terça-feira, abril 06, 2004

Goiabada azul líquida saborosa (clica aqui e compra logo!!)

[tentando estimular essa turma a escutar alguma coisa diferente do que as merdas que publicam como surf music, escrevi essa resenha para a mini-revistinha Venice, de Sampa. Nem lembro se publicaram... dou mais uma chance, né ? O CD é de 2002]






Superágua é o primeiro fruto legítimo da fusão surfe e paisagens sonoras, melhor que isso: é a cisão do som líquido, salgado e pegajoso com os deleites tecnológicos dos crepúsculos Ipanemenses.
Deu para entender ?
Explico: Começou assim, meio completamente despretensioso, dois camaradas juntando a larica e vontade de comer um doce desses cheios de bossa.
Jonas Rocha, surfista e baterista de uma bandinha de música jamaicana, cismou com esse negócio de fazer som eletrônico, um belo dia acordou DJ e produtor: ele e o Mac.
Chamou Ulisses Capeletti, guitarrista do Squaws, uma turma que seguia os passos do Hip-hop misturado com Punk e mais um monte de elementos que crítico gosta de citar pra simular erudição.
Era mais ou menos assim, Jonas compunha uma base, mostrava pro Ulisses que prontamente solava uns barulhinhos que não atrapalhasse muito a viagem do parceiro e criava outra viagem - uma dentro da outra.
E o surfe com isso ?
Calma que já chego lá...
Catalisador dessa história toda, o video-poeta Pepê Cezar, em plena confecção da sua obra, "A onda é um caminho sem volta", reuniu os doidos numa tarde de verão e encomendou a trilha do filme.
Nasceu assim, no seio do Jardim Botânico, na zona-sul do Rio de janeiro, cerveja vai, cerveja vem (repararam o trocadilho ?) o Superágua.
Isso era 2000, lá pelo início do sélico, como diria Matildes Maria dos Santos, que trabalhava na casa de Dona Aninha, mas essa é uma outra conversa....
Demoraram dois anos pra terminar o disco ( me perdoem se chamo de disco, é a idade...), arrumar um selo, criaram o próprio, Zoo Records, elogio a torto e a direita de Beltrano e Fulano.
Jonas e Ulisses reconhecem a influência dos Air, João Donato, Kruder e seu sócio, Dorfmeister, Mingus (esse pelo menos no nome de uma das faixas...), Samba, Bossa-nova, Bossa-velha, o Dub do Lee Perry e, ufa!, House, seria deep House ? Confesso que nem faço idéia.
Aliás, nas referências acima, onde desfilo meu conhecimento copy/paste, a maioria dos citados são pura fantasia minha.
De certo nessa conversa, é o lançamento do Superágua, antes de sairem em disco própio em duas coletâneas de musica eletrônica aqui no Brasil e uma em Portugal.
Uma remistura feita sem encomenda por um DJ Britânico e um bafafá de estrelas rasgando seda antes sequer dos meninos apertarem alguma coisa, senão os teclados.
O disco tem a suavidade da maré cheia. Nos empresta a sensação gostosa que é pisar na areia da praia depois de passar o dia inteiro calçado de meia e sapato.
Logo na primeira faixa, a voz feminina declama versinhos do "Puizía", primeiro livro do Pepê, de cabeça : "Mar salgado Lar...", isso numa atmosfera de colchão de água.
O som vai profundo, narcótico, insistente, sem martelos, apenas almofadas, milhares de almofadas caindo feito chuva, resvalando na gente, sem nunca atingir-nos. Ás vezes garoa, outras, enxurrada.
Não esperem escuta-lo em rádios.
Se quiserem mesmo, á vera, curtir esse suco, esprema bem espremido, despeje num copo grande, gelo, guarda-chuvinha pra decorar, uma rede, pode ser no amanhecer ou no entardecer, em Sampa, no Rio ou Itapoã...

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