sábado, agosto 11, 2007

O alpinista

Tempestade em copo d'água. Surf Portugal 176. Julho 07


Pat Curren sabe esperar por ondas como ninguem

Passei boa parte da minha vida pensando em boas justificativas para legitimar o vício de pegar onda.
Li atentamente tudo que trazia romantismo e conforto para uma bela argumentação em família, afinal é pra família que devemos as primeiras explicações de horas e horas à deriva no mar esperando por ondas.
Hoje me aproximando dos aterradores 40 anos, ouço a mesma pergunta quase todos os dias: Ainda surfas ?
Sim, surfo, respondo pacientemente.
Não apenas surfo, literalmente, como tambem surfo escrevendo sobre surfe, surfo vendo filmes de surfe, surfo lendo revistas que tratam apenas de surfe, surfo sonhando acordado com surfe.
Faço até planos para o futuro com o surfe entre as prioridades.
Isso soa estranho para ouvidos pouco afeitos ao ócio, sim, porque o surfe é sinônimo de falta do que fazer.
Tios e primos tem grande dificuldade de entender e aceitar tamanho descompromisso.
Pais, esposas e avós são alguma coisa condescendentes com nossa aflitiva escolha de estender o que sempre lhes pareceu como hobbie, uma fase (logo passa) para uma obsessão de toda uma vida- no meu caso, mais da metade dela.
Já citei uma propaganda da marca que o Shaun Thomsom tinha nos anos 70/80, Instinct, que dizia: ‘Tudo bem esperar por ondas, a maioria das pessoas espera a vida inteira por nada.’
Fica bonito numa página dupla da revista, mas na dura realidade de todo resto que não espera por ondas, não bate tão fundo.



Solta outra, sem espuma.

Todos esperamos por algo.
Em nosso egocentrismo desmedido determinamos que todos nós, surfistas, temos uma marca especial que nos diferencia do que sobra da humanidade, um erro grave e comum como um camarada dropar na sua frente na melhor onda do dia como se voce não existisse.
Depois de tanto tempo convivendo com a fauna que povoa os mares mundo afora, cheguei a conclusão que tem tanta gente de prancha que não merece o carimbo de especial quanto sem prancha. Gente que não vale a merda que caga e se sente superior aos resto porque algum dia teve o privilégio de subir numa prancha e ter um contato mais íntimo com a natureza.
Um tipo que joga lixo na rua, que fura filas, que dirige como um psicopata colocando a vida dos outros em risco, que pega um CD ou DVD emprestado e não devolve porque acha que voce não vai se dar conta, um camarada que é incapaz de ceder a vez para uma senhora idosa no ônibus.
Esse canalha é especial porque pega onda ?
Perseguimos tanto a primazia da nossa escolha sobre todas outras, profissionais ou filosóficas, que terminamos endossando a venda de planos de saúde, modelos novos de carros, cosméticos e condomínios caríssimos.
A experência de correr ondas, aquela que nos custou tantas horas de frustração e alegrias, pode ser comprada a preços módicos na escolinha mais próxima, muito provavelmente pelas mãos, e pés, e cabeça, de alguem que nunca foi digno do porte de surfista, apesar disso não diminuir em nada o impacto que uma onda pode ter na vida de alguem que se dispõe a perder, investir, parte do seu tempo ao redor da praia.



Só porque voce já viu isso deitadinho no seu tapete mágico isso não te empresta super-poderes.
Já ao Pedro Adão ou o Cadilhe, ou o D.C. Green...

Um alpinista, jogador de golfe, um guitarrista, lutador de karatê ou piloto de kart, cada um deles vai te dizer o quanto a respectiva opção é a melhor que há e que jamais trocaria por nenhuma outra – um jogador de sinuca te diria a mesma coisa.
Por isso, deixe a pompa de lado, não se preocupe tanto em justificar o fato de voce passar tanto tempo olhando a vida do ponto de vista do horizonte (os velejadores e pescadores tambem) porque ninguem aguenta mais esse papo.
Nem todo mundo que espera por ondas é especial, voce, que compra revistas, lê mapas de previsão, assiste toda sorte de filmes e se reconhece em cada imagem, voce tem uma enorme chance de ser um dos caras que o Shaun se referiu numa Surfing do início dos 80: ‘A maioria dos surfistas que conheci achavam que eram especiais porque pegavam onda.
Quer saber duma coisa ? Eu tambem.’

5 comentários:

Gustavo Bomba disse...

Parabéns Julin, pelo texto e pelos 40 anos.

Boi Denis disse...

Muito boa Julin!
Bem vindo aos "ENTA". E parabéns pelo dia dos Pais, já soube que vc está entre os dedicados.
Abraços

marcio disse...

Julio, voce sintetizou em um excelente texto, tudo o que penso de nossa tribo, que nos ultimos anos se desvirtuou muito em seus conceitos , atitudes e comportamento, o surf costumava reunir e aproximar as pessoas, mas como toda a tendencia ....vira moda e ai babau....qualquer coxinha que possui uma prancha se acha o eddie aikau ou o laird hamilton, seja surfando meio metro ou atrapalhando os outros no mar de dois metros com um tow in.....a grande verdade ~e que tudo em nossa historia , inclusive a propria funcioanm como um pendulo...então logo mais espero ver o surf como o mesmo deve ser apreciado e vivido, com muita harmonia, paz e diversão....sou um otimista e acredito que estamos chgando poerto dos 40 (tenho36), porque agora nossa hora de iluminar o caminho chegou....boas ondas, feliz aniversario e um grande abraço...marcio leal.

Anônimo disse...

Fui se lá porque, dar uma olhada no campeonato(!)da Osklen hoje no Arpoador e, ví vários desses "seres especiais", destes mesmo ao qual o Goiaba mór se referiu, que se acaham alguma porra de especiais por serem(?)surfistas.... Mas temos que concordar com um ponto em comum, surfar requer, não surfar também requer e o que fica no ar, é a opção que se faz... Eu fiz a minha há mais do que a metade de minha vida aqui no mar(já que passei mais tempo dentro d'água que fora).E já se passaram mais de 40 epor falar em 40, feliz entrada.

Zé Maia

Costa Verde disse...

Ótimo texto. Já está adicionado ao meu site. E tb uma ótima oportunidade para juntar pessoas com a mesma filosofia, e manter viva essa forma especial de ser do surfista. Não apenas por ser surfista, mas pela atitude dentro e fora d'água, reflexo de quem dedica grande parte de seu tempo ao ócio, de quem tem tempo para refletir e decidir o que realmente é importante nesta vida. Aproveito também para lançar meu blog na net: costaverdebr101.blogspot.com Uma vez que acredito que muitas pessoas procuram o surf espelhados nos surfistas especiais que existem perdidos por ai, e são essas pessoas que vão manter a chama acesa... Abraço Andre