quarta-feira, novembro 10, 2010

Andy em 2002

Andy Irons Tribute from Brian Bielmann from M. Scott Mortensen on Vimeo.



[Texto escrito para o saite Waves em 2002]

Assim, de cabeça, sem franzir muito a testa, recordo meu primeiro contato com os irmãos Irons: Mundial amador de 94, 15 minutos daqui de casa, passo dois túneis, chego na Barra da Tijuca.
- 3 Real pra estacionar o carango... diz o Flanelinha- sem flanela.
- 'Xa comigo. Na Volta nóis acerta.. respondo arrastando um bocado o erre e caprichando na disconcordância verbal.
Nem tinha lá grandes coisas no Fuscão 76 para levar, mas vai que o malandro resolve incrementar minha pintura com rabiscos de chave de fenda ?
Seguro morreu de velho.
O Mar tinha dado aquela subida de meio de semana, quando ninguem espera reação do bom Netuno, metro e meio servido, como se diz aqui na antiga Guanabara. Ondas fechando pesadas e rápidas demais para tentar qualquer gracinha. Grossas. Uma ou outra, menorzinha, dava pra fazer o teatrinho competitivo e passar a bateria sem muito esforço.
O gordinho do Ben Aipa caminhava lado a lado com um pivete russinho, cabeleira quase tapando os olhos, desses que não duram 5 minutos numa cidade violenta como o Rio - ou Santos, vale a menção -, pranchinha Town & Country debaixo do bracinho magro, bermuda novinha da Quicksilver e o 'tio Ben' dando seus pitacos de onde se posicionar, pegar logo as tres até a beira, tal e coisa...
Esses jogos da I.S.A são muito curiosos de assistir. De repente, do nada, aparece um cabra surfando feito um doido, ganha um par de baterias difíceis e torna-se o favorito até ser humilhado na bateria seguinte - tudo no mesmo dia.
Então é bom prestar atenção, pois nunca se sabe quando, nem aonde, vai aparecer o próximo Gouveia.
Acomodei-me na areia lotada e apertei (opa!) os olhos para analisar bem o pentelhinho havaiano que estava prestes a entrar no Mar.
Muito marmanjo que conheço, eu incluso, remaria reticente para varar a rebentação nervosa do Meio da Barra naquela quarta-feira nublada, já o Bruce, mirradinho, entrou num instante. Mal soava a buzina inicial e ele vinha pendurado numa bomba, entubando de pé, marrento que só ele, 14 anos na cara apenas...
Aquilo mexeu com a turma que foi pega de surpresa com a mais nova promessa de campeão mundial - até hoje, quando junto uma meia dúzia de malandros em campeonato, seja estadual, mundial ou de bairro, sempre sai um futuro campeão do mundo das conversas empolgadas.
E o caçula dos Irons não ficou muito satisfeito com sua primeira onda e pegou bem mais umas cinco, sempre andando por dentro, sem se preocupar se dava pra sair ou não. Suas manobras nas junções assassinas eram completamente suicidas, quando tudo parecia acabado anunciaram o irmão mais velho, Andy.
Nessas alturas, um camarada do Caribe já nos alertara para o talento absurdo dos Irons para ondas volumosas, vindos do Kauai- terra adotada do padrasto do Laird Hamilton, Billy Hamilton-, primos do Rick Irons, um que pegava umas ondinhas em Pipe e cismava de competir no Bud Tour (circuito americano) e que depois virou vendedor de anúncios para a revista Surfer.
Andy tinha uma pinta meio afrescalhada de gurizão de seriado americano, franjinha e tudo! Com a maré enchendo e ondas mais manobráveis, o que se viu foi um surfe pra lá de moderno, apesar de ainda sem muita força é verdade, mas muito criativo - e vertical.
Houve tentativas de aéreos, nenhuma concluída, mas estavam próximos da aterrissagem com sucesso. Um detalhe que chamava a atenção era sua base esquisita: os pés na posição quase de quinze prás tres, ao invés de paralelos, ou como Curren, voltados para dentro, denotando mais pressão. Nem Bruce, nem Andy vingaram no campeonato Mundial do Rio ( pode até ter um engraçadinho que vai buscar um 13º, ou um 9º, mas vitória ? nada!).
A impressão que tivemos foi que não tinha pra ninguem quando o caçula crescesse. No caso de Andy, porrada por porrada, Neco o superou em estilo, força e garra no maior dia. Quem diz isso não sou eu, toda imprensa noticiou a diferença do surfe potente do Neco contra todos outros, fazendo ressalvas para o Sasha Stocker e Jake Paterson. Kalani, campeão junior, era uma criança mimadinha acompanhado de sua namoradinha, Malia Jones, time feminino havaiano, que meteu-lhe um troféu com seu ex-melhor amigo da Big Island.
Ainda em 94, Rick Werneck trabalhava de gerente internacional da Redley e procurava um estrangeiro para completar a equipe, que contava com Burle, Eraldo, Muller e Gross.
Recomendei 4 nomes: Chris Ward, Bruce ou Andy e Shane Dorian.
Papai Phil fez cú doce e cresceu o olho no interesse precoce de uma marca brasileira nos meninos de ouro do Kauai, nem o fato da Redley anunciar na Surfer amaciou o 'Daddy' Irons.
Ward já era maluquinho na época. Fechou Dorian. Fica pra outra vez o resto do imbróglio.
Oito longos anos ficaram para trás.
Bruce pena pra conseguir a vaga nos 44 por eternos 6 anos, campeão invicto em Pipe.
Vem perdendo cada vez mais espaço para novos australianos e havaianos que brotam sem parar na imprensa (inter)nacional. Perde tambem um pouco do estilo que o deixou famoso dentro d'água, peca por abrir demais sua base para voar sempre mais alto - não existe nada mais anti-estético que um sujeito com as pernas arreganhadas em cima de uma prancha - vide Cory.
Na outra ponta, Andy, quase um veterano, clama por redenção.
Clama por reconhecimento.
Clama por atenção.
Eleito o surfista mais popular pela revista Surfer, é apenas o terceiro surfista em 17 anos que chega ao topo da lista (Os outros dois ? Curren e Slater, naturalmente...) votada pelos leitores, na grande maioria americanos.
Líder do WCT até o momento - sentindo o bafo quente de "Louie" Egan na nuca depois de Trestles - e contratado pela gigante Billabong pelos próximos 5 anos, Andy vive sua lua de mel com o surfe profissional. Recuperado dos exageros do circuito, determinado a dar um bom exemplo aos garotos, Andy acena ao mano que a marra de cão não leva ninguem a lado nenhum.
A ilha de Kauai tem um dos índices mais altos de suícidios do mundo - "the Garden Island".
Mesmo que seja um arakiri de carreira.

2 comentários:

DSC disse...

alucinante...é a historia do surfe...aloha GD

Anônimo disse...

Legall...gostei..O Andy e o Dorian sempre me inspiraram muito no surf....