sábado, abril 14, 2012

Furia


[Publicado em algum momento de 2011 nas Revistas Surf Portugal e Hardcore]



Joe wilson era um cidadão pacato, casamento marcado, convicções firmes e retas.
A caminho de encontrar sua noiva, Joe é preso injustamente, acusado dum crime que não cometeu.
Seu inferno começa ali, literalmente.
Uma multidão enfurecida quer lincha-lo de qualquer maneira e acaba por queimar a delegacia e todos os sonhos do rapaz.
Wilson escapa do incendio e dedica sua vida a condenar, silenciosamente, 22 acusados do linchamento à morte.
O grande Spencer Tracy interpreta Joe Wilson num dos classicos do cinema que ninguem deveria deixar de assistir.
O filme é de 1936, dirigido pelo alemão Fritz Lang, gênio da raça que fugiu do nazismo e foi contar historias na America. Furia (Fury, Fritz Lang, MGM, 1936, EUA) é seu primeiro filme em Hollywood e ainda hoje permanece atual como nunca.
O linchamento do filme é completamente irracional e covarde - como são todos.
A multidão irada não tem rosto.
Exatamente como na internet.
 Adriano de Souza é o novo líder da corrida ao titulo de 2011 e tudo que lemos nos outros idiomas é revolta e indignação.
Em nenhum outro momento da historia do surfe profissional um surfista foi tão severamente punido quanto Adriano depois da sua vitoria na etapa brasileira.
E por que ?
Porque a multidão o julgou e condenou pelo resultado da sua bateria contra Owen Wright.
Pela primeira vez em decadas a imprensa australiana e americana se solidarizam como irmãos.
Verdade que todas baterias mal julgadas que engolimos nos ultimos 25 anos de ASP não nos libera de qualquer culpa pelos erros alheios.
Injustiça não é uma exclusividade nossa.
Slater ainda hoje sofre com o julgamento, vide o proprio Owen x KS em Peniche 2009 ou mais recente, Slater x Sean Holmes 2010.
Acham que o Careca se cala ? 
Saibam que pouca gente reclama tanto e tão veementemente quanto ele.
A diferença é que Slater sabe a força duma imagem e faz tudo discretamente.
Não faz como Mineiro, Neco ou mesmo Alejo nesse início de carreira, com socos no ar, dedos em riste e comemorações energeticamente exasperadas para os padrões determinados pelos estrangeiros.
Nesse pre-estabelecido codigo de conduta, a comemoração é restrita apenas aos momentos de gloria reservado aos eleitos deles.
Se Taj comemora ao final duma onda, mesmo que tenha sido uma serie ridicula de meias manobras e um trivial aereo reverse na junção, desses que jamais entrariam nem nos extras do seu DVD, a malta ignara vibra junto com ele.
Quando Parko passa toda onda com suas belissimas alisadas de backside e fecha sua apresentação com uma linguagem corporal que pede um 9 - e consegue! - nos calamos todos num silencio ensurdecedor.
Há muito é deselegante demonstrar demasiada emoção, exceto, claro, no caso do Davo, por bizarro, e, Deus o tenha, Andy...



Como sempre fica cada vez mais claro que a ASP e todo circuito mundial nada mais é do que um pequeno feudo liderado pela auto-proclamada realeza, devidamente auxiliada pela nobreza e que nos resta apenas, como cortesãos e ralé, aplaudir e acenar sorrindo para as cameras.
Não perceberam ainda que, por mais que Adriano conquiste, jamais o veremos estampando uma pagina dupla do anuncio mensal do seu patrocinador ? Temos muito mais Adam Melling ou Sebastian Zietz do que nossos mulatos inzoneiros.
Alejo pode ter um começo de ano fantastico mas é Julian Wilson que se comunica com as massas.
Imaginem o Raoni num desses ultra-elaborados anuncios que abundam nas publicações fora do Salvelindo.
De jeito nenhum.
A lei do mercado não conta conosco pra dividir o bolo, servimos como fermento pra inchar os bolsos, contato que calados e obedientes.
A fúria do titulo do filme esta em todos cantos da tela, na turba enfurecida, na vingança do homem e até mesmo no espectador que ja não sabe mais pra quem torcer, se para a recuperação da hombridade do Joe Wilson ou para condenação dos 22 pobre coitados.
Nas dezenas de textos ironizando a inedita liderança brasileira revela-se o carater elitista de americanos e australianos ao tratar do fato historico com desdem e escarnio.
Nada diferente do que acontece aqui nos grandes centros, Rio, Porto Alegre, Sampa e arredores, em relação aos nordestinos ou nortistas.
Basta uma simples oportunidade para os que se julgam bem nascidos sair em bando raivoso atacando nordestinos, negros, indios e analfabetos como se eles não merecessem nosso respeito da mesma forma que seu vizinho de porta.
Joe Wilson consegue, no final do filme, que seus algozes sejam condenados mas não suporta o fardo de ter se tornado um deles.
Esse odio, as vezes disfarçado de analise ou sarcasmo, incentiva o que existe de pior no virtual e no real.
São as crianças que preferem brincar sozinhas a dividir o brinquedo, não por culpa delas, mas por exemplo dos pais e tutores que os educam desta forma.
A analogia pode parecer exagerada - não é.
Meu maior receio é que essa furia não tenha fim, nem dum lado, nem do outro.


4 comentários:

Marco C. disse...

grande texto Julio! é traduzir isso p inglês p'ra que essas palavras cheguem mais longe!

Anônimo disse...

ja faz algum tempo que só uso Hang Loose, Mormaii, Maresias, South to South, Evoke... pq nasci no Brasil, e graças a internet, tbm assisto aos "EVENTOS PROMOCIONAIS" da ASP c/ julgamentos bizarros

Surfocrata disse...

oportuna a republicação...algo me diz que os caras vão reclamar de novo depois da nossa etapa...

p.s. qto ao comentário anonimo: salvo engano se adquirir aqui no BR quik, rusty, volcom, e mais algumas uma bela fatia vai pra surfco. que é do Alfio...

Anônimo disse...

O que o dono da marca nacional faz com o dinheiro que merecidamente ganha???
Ele vai pro Hawaii, faz um quiver de Tokoros, Carpers ou Arakawas...
ou
Ele vai pra Tavarua, e no caminho passa na Califa...
Ou
então ele vai pra Oz com a família toda...
De qualquer forma, nossos Reais acabam sempre nas mãos dos gringos...
Por isso, consuma o que te pilhar para entrar na água e arrepiar, pois arrepiar é um estado de espírito.

Não consuma SERTANEJO...

Boas ondas
R.O