terça-feira, março 21, 2006

Passaporte

[Coluna Tempestade em copo d'água, Surf Portugal, Março 2006]



Completam-se 10 anos da emissão do meu passaporte agora em Junho de 2006.
Quando tinha ainda meus tenros 28 anos e toda ilusão que os sonhos permitiam, achava que 2006 era muito mais distante- chegou rápido demais.
Folheando cuidadosamente cada uma das páginas, tento recordar cada um dos carimbos.

24/05/96 – Aeroporto de Johanesburgo- válido até 28/07
Segunda vez em Jeffrey’s Bay, a Meca dos camaradas que surfam com o pé esquerdo na frente.
Levei cinco pranchas, tres pequenas 6’, uma média 6’5’’ e outra grande 6’9’’, não usei todas.
O motivo principal da viagem era, pr’alem das ondas, competir no evento mais tradicional do WQS, Gunston 500, marca de cigarros local.
Se não estiver enganado, perdi pr’um garoto com prancha vermelha que se chamava Danny Wills e outro que já conhecia dos filmes do Taylor Steele, Tim Curran.
A frustração era amenizada com quantidades paquidérmicas de cerveja e pela noite mais animada do circuito.
Durban deve ser uma das melhores cidades do mundo para ser surfista.
1996 foi o ano do primeiro WCT em J. Bay, com direito à Occy, Slater, Carrol, Egan, Knox, Machado, Dorian e Kong.
Marcelus filmou tudo, de 6 da matina até a última luz do dia, em pé como uma estátua, sem perder nada. Parte desse material está no terceiro filme da série Cambito, dividido em dois clipes: um porrada com a música do Sepultura com Carlinhos Brown e outro mais contemplativo com a belíssima ‘A Música que os Loucos Ouvem - Chupando Balas’ do Mundo Livre S.A..
Competi tambem no campeonato que precedia o WCT, satisfazendo o desejo de garoto.
Logo na primeira bateria, ondas pequenas, quase ridículas para um santuário como aquele, me vi numa situação constrangedora.
Iam uns 10 ou 15 minutos e os outros tres surfistas não tiveram muita sorte na escolha das ondas.
Sempre muito paciente, esperava pelas séries que vinham a cada duas baterias e como na bateria anterior não veio uma sequer, aquela poderia ser a minha chance.
Precisava de uma nota miserável, um 4 ou 3 ponto-alguma-coisa.
Subitamente, assobios, agitação intensa na praia e avisto uma ondulação atípica para o dia, me certifiquei que todos adversários não estavam tão atentos nem próximos- nada.
A onda mais bonita que surgira durante todo dia marchava lentamente na minha direção e eu remava antecipando toda glória que uma oportunidade destas carrega, um apetite fenomenal acompanhado de um cuidado sobre-humano para não estragar o momento: nem tão rápido, nem tão devagar.
Nos encontramos, eu e onda, como se não houvesse acaso, com toda pompa de um filme arrasa quarteirão como Titanic: arrebatadoramente.
A praia inteira fitava a onda, rara, prendendo a respiração para aliviar-se longos segundos depois, terminada a onda.
Qualquer dos 100 surfistas do campeonato faria uma nota excelente.
Não era necessário talento ou habilidade, apenas se deixar levar pela onda mais perfeita de todo dia.
Lá estava eu, dono dos olhares, saboreando minha inesperada glória, preparando a manobra que daria início aos comentários regados a cerveja gelada no balcão do Pub e nas mesas de sinuca de Jeffrey’s Bay.
Repito o que escrevi acima e já me apresso em corrigir: qualquer surfista, menos eu.


10/09/1996 – aeroporto de Lisboa – Regresso 7/10/1996
Vi Occy chorar depois de ser penalizado com uma interferência na Ericeira.
Numa disputa com Chris Ward, que toda imprensa queria ver nos top 44, o nosso amável Ogro deu duas remadas a mais e viu suas chances de voltar ao WCT irem por água abaixo.
Wardo tirou proveito da situação, acertou a espuminha criada pelo Queixada e tascou-lhe um pontapé.
Achamos, em consenso, que Occy não merecia a punição.
Binho e Neco quase fizeram abaixo assinado.
Duas semanas depois vimos o mesmo senhor de queixo protuberante fazer chover na praia do Guincho, literalmente, se levarmos em consideração o tamanho dos leques que aquelas pernas de hidrante levantavam cada vez que deitavam-se nas paredes de sólidos 6 pés.
Occy saiu d’água sorrindo.

23/06/2001 – Aeroporto de Denpasar – volta 09/07/2001
Alguem pode me beliscar ?
Um barco de cinema na Indonésia, serviço de hotel 4 estrelas, geladeiras sempre cheias, ondas espetaculares, quatro dos mais promissores surfistas do Brasil, o melhor bodyboarder do mundo e dois amigos do peito – sim! Tudo pago, bom ressaltar.
O que mais pode desejar um surfista ?
Esse surfista pode desejar que não estivesse a trabalho, sempre filmando nas principais horas do dia, em sol escaldante, caminhando 40 minutos nos recifes ao meio dia para conseguir um ângulo diferente..
Faria tudo novamente para poder surfar nos intervalos e viver a fantasia como se minha fosse.

28/12/2004 – aeroporto de Lima – volta 09/01/2005
Mancora parecia mais longe do que diziam os mapas e saites que li exaustivamente quando ainda planejava a viagem ao norte do Perú.
Tínhamos viajado do Rio de janeiro para São Paulo de manhã cedinho porque era mais barato.
Já passavam das 10 horas da noite quando chegamos na cidade onde Hemingway escreveu seu romance que mais fala aos surfistas, marinheiros e pescadores, ‘O Velho e o Mar’ em 1952.
Faltava pouco, menos de 60 quilometros, dependendo da estrada pode ser feito em vinte minutos, duas horas ou quatro.
Ao meu lado, Mares adomecera, tão bela naquele fim de mundo, alheia a tudo que podia acontecer, da falta de gasolina, da cidade que nunca chega, do carro alugado levemente suspeito.
Foi quando tocou ‘Moondance’ num dos CDs que eram empurrados sistematicamente dentro do tocador para me manter acordado.
‘it's a marvelous night for a moondance
With the stars up above in your eyes
A fantabulous night to make romance’
Uma Lua de canção de amor dependurava-se lá no céu estrelado do deserto.
Parei o carro, abri as portas, aumentei o volume até máximo e tirei delicadamente a Mares para dançar.
A única casa de pé por perto acendeu suas luzes e viu aquela cena improvável: dois loucos dançando no meio do nada, abraçados como num baile de debutantes a dança da lua.

3 comentários:

Anônimo disse...

não seria mais fácil, simplesmente, dizer a ela que vc a ama?

Catarina Costa disse...

Encontrei-te pelo surf e vejo na tua descrição uma enorme paixão pelo mar, uma namorada chamada prancha e toda uma sensação que só um surfista conhece.
Optimas viagens, bons campeonatos e muito estilo de vida.
Vou continuar a ler-te para matar um pouco a saudade que tenho do mar.
Boas ondas e um beijinho

Johnny Utah disse...

"Anônimo disse...
não seria mais fácil, simplesmente, dizer a ela que vc a ama?"

E padecer da mesmice? O cara esculachou!
'more than words motherfucker
more than words'

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