terça-feira, abril 18, 2006

Leve possibilidade

[Coluna Tempestade em copo d'água, revista Surf Portugal - Fevereiro de 2006]

‘Leve possibilidade’ previa Derek Hynd em ‘futuro título mundial’ na Revista Surfer de Maio, 1989, para dois novatos do circo que era o circuito mundial, pré-WCT.
Luke Egan aproximava-se dos 20 anos e Sunny Garcia dos 19, terminando a temporada de 88 em 27 e 16 respectivamente.
Reparem, amigos leitores, como o tempo era outro: Egan vinha de uma promissora carreira competindo pelo clube de Merewether, apoiado pelas pranchas Aloha e roupas O’Neill. Poucas ondas no filme mais influente da década de 80, ‘Beyond blazin’ boards’, serviam como referência do que vinha pela frente, mas diante de um talento absurdo como Nicky Wood, Jason Buttenshaw ou ainda John Shortis, Egan, apesar da enorme estatura, parecia um surfista menor.
Sunny, por outro lado, pulava de um patrocínio ao outro sem a menor cerimônia, Gotcha, Billabong, Life’s a Beach. O garoto de Waianae era pura dinamite e provou isso no OP Pro de 87, demolindo adversários com um surfe de backside que parecia ignorar os limites da verticalidade e violência, algo tão assustador quanto Occy espancando Jeffrey’s em 84.


O melhor surfista de sempre que não foi campeão mundial ?

Apenas tres temporadas foram suficientes para Sunny sair de 47 para 17 e entrar no seleto grupo dos invejados top 16, Hynd gostava de dizer que o menino era como um ‘jovem e abusado Cassius Clay’, da mesma forma que Wayne Bartholomeu na década anterior – provocador e confiante.
Egan falava e agia mais silenciosamente.
Quase botou água no Champanhe do Barton Lynch num Pipe épico na semi final decisiva do último campeonato do ano, Billabong Pro 88, ano da redenção de Lynch com seu tão sonhado título mundial – ninguem podia com o senhor Barton naquele evento, surfando com uma prancha mágica feita pelo George Downing.
Egan comia pelas beiradas, surfando cada vez mais forte e mais polido, mas distante do top 16.
Os dois dividiam a mesma dificuldade: vencer.
Sunny foi ganhar seu primeiro campeonato em 1990 – e levou logo mais dois em seguida – enquanto Egan, mais lento, ainda esperou mais cinco anos até vencer um pequeno evento na Nova Zelândia que nem valia grande coisa.
Por incrível que pareça, Luke Egan, apesar de considerado o surfista favorito de metade dos top 30 mal conseguia se aproximar dos top 16, sempre batendo na trave (Leia novamente esse parágrafo, Saca).
O vice campeão mundial de 2000, terceiro colocado de 2002 e quinto de 2004, demorou, desde a temporada de 88, seis longos anos até conseguir atingir os 16 primeiros, repito, seis.
Alcançando a décima quinta posição, ofegante, caiu para 28 no ano seguinte…
Nessa altura Sunny já frequentava o topo da lista, sempre entre 10 no início da década de 90 e depois sempre entre os 6 até o título mundial de 2000.


Nêgo Sunny enterra, misifio

Uma das maiores apresentações que jamais vi de um surfista foi numa expression session na praia de Zarautz, finalzinho de tarde.
Estavam lá os dois, Luke e Sunny, mas a tarde pertencia ao aussie.
A pressão e velocidade que Egan impunha a sua prancha era algo díficil até de entender.
A geração que chegava, Powell, Slater, Herring, Prestage, Kaipo e cia urrava com os aéreos que o goofy disparava como se nada fosse.
Os reverses, manobra do momento, eram com uma tal violência e suavidade que na arquibancada nos entreolhávamos e, silenciosamente, concordávamos que Egan era o maior surfista do mundo – ao menos por aquele momento.
Sunny ganhou esse mesmo campeonato, batendo Carroll na final, era Agosto de 1990, Curren estava lá e depois iria para Ericeira encantar os Tugas.
O colorido que tinha o circuito com Sunny, Luke, Rod Kerr, Rob Bain, Kong, Shmoo, Parsons, Mitch, Richie, Gerr, Pottz, Hardman, Holland e um juíz chefe faixa preta de karate com sérios problemas com bebidas é algo que se perde definitivamente com a ‘aposentadoria’ dos dois.
Nas transmissões ao vivo, as histórias contadas serão, por vezes, mais interessantes do que o que se passa na água.

4 comentários:

VHNVN disse...

Bons tempos!! Que saudades dessa época, desse circuito, dos meus fartos cabelos, do talento daquela geração, da minha disposição, de Egan, Occy, Powell, Hoy...Recordar é viver, continue com esses textos de 80´s e 90´s.
Obrigado!!

Cesar disse...

KS - Grandes possibilidades para 2005. Mais um caneco.

www.navala.blogspot.com

abraço

Anônimo disse...

Por acaso não foi a final em pipe 88 que os dois fizeram? Se não me engana a memória a semi foi com o Glen Winton.

marcus viana disse...

Marrequinho,

acho q nosso amigo acima tem razao: nao foi a final?

outra coisa: acontece muito esse negocio de nego depois de velho preferir o q fica p/ tras. inclusive me disseram q vc se sensibilizou qd enterraram o carequinha...