sábado, maio 22, 2004

A estrela



Enquanto ele se afastava lentamente, ouvia o camarada repetindo:’Aquele cara pegava pra caralho! Aquele mesmo, surfava muito….’
Nunca foi tão triste uma frase solta, reverênciosa.
Era noite, 21 de Maio, um frio de usar casaco e cachecol, as ruas das Acácias e Oitis estavam vazias – e era uma sexta-feira!
Fez o mesmo caminho que já fizera tantas vezes, desta vez cabisbaixo, embora fosse um ser curvado por natureza, levava um peso imenso nos ombros que o empurrava para baixo. Voltava duma tentativa de reintegração à sociedade, mal-sucedida como sempre.
Teve dias felizes, quando, no mesmo trajeto, sorria e andava com passo firme e rápido, desta vez o passo era lento, arrastado, e o sorriso, não era.
Há de passar, pensava ele.
Há de passar…
Esbarrou na esquina com um velho conhecido no buteco:
Grande!!…Quanto tempo!…
Pois é.
E aí cara, tudo legal ?
Tudo. Respondia lacônico, sem palavras.
O ‘velho amigo’ falava sobre uma revista antiga, com fotos inesquecíveis dele, um tubo, Ipanema.
Ele fingia prestar atenção mas sua cabeça estava em outro lugar.
Dia 21.
Nos últimos 3 anos e quatro meses pontualmente celebrava todo mês o dia 21.
Numa das suas viagens descobriu a paixão pelas estrelas – pela leitura das estrelas, pela forma delas, o brilho subjugando a morte.
Ficou obcecado por estrelas.
Sabia o nome e o significado de todas elas, Algol, Mintaka, Sírius e Arcturo, estudou a tábua de levar estrelas dos chineses e o Kamal, instrumento usado por Vasco da Gama para orientar-se quando navegando à caminho das Índias, por sugestão dos avançados navegadores árabes.
Passava as noites observando os astros no céu, escolhendo atento para onde olhar, procurando por uma estrela cadente.
Nunca tinha visto uma sequer.
Rodava o mundo e em cada canto ele sentava confortavelmente e tratava de olhar, fascinado, para os diferentes céus. Estrelados, nublados, cinzas, fugidios, portentosos, tímidos, exibidos…
Mas nunca acompanhou uma estrela cadente. Por que ? ele se perguntava.
Olhando para o céu, ele deixava de ver tanta coisa aqui embaixo.
Esperava ansiosamente o entardecer para poder admirar a primeira estrela.
Logo encantava-se com a quantidade de pontinhos brancos, verdes e vermelhos salpicando o céu e suspirava com a esperança de ver, ao menos uma vez, uma estrela cadente.
Pois foi num 21 de janeiro que uma estrela mudaria o rumo da sua vida sem rumo.
A areia estava morna ainda do calor do dia, seus pés moldavam-se nas pequenas dunas a cada passo.
Sentiu uma sensação estranho na sola descalça.
Acocorou-se para ver no que tinha pisado.
Uma Estrela do Mar.
Apanhou com todo cuidado a Estrela do mar, meia seca, distante do seu habitat, parecia precisar de água salgada.
Levou-a para perto do rosto onde poderia sentir os odores que ela emanava e olhar com retidão para descobrir algum movimento.
Continuou caminhando em direção ao Mar, como que atraído por alguma coisa que não podia resistir.
Quando a primeira onda molhou suas canelas percebeu que a estrela se agitou.
Sentindo-se um imbecil e perguntou à estrela se ela queria mergulhar.
Ao que a estrela demorasse demais para mui improvavelmente responder sua pergunta, ele a lançou pro Mar.
O Mar sorriu nesse momento.
De repente, ele percebeu que tinha esquecido completamente do céu e agora estava olhando terno para o Mar.
Passou horas a fio vendo ondas brincando com a luz da lua, mas não olhou para a lua.
Amanheceu na praia, olhando fixo, procurando a estrela do mar.
Uma generosa onda trouxe a estrela aos seus pés, ele a olhou agradecido e imaginou que ela, quem sabe ? tambem teria gratidão pelo gesto.
Pela primeira vez na vida ele tinha se sentido responsável por alguem - por alguma coisa.
Ele tinha feito a diferença, por alguns momentos, ele e a estrela eram um só.
Estava agora parado, no buteco da esquina, tentando se concentrar na conversa do parceiro já mamado das cervejas e afins que a hora sugeria.
Que mar ! Cê lembra ? nós dois lá fora, esperando um série…
A cabeça dele voltava e revivia cada momento daquele dia 21, da sua estrela do mar, a primeira estrela, a única.
Mas a estrela não era dele, era do mar e o mar acaba por levar tudo que dá.
Seguiu em frente enquanto ouvia ainda o camarada do buteco, braço em volta do ombro do outro, falando em voz alta, todo orgulhoso:
Vai ali um grande cara, meio esquisito, mas um grande sujeito. Ultimamente todas as pranchas dele tinham uma estrela do mar. Nunca soube porque…

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