quinta-feira, dezembro 29, 2005

Ogro

[Texto escrito no calor da conquista do título do Occy em 99.
Releio e me acho ingênuo toda vida - sincero e ingênuo, dois grandes defeitos, duas pequenas virtudes.]

Sábado 16 de Outubro, 1999.
Fiz questão de escrever a data acima para frizar bem onde estamos, em que estágio o surfe se encontra no Brasil e, de lambuja, no mundo.
Ondas mínimas permeiam a penúltima etapa do circuito WCT no Rio de Janeiro, o evento que já havia sido adiado ontem, sexta-feira-os portugueses conhecem como ninguem essa lenga-lenga-deixando o cronograma apertado para realizarem-se todas baterias restantes, masculino e feminino, em dois dias.
O trabalho forçado que me submeto agora não me permite sequer assistir Occy sagrar-se campeão mundial.Isso mesmo: O velho Touro finalmente foi coroado, tarda mas não falha, mas por obra do acaso, grande injusticeiro, não pude testemunhar “in loco” a conquista do australiano no quintal da minha casa. Perdi a escovada que a família Padaratz deu nos dois candidatos ao título, Neco em Lowe e Teco atropelando Campbell.
Nunca o surfe deveu tanto a família Padaratz.
Depois de tudo que ambos já fizeram e que ainda irão fazer, os irmãos Padaratz deram a nossa comunidade algo que há muito não conhecíamos: justiça.
Justiça ao mais talentoso surfista de todos os tempos, mais arredio,mais largado, mais sorridente, mais irritado, mais entusiasmado, mais auto-destrutivo, mais gente-boa, mais antipático, mais pesado e tambem o mais leve. Mais rápido e o mais lento; mais sentimental, mais temperamental.
Senhoras e senhores, o surfista mais humano e por isso o mais surfista de todos: Mark Occhilupo.
O texto poderia acabar tranquilamente na sentença supracitada mas não, continua, porque domingo tem mais....

- Quarta-feira, dia 21 de outubro, 1999
Passou a irritação.
Vitinho perdeu roubado na semi-final. Parece dejá-vu.
E é.
O americano da Flórida (é,ou não é flórida ?) Shea Lopes, com seu surfizinho McDonald’s, enganou quase todo mundo e ganhou, mas não ganhou muito, de Victor Ribas na semi-final.
Fosse na outra América, a do norte, uma bateria apertada entre o atleta local e um estrangeiro, o nativo começava com dois pontos de vantagem.
Aqui em Pindorama, índio começa com dois a menos.
É o nosso provedencial complexo de inferioridade e o medo atroz de cometer injustiças, coisa de povo colonizado. Nenhum país da Europa jamais temeu errar, nem os Estados Unidos, que erram sem medo e sem parar.
Desde os tempos da juizada brasileira na tour com Xandi Fontes e Renato Hickel que os nossos surfistas são prejudicados pelo excesso de zelo que temos com a justiça. Nunca foi má vontade, de jeito nenhum, ambos são corretíssimos, posso garantir. Mas um cuidado extremado em julgar as ondas dos nossos algozes sempre com olhos mais abertos e mais misericordioso afetou e ainda continua interferindo nos resultados.
Prometo não falar mais sobre isso (mentira, cruzei os dedos...).

Quartas de final: Taj Burrow X Neco Padaratz.

Não me lembro de ter assistido outra bateria desse nível em 99. Nem em 98... Pau comia solto nas esquerdas certinhas e armadinhas de 2, 3 pés. Taj se viu obrigado a mostrar um nível acima do que vem apresentando nesse ano. Em ondas com meio metro a mais seria impossível parar Neco.
Melhor surfe de alta performance do circuito.
A molecada que assistia na beira, aos gritos,delirava com a prova final de que nossas ondas, ali mesmo no quintal de casa, poderiam ser destruídas daquela maneira. É isso que empurra o nosso esporte/religião.
Essa devoção em qualquer lugar, a qualquer momento e não essa estupidez deslumbrada de circuito mundial somente em ondas perfeitas, locações de díficil acesso, etc...
Nossos surfistas/pregadores e devotos precisam do calor do acontecimento cara-a-cara (podem usar face to face, se preferirem) para empolgar o garoto na praia, o pai do garoto e todos amigos do garoto.
Esse pivete já foi o Mark Richards,o Tom Carrol,o Tom Curren, o Kelly Slater e o Vitinho, Neco, Peterson, Fabinho.
Hoje em dia esse sistema de filhos da puta impede a real evolução do surfe. Um surfista de 15, 16 anos precisa de,no mínimo, 2 ou 3 anos para alcançar o “senado”. Isso se for um virtuoso e, muito, bem patrocinado.
Falo disso outra hora.
Prometo.

Um comentário:

zuanita disse...

joana, goiabada, goiabada,joana
adorei seu blog zulin
lembro dessa data
tava na praia trabalhnado e aprendi pela primeira vez e por um ogro, o que era um flouter....
bj