Mostrando postagens com marcador Joao Capucho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Joao Capucho. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, setembro 11, 2013

Como Portugal devorou o Surfe


[Artigo do João Capucho para o Jornal I sobre a fragilidade da ASP e a força do Surfe Português]


Tomada de posse da ZoSea.  Em 2013, os dois circuitos mundiais profissionais de surf disputados sobre a égide da ASP – Association of Surfing Professionals oferecerão, na categoria masculina, uma premiação monetária total de 8.6 milhões de dólares, distribuídos entre os 4.5 milhões das 10 provas do WCT (World Championship Tour ou, “Grand Slam” se preferirem) e os 4.1 milhões oferecidos pela soma dos 29 eventos do circuito mundial de qualificação (WQS ou World Qualifying Series). Apesar da crescente popularidade do surf, esta cifra corresponde ao segundo ano consecutivo em que se regista uma redução na premiação total dos eventos da ASP, depois de, em 2011, se terem atingido os níveis recorde históricos de 10.7 milhões de dólares repartidos por 50 eventos (masculinos). Coincidência ou não, 2013 marca também o ano de viragem no modelo de governo da ASP, naquilo que muitos erradamente consideraram como uma privatização (a ASP, ainda que associativa, já era privada, ie dos socios) mas que em boa verdade corresponde a uma cedência dos direitos de exploração à Zosea, um grupo media sem historial e aparentemente constituido para o efeito, cedência esta articulada com contratação de um novo CEO para a nova organização conjunta a qual também, naturalmente, recebe um novo modelo de votação interna. Em resumo, uma clara incorporação de competencias media, de marketing desportivo e de revenda de direitos de televisão de que a ASP claramente necessitava e que portanto tem efectivamente condições para resultar.
Consequências da crise. Esta alteração, expectável, visa pois, naturalmente a diversificação das fontes de receita dos vários circuitos (com maior incidência no WCT), altamente dependentes do financiamento da “troika” Rip Curl / Billabong / Quilksilver, os três gigantes da indústria do surfwear que dominavam os destinos (os votos) da “antiga” ASP mas que foram varridos por uma forte redução das vendas em todo o mundo e, como sociedades abertas (ie, cotadas em bolsa – excepto Rip Curl) por consequente insatisfação dos seus accionistas. Tais alterações de politica na nova ASP, em meu entender, terão de materializar-se na angariação de um ou mais umbrella sponsors para o WCT, na venda por atacado dos direitos de TV, no pay-per-view ou na subscrição das transmissões em directo dos eventos, como ainda muito provavelmente na bilhética e no merchandise global (por oposição ao merchandise evento a evento), tornando desta forma o surf num produto com o mix de receitas semelhante ao futebol (para simplificar, 33,3% sponsoring, 33,3% direitos TV, 33,3% bilhética e merchandise). Em termos práticos, para os fãs e espectadores, pelo fim da gratuitidade seja no local de prova seja, mais provavelmente, no conforto do sofá ou da secretária.
Dream Tour Estas mudanças materializar-se-ão primeiro nos eventos do WCT, o principal produto, e implicarão certamente acesas discussões sobre a sua difícil compatibilidade com o conceito de Dream Tour, ou melhor, ondas perfeitas em paraísos tropicais remotos com água quente e cristalina. Este – o Dream Tour – tem, a meu ver, os dias contados mesmo na ressaca de um fenomenal evento nas ilhas Fidji ou no arranque idilico nas direitas de Keramas em Bali. Os direitos de TV e o pay-per-view implicam que os eventos pensem mais em que está a vê-los do que em quem está a “fazê-los”.  Porque, quem os vê é quem paga a quem os faz. Provas urbanas como o Rio de Janeiro tenderão a ganhar um peso reforçado e/ou a serem complementadas com provas em piscinas com ondas artificiais (e receitas de bancada) e a “vida boa” de apenas 10 eventos de 11 dias cada tem os dias contados. Veja-se por exemplo, a ingenuidade ou o “amadorismo” de arrancar Fidji, em pleno prime-time na Europa, com uma competição não oficial de um dos patrocinadores da prova e deixar o fillet mignon para quando um vasto continente...estava a dormir. Tudo tende a aproximar-se do modelo da Formula 1 e do Moto GP com 14 a 16 provas, mantendo-se, por exemplo, o núcleo duro de Taiti, Havai, Califórnia, Europa (Portugal, Espanha ou França) e Austrália (Kirra ou Bells) às quais se juntarão novas provas, de duração mais curta e horários mais certos, isto é e, menos (ou nada) dependentes da “onda perfeita”. E mesmo assim, desenganem-se os mais puristas pois no Moto GP, as provas asiáticas disputam-se à noite para “bater certo” com os habitos dos espectadores europeus, os seus maiores fãs.
Os números não mentem. Discordará de mim a corrente mais puritana do surf que tem hoje, gratuitamente na TV ou in-situ, um espectáculo de primeira água (na verdadeira acepção da palavra) mas que, no fundo, não é sustentável. E tanto não o é que, os números não mentem. A enorme visibilidade do WCT correspondeu, desde 2007, a um crescimento médio anual de 9% na premiação monetária mas, no mesmo período, a premiação monetária do WQS cresceu apenas a uma taxa anual de 4% e, desde 2010, tem caído a pique, com o nº de eventos a baixar de 46 paragens naquele ano para 29 este ano. Pior. A crise na Europa agravou o cenário e, depois de quatro anos consecutivos (2007 a 2010) com mais de 12 eventos de qualificação no Velho Continente, em 2013 realizam-se apenas 4 (!!) campeonatos, contra 5 em 2012 e 8 em 2011. Significa isto que o cobertor que se usou para tapar a cabeça do WCT foi ficando cada vez mais curto e destapou os pés do WQS, a base, que vai morrendo de frio e definhando.
Alterações radicais necessárias Tais factos implicam pois que, também o WQS terá de sofrer alterações radicais que, em meu entender podem passar pelo fim dos “Primes” (um conceito vago “entalado” entre um WCT barato, sem o ser, e um WQS de 6 estrelas caro, sem necessitar de o ser), pela redução dos graus para apenas 3 ou 4 níveis (numa medida semelhante ao ténis que tem apenas os ATP 250, 500, 750 e 1000 antes dos Grand Slam e Masters) e, admito, para alguma regionalização da qualificação e atribuição de vagas para o WCT por região (como os mundiais de futebol da FIFA), diminuindo desta forma o custo de participação e aumentando os fees e quotas da própria ASP através da participação de mais surfistas. Não é preciso inventar a roda. Desportos comercialmente evoluidos e disputados à escala global, já encontrararam mecanismos, camadas ou fases/qualifiacações, locais, nacionais, continentais e mundiais para as suas competições. E estas mudanças podem também contribuir para a captação de regional sponsors, uma camada acima dos local/event sponsors. A médio prazo, com este modelo consolidado, o surf feminino, em clara ascensão, visibilidade e sex-symbols deve, como no tenis aquando da criação da WTA como cisao da competição feminina da ATP, seguir o seu caminho.
Portugal no mapa do surf mundial Portugal, quer através da Federação – limitada na acção por ser apenas afiliada na ISA - quer através dos patrocinadores e organizadores deve estar preparada para este caminho e deve ser, por um lado, mais selectivo e, por outro, mais exigente com a ASP. Com várias autarquias e autonomia(s) a quererem levar para o seu município ou região, num ano de eleições autárquicas, o titulo da “melhor onda”, o investimento do país – que estimo em quase 50% de oriundo de fundos públicos  – em provas da ASP, corresponderá, em 2013, e apenas na prova masculina, a cerca de 950 mil dólares de prémios monetários distribuídos por 3 eventos, quase 11% do total dos prémios pagos por todo o tour da ASP, quando, em 2007, os 4 eventos masculinos cá disputados apenas correspondiam a 3% do total. Este peso não tem a mínima correspondência nem na participação de atletas portugueses nem na presença de competentes gestores, técnicos, árbitros ou profissionais portugueses nas instâncias da ASP, muito por culpa da nossa incapacidade de arranjar consensos, trabalhar em rede e apagar pequenas rivalidades locais. Tudo isto, creio, vai, ou melhor, tem de mudar.

segunda-feira, setembro 09, 2013

How Portuguese Devour Surfing


[João Capucho explains how fragile ASP is - and how strong a simple Country can be]

In 2013, the ASP’s two professional male surfing tours will grant a total purse of 8.6 million dollars, 4.5 of which being given to surfers at the World Championship Tour (WCT) 10 stops and the remainder coming from the World Qualifying Series ‘(WQS) 29 events throughout the globe. Despite surfing’s increasing popularity, this means total prize money has decreased for two consecutive years up from an historically record figure of roughly 11 million dollars and 50 events in 2011. This has coincided in time with a radical change in ASP’s governance model which has been (wrongly) named as a takeover on the ruling body of professional surfing. Basically, what the ASP did was a full sale of its  rights over  its major competitions to an apparently freshly incorporated, unknown media group named ZoSea Media. Towards event license owners – corporate surfing brands - ZoSea assumed the responsibility of putting in place the WCT and, regarding surfers, it has promised them the much awaited pension plan and, of course, extra prize-money, in exchange for their voting rights on the organization. This allowed Zosea to appoint a new ASP management team bringing new marketing and business skills and probably the end of the historical governance model by ex-professional surfers and more salted eyebrows.
With the WCT funding needs highly dependent on a troubled RipCurl / Quiksilver and Billabong troika, this deal came with no surprise as these companies – who had voting rights on the former ASP – dramatically need to cut their costs to cope with falling revenues worldwide. However this will fuel a dramatic change in the ASP’s business model and revenue breakdown in the world surfing tour(s). In fact, ZoSea will have to speed up some measures that have been postponed or skipped by former managers f the Organization. First, the WCT must rapidly find an umbrella or naming sponsor. Second, the ASP (ZoSea) will have to (re) sell its TV rights either as a bulk and/or to as a pay-per-view scheme forcing its million fans worldwide to start paying for something they’ve always had for free in the past. Moreover, as an umbrella sponsor pops up it will probably go beyond on merchandising products and, last but not least, the end of this-absolutely-free show (the WCT) may be closer as paid tickets is probably needed as another source of revenues. Definitely this will put surfing side by side with mature, developed and solid sports where sponsorships, tv rights, merchandising & tickets account, in equal portions, for every event revenue breakdown.
These much needed changes would first crystallise on the WCT and may be incompatible with the so-called Dream Tour, surfing events in remote tropical places with pristine water, palm trees and scarcely populated areas. Even in the aftermath of three stand out events in Bali, Fiji and Tahiti, the sale of TV rights and pay-per-view turn spectators into owners, fans into clients and, for example, time differences with Europe, the US and Brazil will probably have more to say than the intrinsic value of any given surfing spot. Urban beaches events like the ones of Rio, coupled with artificial wave events and shorter waiting periods will account for a larger portion of an WCT that will most likely include not 10 but 14 to 16 stops as the Formula 1 or the Moto GP world tour. Core ASP events such as Hawaii, Tahiti, Jeffrey’s Bay, Bells Beach will hopefully be kept as virgins but new venues, shorter events and, most probably, lower quality or artificial surf sports will bring the much needed extra dollars to surfers and organisers (ZoSea) and, as it happens with Moto GP and Formula 1, their schedules will rely more on the timetable zones and availability rather than offshore winds or adequate tides. The last Volcom event in Fiji was anecdotic and amateurship seemed to rule. On a week night, at 11 pm, Central European Time, millions of fans were waiting for the action to start in epic conditions but event organizers decided to start with a non-official competition (which, by the way, as a very similar name to the WQS of the ASP) leaving the fllet-mignon of the world’s top surfers to late night hours in Europe. Ridiculous.
However this is a mere realistic preview of what may be yet to come. The WCT is, no doubt, a prime sports show but it is totally free for both the spectators at home and at the beach and this has proved to be unsustainable. Sponsors either lacked or put their money on safe harbours (events) causing serious damages on the WCT foundation: the WQS. Since 2007, total purse in the (male) WCT posted a compound annual growth rate of 9% but, in the same period, prize money in the (male) WQS grew by a mere 4% per annum. Moreover it experienced a dramatic fall since 2010 when surfers had 46 events worldwide quite above this year’s 29 stops. Sovereign debt crisis and sluggish economies in Europe had an important role on this. From 2007 to 2010, the Old Continent had 12 WQS events but, in 2013, you can count them with the fingers of one of your hands. As we say in Portugal, someone put a blanket to cover its head but its feet (the WQS) ended up being uncovered, cold, with a long lasting flu with breathing problems, metaphorically speaking.
This means that the WQS itself will have to face, perhaps, its biggest revolution since it was created back in 1992. In order to avoid cannibalisation, the new ASP must put an end to the so called Prime events which are nothing but a vague concept, something in-between a cheap WCT and a 6 star WQS yet much more expensive.  It should get some inspiration in the ATP 250, 500, 750 and  ATP1000 events and get a new grid with only four level of events. It should also take in account that the current model is obsolete as it is very expensive for, say, an aspirational European surfer to start its international career with qualifying events in Brazil, Australia, Mexico or Japan. This means that surfing should also get further inspiration with soccer and start thinking about continental rather than global entries to the WCT. This would mean, for example, that Europe, Americas, Africa, Asia and Australia would have allocated entries to the WCT thus reducing the costs of participation of surfers, broadening the number of ASP members, turning surfing into a truly global sport and eventually bring new regional or continental  sponsorship opportunities. Just look for the Portuguese example. In 2013, Portugal, a small 10 million people country in Western Europe, will account, in 2013, for more than 11% of the ASP total (male) events purse, up from a mere 3% in 2007. Moreover its first ASP event was held in 1989 and it has always belong to the ASPs calendars since then. However, on one hand, this has absolute no relation with the percentage of surfers ranked in the .WQS, judges in the judges panel or even managers in the ASP scope. Ironically, out of the 3 events held in Portugal, 1 is a WCT and 2 are Prime WQS all of them with closed doors to a significant number of good young Portuguese surfers.
More changes may be seen in the horizon: girls. The ASP has historically disdained the Women tour. The girls, themselves, also have their share in the fail. However, in the past two years, female surfers have been granted a lot of media and air time, as both their sex appeal and performance raised to unprecedented levels. This may force a peaceful spin-off on the ASP like the one we saw 40(!) years ago in WTA (Women Tennis Association).