfredo de Floripa, que faz um texto solto e divertido no saite s365.com.br, indicado pelo internauta Felipe 'Fiu' depois de uma troca de imeios exasperada em meio a uma frustrada aula de gramática.
Dizia Paulo Francis no seu insubstituível Diário da Corte na Folha e Globo em 90: ' Há saídas, estreitas, mas seguras e claras, do entretenimento de massa e sua intolerável boçalidade'.
Este texto vai sem foto para distrair.

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