segunda-feira, janeiro 23, 2017

Midget






Surfista australiano mais importante da história,

Bernard 'Midget' Farrelly bateu as botas no dia 6 de agosto, tinha 71 anos.

Tão complicado quanto arriscado começar um texto esse tipo de afirmação, principalmente recordando que a terra de Oz nos deu Nat Young, Mark Richards, MP, Rabbit, Bob McTavish, Tom Carroll, Simon Anderson, Wayne Lynch, Occy, Alby Falzon, Fanning e a lista ainda continua.

Farrelly colocou a Australia no mapa quando, com 18 aninhos recém completos, venceu o evento de maior prestigio do ainda pequeno planeta surfe, o Makaha International Championship em 1962, superando os insuperáveis surfistas havaianos na casa deles.

Mal haviam se recuperado do choque, Midget (anão em inglês), arrastou o primeiro dos World Surfing Championships em Manly1964 para delírio de um público estimado em 65.000 Aussies empolgados.

Quando me refiro ao choque, falo diretamente dos norte americanos que dominavam completamente a cena do surfe desde o renascimento do surfe moderno com Duke.

Até então, surfistas australianos ainda eram tratados com alguma estranheza e mesmo o papa dos filmes de surfe da época, Bruce Brown, estampava apenas vacas do corajoso Bob Pike, pioneiro aussie nas bombas havaianas.

Qualquer semelhança com brasileiros, não é mera coincidência.

O envolvimento dele com a arte de conduzir sua prancha era de uma sutileza e sofisticação fora do comum, Midget chegou a praticar balé com a irmã,

Virar uma prancha 10’6’’ numa onda de 2 a 4 pés é quase uma dança, disse ele a respeito da vitória em Manly.

Ninguém foi mais dominante no surfe competitivo nos anos 60 do que ele, muito embora toda imprensa, dentro e fora da Australia só tivesse olhos (e lentes) para a jovem sensação Nat Young, campeão mundial em 1966.

Young cresceu idolatrando Midget, fotos espalhadas por todo quarto e uma obsessão pela técnica apurada de andar sempre perto da espuma, na parte mais forte da onda, um dos fundadores do que era conhecido como surfe funcional.

A sombra do gigantesco Nat Young escondeu Midget e jogou os dois numa das maiores rivalidades que nosso esporte já testemunhou.

Falastrão! gritava Midget

Chorão! respondia Young

Em seguida ao tão celebrado título do Nat Young, Farrelly chegou perto de repetir o feito de 64 duas vezes, dois vices, sempre na frente de Nat.

Em 1968 quando perdeu a final em Porto Rico para a zebra Fred Hemings, escolheu as maiores ondas com uma prancha grande demais e antiquada, com um surfe quadrado.

Eles (Midget e Nat) dançavam Rock n’ roll enquanto eu ficava só na valsa, diria Hemings depois da final.

Dois anos depois, em Bells, mais uma vez Midget beliscou, mas não levou o mundial.

Foi o californiano Rolf Aurness, com uma 6’10’’ esticada, que bateu Midget na final - Farrell já surfava com modelos bem menores, mais largos e manobráveis nessa época.

Modelos shapeados, pintados, laminados e lixados por ele.

Pouca gente dá o credito de Farrelly na metamorfose das pranchas na virada da decada, sempre se fala em McTavish e Greenough, mas Midget tem bem documentada sua influencia no design que transformaria o surfe em algo completamente diferente das caminhadas até o bico.

 Ainda em 1970, Midget ganhou o tradicional Gunston 500 em Durban, África do sul.

A carreira competitiva fica quase em segundo plano quando paramos para observar que Midget teve um impacto sem igual na Australia, mas não só…

Pioneiro na Asa delta, windsurf e tudo mais que tivesse liberdade e natureza unidas nas sensações.

Escreveu a pedra fundamental do surfe australiano, This Surfing Life, seu livro lançado em 1965.

Presente em todos momentos chave da organização do surfe como esporte.

Arredio aos holofotes, revoltou-se contra a geração que invadiu o seu amado surfe no final dos anos 60 e passou a militar contra as drogas, sem se deixar seduzir pela imagem colorida da lenga lenga do papo de contra cultura e vida alternativa.

Foi linchado e esquecido por isso.


Midget nunca perdeu o rumo.

Na comemoração dos 40 anos do seu histórico titulo mundial, recusou-se a comparecer quando soube que Nat Young estaria presente.

Prefiro ter o Nat como inimigo do que como amigo, disse ele a um reporter curioso.

Pode ser definido pela palavra Dignidade.

Um inconformista.

Uma frase arrancada do seu livro que já completou 50 anos, e soa bem melhor em ingles, diz,


When you're comfortable, you're dead.

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