domingo, junho 21, 2009

Peter Pan ao contrario




>Coluna na Revista Hardcore?Sopa de Tamanco>Abril 2009



Toda criança, menos uma, cresce.
Adriano descobriu isso quando recebeu seu primeiro convite para ganhar um qualquer surfando - mal tinha completado 10 anos.
Por que voce não cresce e ganha o tão sonhado título mundial pro Brasil ? Imaginou Alfio Lagnado instigado pelo nosso sempre tão caro Pirata.
Alguns anos mais tarde, no outro lado do mundo, Sean Doherty, na epoca editor do tradicional jornal que virou revista, Tracks, narrava assustado a bateria da terceira fase, entre a grande esperança australiana Josh Kerr e o atual campeão mundial junior Adriano De Souza, a verdadeira final do campeonato mundial de juniors em North Narrabeen, escrevia ele (Pablo Paulino arrastou).
Parko, Occ, Taj e o diretor de prova e ex numero 2 do mundo, Luke 'Louie' Egan torciam desesperadamente por uma vitória australiana, enquanto Mineiro abria a disputa com um aéreo monstruoso de alto, duas vezes a altura da onda, por pouco não volta.
Kerr já tinha toda uma carreira montada em cima (literalmente) do seu arsenal de manobras absurdas, não era publicado um unico exemplar de revista de surfe sem uma foto dum aéreo do Josh Kerr em 2004 e Mineiro parecia querer dar o seguinte recado ao mundo: Voces acham que esse cara é o bam-bam-bam dos aéreos ? Vejam isso...
De Souza atropelou Kerr - a mensagem foi dada.
Não foi a primeira vez que Adriano era o melhor surfista do campeonato e não levantava o caneco.
Foi assim tambem em 2002, com incríveis 15 anos, quando demoliu todos adversarios em Durban na Africa do Sul no extinto formato do Mundial amador (Terceiro na final, mesmo com interferencia).
Toda criança cresce.
Campeão paulista iniciante e estreante aos 12, mirim e brasilieiro iniciante aos 13 e 14, mais jovem surfista a vencer uma etapa do circuito brasileiro profissional aos 15* (* Neco em São Chico e Silveira ou Peterson em Caiobá ambos com 13 anos, venceram etapas de estaduais pro), mais jovem a classificar-se para o Super surf aos 16, surrou sem pena, em casa, o australiano Shaun Cansdell para tornar-se campeão mundial junior antes de completar 17, Campeão do WQS com um abismo de pontos do segundo colocado aos 18.
Sétimo do mundo na maioridade.
Wendy, a personagem central do livro Peter Pan (Brasil, Com. Ed. Nacional, 1930, J.M. Barrie, trad. Monteiro Lobato) descobre que num mundo paralelo existe a possibilidade de nunca deixar de ser criança, como Peter Pan. Na Terra do nunca a infância não acaba, sonho de 12 em cada 10 meninos.
O livro fascina por isso, pela aventura que é nunca precisar deixar a fantasia que é ser criança.
Apesar do seu apelido no diminutivo, Mineirinho fez o caminho inverso, acelerou sua maturidade e abandonou a infância mais cedo que todo resto para poder ganhar o mundo.
Um Peter Pan ao contrário.
Logo cedo, ao inves de ser abandonado como a maior parte das crianças pobres deste país, abandonou seu patrocinador de longa data, Hang Loose e acertou um belo contrato com a gigante Oakley, um ato de coragem e, digamos, pouca afeição.
Sempre achei que não há nada mais cruel com uma criança do que amputar a inocência.
No nosso meio, justo na praia, lugar tão cheio de brincadeiras, muitos pais escolhem atirar seus filhos cedinho pros circuitos regionais. Pr'alguns é a esperança dum futuro melhor, de sair da miséria e lucrar umas roupinhas bacanas, novas e coloridas.
Outros, frustrados por nunca ter seu talento reconhecido, arremessam seus filhos na carreira de surfista competidor, isso lá pelos 7, 8 anos.
Já vi entrevistas de pais anunciando o talento dos filhos de 5 anos e pedindo ajuda financeira pra viajar com o pimpolho (olhaí a galinha dos ovos de ouro!) pro circuito brasileiro amador.
Isso já é outro papo.
Voltemos ao Mineiro, suas conquistas e o peso de cada uma delas.
Desde garoto, a imprensa, esse animal irracional, cisma de jogar nas costas do Mineiro a responsabilidade de (como escreveu João Valente numa pergunta muito bem formulada num belo fim de tarde em G.Land) 'Carregar a expectativa de um país nos ombros', uma maldade sem tamanho que fazem com ele desde que levantou o primeiro caneco.
Mineiro não carrega nada nos ombros, nenhum deles carrega, a não ser uma enorme força de vencer a qualquer custo, como qualquer australiano, americano ou sul-africano.
WCT não é competição de nações, é individual, cada um por si - fé em Deus e pé na tabua!
Em 2006, depois de arrancar um estupendo terceiro lugar na primeira etapa do WCT no Gold Coast, Slater previu que Mineiro venceria uma etapa ainda na sua primeira temporada.
Apenas em 2009 Mineiro foi capaz de chegar numa final, contra um Parko (aquele mesmo que o viu demolir Josh Kerr em 2004) imbatível.
Acaba de completar 22 anos, tem tanta coisa por fazer que qualquer previsão pode ir pro vinagre, Adriano de Souza deixou de ser promessa faz tempo.
Quando Dane Reynolds e Jordy Smith chegaram ao WCT cheios de fogos de artifício, Mineiro já era quase um veterano e seus escalpos dos tamanhos mais variados.
Jordy e Dane já chegam com um surfe maduro e pronto para o título mundial, pecam pelo que Adriano tem de sobra: Garra.
Mineiro terá ainda bastante tempo para afinar suas falhas, como posicionamento dos braços, ficar mais compacto nas manobras, quem sabe fechar um tico da sua base e usar menos o fundo da prancha, principalmente de front-side.
Peter Pan serve de metáfora pra todo tipo de fuga das responsabilidades, Mineiro as enfrenta sem sequer piscar os olhos, ele escolheu isso e pronto.

8 comentários:

Henrique VAsquez disse...

""WCT não é competição de nações, é individual, cada um por si - fé em Deus e pé na tabua!""

Concordo em gênero, número e grau...Mas...
Explica isso a um brasileiro...é um conceito muito avançado para um povo que ainda apoia o Lula. Um povo carente que constroi falsos heróis e acabam sugando os verdadeiros (vide Barrichello, Guga..). Um povo que deixa os argumentos sobreporem os fatos. Mas está melhorando, aos poucos.

Valeu pelo excelente post.

sds

Henrique Vasquez

Anônimo disse...

Texto supimpa! Merece ser ilustrado, diagramado e impresso. Abs

Julio Adler disse...

E ja esta, muito bem diagramado na paginas da nova Hardcore.
Bem acompanhado, diga-se...

Viva La Brasa disse...

Pô, a minha assinatura até agora não chegou (a revista era de abril, estamos em junho)... Parece que o jeito vai ser ler as colunas do Marreco no Goiabada mesmo, hein ô Hardcore...

DSC disse...

eu sinto falta de ter um ídolo brasileiro pra torcer....o mineiro ta fazendo com que eu torça por ele no wct...isso que precisamos...de um ídolo pra torcer...chega detorcer só pro careca..agora temos o mineiro nas cabeças...grande texto...GD

DSC disse...

eu sinto falta de ter um ídolo brasileiro pra torcer....o mineiro ta fazendo com que eu torça por ele no wct...isso que precisamos...de um ídolo pra torcer...chega detorcer só pro careca..agora temos o mineiro nas cabeças...grande texto...GD

Maurio Borges disse...

Julin, o Nick Carrol esteve no Brasil na semana pasada e voltou para a Austrália chocado com o que viu aqui. Veio fazer uma matéria com o Mineiro para apróxima edição do TRACK'S. Conheceu a familia do De Sousa, esteve no Guarujá, curtiu Ubatuba. Ficou uma semana com o Mineiro, Jadson e a molecada da Oakley. Confidenciou para uma fonte que ficou impressionado com o que viu por aqui... "A vida do Mineiro" sai na próxima edição do jornal/revista... Precisou vir alguem de fora, né?

Juliano disse...

Fala Julio,

Gostei da opção de escrever sobre o Mineirinho. O cara merece. Sinto orgulho de te-lo como representante número 1 do Brasil. E tem uma puta personalidade e simpatia. Conhece o caminho.
Moleque vai longe.

Juliano.
bancadadecoral.blogspot.com