terça-feira, agosto 18, 2009

Ontem, hoje e ontem novamente


Foto do estupendo Ryan Tatar

Sopa de Tamanco numero 02 - Revista Hardcore 05/2009




Na edição anterior fomos convidados a refletir sobre o que seria o surfe em 20 anos.
A ideia não é nova, toda decada nos arremessa nessa brincadeira.
Para pensar melhor o futuro é recomendado conhecer um pouco do passado, esse animal selvagem que vive enjaulado.
Leio tanto sobre a quantidade de gente dentro d'água mas não consigo identificar esse fenomeno em canto nenhum.
Pirou na batatinha, pensou o leitor mais impaciente, afinal de contas em que mundo esse louco vive ?
Ipanema, me apresso em responder.
Quando comecei a surfar, nos remotos e abomináveis anos 80, 1981 para ser mais preciso, a banda tocava diferente.
Aqui no Rio de janeiro, o sistema nervoso do surfe brasileiro naquela ocasião, o surfe ardia em fogo alto e duas esquerdas ditavam o ritmo do presente e indicavam a direção do futuro.
Arpoador e Quebra mar tinham em comum, alem das ondas, uma hierarquia dentro d'água que começava geralmente com os mais velhos e habilidosos atras do pico descendo até os novatos no rabinho da onda, com raríssimas exceções.
Fedoca, fotógrafo desde a época da saudosa revista Brasil Surf e local de longa data do Arpex, lembra que nos anos 70 era praticamente impossível um surfista de nível medio conseguir pegar onda perto da pedra.
'Daniel Friedman, Rato, Pepe, Boca, Ianzinho, Capacete, Foca, Pitz, Rico, Otavio, Maraca, Cauli! cacete, cara, vai tentar surfar ao lado desses caras...
Mal comparando é como surfar hoje em dia ao lado do Mineirinho, Trequinho, Bruno Santos, Peterson, Fabinho, Teco, Vitinho, Renan, Neco, Raoni, Leo, Pablo Paulino, Pedrinho e sei lá mais quem. Voce não conseguiria pegar uma unica onda! Fato.'
Isso foi la atras, quase 40 anos, muito antes do surfe anunciar planos de saúde ou telefonia móvel. Antes das novelas, das quatro revistas, dezenas de saites, centenas de blogues e milhares de videos.
Muito la atras.
Minha percepção é que o surfista mediocre, aquele afoito, dos braços esvoaçantes, pulinhos, cabeçadinhas e nenhuma etiqueta no line up, esse ser desagradavel domina a cena na sua praia predileta.
Ao menos foi assim comigo quando fui passar a semana santa na Guarda, minha tão cara e estimada Guarda do Embaú, isso ainda em 2002.
É essa a impressão que tenho quando paro em algum desses lugares cheios de gente, voltando dum surfe matutino solitario.
Temos que reconhecer: as escolinhas de surfe nos fizeram esse favor.
Não há mais qualquer etiqueta em 2009 - não há mais tempo para formalidades.
Tive essa sensação em Maresias, Moçambique (Floripa), Prainha, Grumari.
Curiosamente, não tive essa sensação em Itauna, ou Cacimba.
Um belo convite a reflexão.
Não vamos fugir do assunto, que nesse caso daqui é o fantasma do numero crescente de pessoas dentro d'água.
Eu dizia que a maior parte da rapaziada é cada vez mais limitada no seu comportamento em cima da prancha, seja conduzindo ou sentadinho esperando sua vez e logo me adianto em consertar: a maioria sempre foi mais limitada, a diferenca é que ela hoje domina o pico, pela força, poder economico ou puro desconhecimento das regras.
As regras são poucas e simples: respeitar os locais e todo resto que ali esta para se divertir sem distinções.
Talvez isso seja papo para outro texto, numeradinho e justificado, não me deixa esquecer disso amizade, por favor.
Regras essas que deveriam ser ensinadas exaustivamente nas escolinhas de surfe.
Nos 70/80 tinhamos um acesso mais direto as regras, aprendiámos rapidinho debaixo de porrada, não havia outra maneira.
Um metodo muito eficiente era amarrar os garotos mal comportados num poste em avenida movimentada, completamente pelados (ainda sem pelos, para contentamento das moças mais sensíveis a violencia) e deixa-los la por algumas horas.
Num dia desses, aqui na frente de casa, justo aqui que nunca tem ninguem surfando (voces sabem, aqui, Ipanema, assim como todo resto do Brasil, não dá onda), um camarada infernizava a caída de meia dúzia de amigos - um unico e escasso camarada.
O sujeito não tomava conhecimento de nada nem de ninguem, surfava, ou melhor, tentava surfar com sofreguidão, sem cordinha.
Imaginem: sem cordinha.
Aquilo devia ser um sabado, la pelas 10 da manhã e o malandro, mesmo sem ter uma noção basica de boas maneiras, surfava sem cordinha, ameaçando banhistas e afins com sua prancha que insistia em fugir dos seus pés.
O que mais me chamou atenção foi o fato do malandro não sorrir, sequer um esboço de canto dos labios, neca de pitibiriba.
Tudo muito sério e solene, sem recreio, sem graça.
Possivelmente atras de algum reconhecimento entre a turma que surfava alegre num dia de onda ruim.
Se malandro encara esse negócio esquisito de levar prancha debaixo do braço sem a intenção de se divertir, algo deu errado no caminho.
Surfe não se resume em diversão mas sem ela perde um pouco da razão de ser.
Em pleno Hang Loose Pro, a Cacimba era um caldeirão de competidores atras desse mesmo reconhecimento que o pateta ali de cima almeja, num outro nivel.
Primeiro dia, antes das seis da matina, 30 ou 40 malandros surfando.
Segundo, 20 ou 25.
Terceiro, 15.
Ultimo dia, fomos surfar, Alfio, Bruno Santos, e mais uns tres malandros na praia inteira, até as nove e meia quando o campeonato começou.
Puxa vida, quanta gente!

16 comentários:

Leonardo disse...

Muito importante tocar neste assunto. Equanto isso a mídia do surfe fica por aí sonhando que surfe é cultura, campeão mundial etc.


""Surfe não se resume em diversão mas sem ela perde um pouco da razão de ser.""

Acho que as pessoas esquecem disto. Se frustram com suas manobras limitadas ( ou são arrogantes com a mesma porcaria de manobra amadora).

Educação e fairplay então seria esperar demais.

Me lemrbo que á tomei muito esporro por ser raberado e não sair da onda. No canto esquerdo a prainha então... Isso pq não fico gritando atrás igual a uma franga, somente assobio alto.
Daí, no meio do esporro sempre falo: "Você está certo eu que estou errado. Eu sou haole. E você é local e parece estar se divertindo muito"

Lembro também do Pinguim, treinador CT suf com uns 5 pivetes de 15 anos mais ou menos, no Peru.
O cara treianava muito bem eles. Era só palavrão, gritaria, impreguinação e maconha todo dia e para todo os lados( muito bom para cérebro em (des)formação). E ainda arrumaram confusão por jogar balões de água em que passava na rua. Enfim dá para ilustrar infinitamente o que você escreveu.

Anônimo disse...

A falta de educação é uma epidemia brasileira. Dentro e fora dágua. Nas ruas, nas filas, no ônibus, no calçadão, no avião e nas viagens para fora do país.
Falta respeito; calma e elegância em cima da prancha; falta calma na hora de voltar para o line-up sem dar a volta na turma que fica esperando; falta silêncio dentro d´água; falta humildade e hierarquia para os que não foram abençoados com categoria, habilidade e estilo; falta compreensão com os veinhos e com os grommets.
Mas, nos dias que o mar fica com mais de um metro e o sol não aparece, o que falta mesmo é surfista. Ainda bem!

DSC disse...

outro dia eu tava caindo numa valinha no meio da barra...escolhi uma direitinha facil prum cara que quer apenas se divertir no sabado pela manha..cheguei pelas 7 da manha pra nao ter problema com o crowd....se juntaram a mim mais uns 3 caras....o negocio tava bom...todos se divertindo...batendo papo, apesar de nunca termos nos visto....até que quando deu umas 8 horas a escolinha de surfe de um renomado surfista entrou na água...os caras colocaram uns 30 caras...entre meninas, meninos, coroas, pregos, longs, pranchinhas, softboards.... os melhores colaram na galera do pico...os piores ficaram mais embaixo na frente...a cada onda que vinha o professor, com cara de dono do pico, gritava....REMAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!...

fui pra casa....................

Juca Chaves disse...

"Vocês não têm escolha, juntem-se a nós, não há escolha, seus bolhas..." - Já vaticinava o Filósofo de antanho.

Anônimo disse...

Por isso que eu mudei pro xadrez

paulo disse...

Te juro, prefiro parar de surfar a ter que disputar onda raivosamente com pseudo pegadores de onda. Falta respeito, falta feeling. Sei lá, é outra coisa menos o surf que conheci a 25 anos atras.

Beto Fuscão 72 disse...

Paulo, não sei não. Mesmo há 25 anos a porrada cantava nos quatro cantos. Em geral, local que não tem outras atribuições na vida, a não ser ser local, vive com a seguinte filosofia: "veio de longe, fica de longe". A diferença é que hoje a indústria transformou o surf em diversão de massas. Se não: if you surf, never stop, but if you don´t, never start...

Anônimo disse...

Peço licença para um desabafo na "Clínica de psicoterapia do Dr. Goiaba":

Meus braços têm vida própria, são rebeldes, apesar de meu consciente esforço para adestrá-los; minha coluna teima em arquear ao dar aquelas amassadinhas pra tabla pegar no tranco nas xexelentas marolas que quebram na maioria dos nossos dias; meu quadril é duro, parece um tronco de Aroeira, ainda mais agora, com uma porra de uma protusão na L5/S1; Mas, apesar de tudo, ainda faço a cabeça.

Quando em vez, dou aquelas encostadinhas que me tocam ao cérebro como um porradão Kellyslaterano, ou uns cutbacks quebrados, que minha imaginação conduz aos arcos do Joel, e até tubo eu consigo pegar... Quase 20 anos nessa estória, não sou nenhum bobo, mas ainda evoluo, me instigo, me surpreendo e descubro.

Esse negócio de surf é mó viagem mermo...

Só não tenho dúvidas, mui modestamente, do respeito que levo comigo pra dentro d'água e que, definitivamente, não trago de volta pra casa.

Quero crer que o profeta de Niteroi tinha razão, mas, infelizmente, não existe gentileza dentro d'água.

Vamos tentar fazer o nosso.

Gabiru

Armweak disse...

Gabiru, tu és poeta, mas a realidade é bem mais embaixo.

Anônimo disse...

Lamentavelmente, beeeem mais embaixo...

Roots, Gabiroots

Roberta Milazzo disse...

Como sempre, excelente texto. E eu pensava que Ipanema não tinha chato, afinal, Ipanema não dá onda...
Está cada dia mais difícil conseguir pegar umas ondinhas na paz, tranquilamente e algo que era lazer, diversão e relaxamento virou fonte de stress. As escolinhas se proliferam como vírus, uma a cada 50m nas praias. Acho que só deveriam ser permitidas de 2ª. a 6ª. Afinal, são ‘escolinhas’ não é isto? Lógico que não, escolinha virou fonte de renda para malandro de praia. O cara já ficava lá o dia todo mesmo e pq não ganhar um dinheiro fácil? Um ‘instrutor’ para 15 até 20 ‘alunos’. O cara chega com a ‘turma’ no PICO (afinal ele tem que pegar as ondas dele né?) não ensina o básico das regras de prioridade e educação, joga o aluno na tua onda (!!) e ainda reclama com você para ‘aliviar’ umas ondas para a galera da escolinha (sim, é verdade). Isto só pode ser brincadeira.
Para piorar ainda mais a situação surgem os famigerados ‘stand up surfers’ que de surfistas não tem nada. Chegam SEMPRE em bando (nunca vi isto) no mínimo uns 5 podendo chegar até 10 no mesmo pico, disputando as mesmas ondas, impregnando, INFERNIZANDO, remando em todas. Regras? Educação? Prioridade? Eles desconhecem. Até porque estes caras nunca pegaram onda, não sabem o que isto e só resolveram entrar na modinha do último verão. O pior é que além de não saberem surfar (e SUP é surf???) estas pragas mal conseguem se equilibrar naquelas lanchas e ainda vem para cima de você podendo machucar (e feio).
Será que dá para fazer alguma coisa? Peloamordedeusssssss socorrooooooooo!!

revistaPARAFINA disse...

Eu discordo de um dos comentários acima, onde diz que as revistas ficam sonhando que surf é cultura. Surf é cultura, e uma cultura muito larga e bonita. Afinal não estamos todos nessa "goiabeira" falando justamente do fato desta "cultura" estar sendo pasteurizada?

É um paradoxo terrível. Ao mesmo tempo que é legal o nível que o esporte alcançou e tudo, é insuportável a falta de educação (doméstica) no outside.

Falta é Pai, mãe... Meu avô sempre me dizia que "menino e cachorro é a mesma coisa. Precisa educar e dominar!". Concordo plenamente.

Já surfei com 40 pessoas dentro d'água,3 dias clássicos na Praia do Francês e não ví (ou soube de) um único problema. Cada um na sua, fazendo a cabeça.

A localzada surfando na dela, eu eu e uns dois ou três visitantes no pico,ao lado da galera, e alguns pregos nas rabetas. No stress, Yes fun!

Respeito sempre é bom pra quem tem, assim como educação e cultura. Mas que o que vemos por áí chamado de cultura surf (me perdoem), é como música ruim. Vira praga.

No entanto, estamos aqui, o que mostra que ainda há esperança.

Aloha.

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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