quarta-feira, março 01, 2006

Textículos

[Coluna Tempestade em copo d'água, revista Surf Portugal, outubro 2005]


Durante mais de uma década reclamaram sem parar.
Surfe profissional era um engano, quase um delito e quem o defendia não enxergava um palmo à frente.
O formato! Gritavam histericamente os detratores.
As ondas! Esperneavam editores inconformados.
Um verdadeiro motim da imprensa formou-se contra a ASP, apesar do fato de Slater conduzir toda ela, imprensa e ASP, cordeirinhos da gigante Quiksilver e do ainda maior talento do Rei Slator. Sempre foram seus súditos, editores, repórteres, fotógrafos, estagiários, até a mocinha da recepção sonhava com o dia que Kelly entraria por aquela porta e daria um sonoro ‘bom dia’.
Chega de KS por enquanto.
Durante os ridículos anos 80 tivemos um circuito mundial com ondas ruins, surfistas medíocres, pranchas esquisitas e julgamento pouco confiável, isso é o que acreditam alguns numa espécie de transe coletivo – mas uma coisa nós tínhamos e hoje não temos mais: uma cobertura sublime do circuito mundial da ASP, pré-WCT.

Graças aos pés pra cima nas redações (pensem na posição de bebê irritado), o circuito mundial foi sendo empurrado para esse formato que conhecemos hoje, com ondas fabulosas e cenários de filme americano com o atual da Gisele.
Chama-se isso de ‘dream tour’, um rodada de sonho, a vida que pedimos a Deus.

Intervalo para os comerciais.

A idéia de embalar o circuito para vender ao grande público, sempre ávido por novidades, foi o mote das mudanças.
Mude de marolas incertas para ondas perfeitas e não estaremos mais no mesmo lugar, um passinho a frente, por favor.
A Coca comprou o guarda chuva em 94.

A onda do momento na transição dos aborrecidíssimos 80 ao promissor 90 passava pela liberdade de escolha entre viajar o mundão de Deus em busca da onda perfeita e da verdade dentro de cada um, uma legítima jornada para dentro do nosso super ego, alter ego, ou mesmo o id.
Na outra ponta, a mais fraca, quem optava pelo competitivo surfe profissional imediatamente vendia sua alma ao rapaz de vermelho embaixo da terra, era absolutamente desprovido de caráter pois surfava apenas pelo dinheiro, como todos sabem.
Aqui no Brasil, creiam, um editor chegou ao cúmulo de acusar descaradamente Fábio Gouvêia de mercenário, tudo para alcançar os coraçõezinhos dos leitores que embarcavam sem medo na canoa do ‘soul surf’.
A canoa não virou.
Então um mantra foi repetido pelos quatro cantos: campeonato é chato, campeonato é chato, campeonato é chato…
A oração vinha ainda acompanhada geralmente das seguintes sentenças: surfe profissional é muito desinteressante, o que escrever sobre ondas de meio metro mexido ?, todo mundo surfa igual, não dá para comparar com uma viagem de ondas perfeitas, estamos livres da ditadura dos campeonatos, viva!

Cut-back.

Derek Hynd, Nick Carrol e Paul Sargent faziam miséria com a caneta em meados dos enfadonhos 80, escrevendo o que melhor se escreveu sobre surfe de competição e vida em geral.
Literato de carteirinha, Hynd citava Shakespeare e Dostoyevsky quando fazia a resenha dos top 30 (depois 44) para Revista Surfer.
Carrol levava seu jornalismo dinâmico e preciso, a lá Truman Capote e o novo jornalismo americano onde o personagem se confundia com os fatos, irmão do duas vezes campeão mundial, Nick é tambem excelente surfista, assim como Hynd, respeitados dentro d’água e fora pelos companheiros.
Sarge circulava pelos bastidores com enorme desenvoltura e foi dos jornalistas mais influentes que já houve. Próximo de Slater, Hering, Occy, Hoy, Egan, Gerr e quase todos competidores na ASP, o Sargento escrevia, fotografava e criou uma linguagem nova fazendo seus próprios vídeos, Sarge Surfing Scrapbook, uma virada de página na história dos filmes de surfe.
Bem antes do Taylor Steele vir com a fórmula de edição nervosa e música rápida, Sarge misturava tudo numa omelete de sessões memoráveis de ‘free surf’ e baterias pontuais nas temporadas.
Quem teve o privilégio de assistir o primeiro da leva dos Scrapbooks não esquece Hossegor perfeito e Coxos fenomenal que Sarge apresentava sem cortes.

Alley up.

Prantos ouvidos, temos o tão sonhado circuito em ondas perfeitas, janelas de espera e dinheiro jorrando feito petróleo no filme do James Dean com a Elizabeth Taylor (sim, damas e cavalheiros, Giant, eu sei), temos tambem Andy Irons estrelando a novela como vilão e Kelly Slater como um errante pistoleiro que volta a sua cidade para vingar a morte do seu pai.

Joel Parkinson, Mick Fanning e Dean Morrison são os forasteiros que desafiam o novo xerife enquanto os Hobgoods, que até já tem nome de cowboy, podem ser os ajudantes do xerife.

Num cenário destes, a grande imprensa do surfe mundial, revistas Surfer, Surfing, Transworld, citando as principais que tem distribuição global, teimam por dar um tratamento morno ao circuito depois de anos implorando pelo que hoje conseguiram.

Até mesmo as fotos que publicam são as mesmas.
Os textos insípidos, meros copidesques dos press releases que a ASP distribuí, tem um gosto de batata frita requentada.
Daqui do meu cantinho considero um contra-senso não termos hoje uns tres ou mais jornalistas do primeiro time seguindo o circuito e contando exclusivamente a história que desenrola-se numa eletrizante temporada de WCT.
Esse papel é hoje exercido por eventuais iniciativas como Blue Horizon do sempre genial Jack Mc Coy, que contou de forma espetacular a história por trás dos dois títulos de Andy Irons.
A internet, que transmite ao vivo para quem quiser, acenou com uma cobertura decente no saite Surfline.com mas alegria de pobre dura pouco, dizem por aqui.
Curioso que não surja ninguem apresentando uma cobertura mais arriscada na grande rede.
Assim como é surpreendente que nenhuma revista ouse, hoje, no tempo ideal, separar-se das outras dando muito mais espaço para o WCT, com fotos exclusivas, chamadas de capa, análises aprofundadas e afins.

Kick out

Pancho Sullivan, 32, classifica-se para o WCT depois de quase 10 anos tentando furar a injusta fórmula de qualificação.
Que eu saiba, o sujeito competia apenas no Havaí e achava tudo muito chato.
Agora é um sonho realizado.
Por que as pessoas não dizem logo a verdade duma vez ?

2 comentários:

Fabio Soletti disse...

Carissimo Julio,

Seu artigo nao poderia ser mais veridico, sou fissurado pelo surf competiçao desde que comprei a minha primeira Fluir (no.06 que vinha com o perfil dos novos top 16 - Tom Carrol bi-campeao, Rabbit, Curren, Potter, Kealoha and etc…). Fiquei aficcionado e
consumia todo material impresso possivel, na epoca os campeonatos nacionais vinham com sequencias incriveis do Tinguinha e Cauli, em revistas como Visual Esportivo, seguidos pela Inside e mais.
Mas com a oportunidade de presenciar ao vivo a volta da ASP ao Brasil (Hang Loose Pro, 1986) percebi a discrepancia entre o show que estava diante dos meus olhos e a incrivelmente pobre cobertura das baterias pela midia especializada. Na epoca, o unico meio digno era o jornal Staff do Fred e Rosaldo, e o Realce na telinha. Deste passado distante ate os dias de hoje as coberturas atingiram o fundo do poço, as revistas nacionais sao simplesmente lixo grafico, pior que panfleto de ofertas do mercadinho da esquina; as importadas sao uma mesmice e os sites tem o mesmo press release sem mudar uma virgula. Ironicamente, nunca foi tao facil e acessivel fazer uma cobertura das competiçoes, olhar para a telinha com papel e caneta na mao…algumas anotaçoes entre as series ou apos o replay (nunca imaginei, ainda lembro do tempo que assistia ao Curren em Rincon numa copia de video tao ruim que nao dava para saber se o cara tava de long john ou no pelo!!). Mesmo assim a nossa imprensa, por incompetencia e preguiça, nao consegue fazer analise alguma e ignora todas as dificuldades superadas pelos pioneiros do esporte.
Nunca gostei da imagem negativa do surfista vagabundo e burro, mas nessas horas fico na duvida!! Por essas e outras devo minha sanidade ao seu site, e aos autores citados nele; autenticos e fascinados pelo surfe.
Obrigado por continuar na batalha, sempre ingrata mas nunca solitaria…

Anônimo disse...

Julin,

Verdade sobre as revistas mas em compensação hoje temos a versão ao vivo na internet com comentários do potter, rabbit, slater, MR, shimooka que batem um bolão.

Na versão nacional acho que estamos mal com os comentários vazios do Tiago Brant e do Teco, que tinha tudo para fazer bons comentários e não faz... Sem falar na nossa amiga Diana Bock...

m&m's