quarta-feira, outubro 19, 2005

Os craques da corrupção

Os craques da corrupção

SÉRGIO AUGUSTO NO ESTADÃO



Alguns comentaristas esportivos se surpreenderam e sentiram-se enganados, lesados, esbulhados pelas coisas que o árbitro Edílson Pereira de Carvalho aprontou em 11 jogos do Campeonato Brasileiro. Por que a surpresa? Por que o espanto? Futebol e corrupção não viraram sócios ou sinônimos na semana passada, nem no mês passado, nem na década passada. Indignação, tudo bem; mas é bom ter consciência de sua inutilidade. Pelo menos dois senadores petistas já admitiram que são fortes, crescentes e quase certamente imbatíveis as pressões contra a instalação de uma CPI do Apito ou a absorção pela CPI dos Bingos dos envolvidos no escândalo protagonizado por Edílson de Carvalho. A máfia do futebol não dorme de touca.
Foi só falar na criação de uma CPI, para Ricardo Teixeira, sumo-pontífice da CBF, dar uma circulada no Senado. Coincidência ou não, no dia seguinte a CPI dos Bingos adiou para a próxima terça-feira a votação dos requerimentos de convocação dos árbitros Edílson de Carvalho e Paulo José Danelon, do empresário de jogatinas Nagib Sayad (o Gibão) e do “atravessador” Wanderlei Pololi, os quatro principais implicados no mensalão do Brasileirão. Se convocados, irão depor em data ainda a ser fixada. Se ficar para fevereiro, que não seja no dia 29, como alguns pessimistas receiam.
Edílson (agora mais célebre por pedir a três santinhos que ninguém note as suas trapaças em campo do que por ter xingado os jogadores Tévez e Sebá, do Corinthians, de “gringos de merda”) andou roubando no Brasileirão, Danelon garfou no Campeonato Paulista, Pololi manipulou até jogos fora do Brasil e Gibão faturava os resultados fajutados, através da internet. Suspeita-se que haja outros gaveteiros envolvidos, a maioria sopradores de apito: uns oito, mais ou menos. Se as investigações não se aprofundarem, é bom encomendar mais farinha de trigo, mussarela e orégano. Apenas anular os 11 jogos sob suspeita e realizar novas partidas não basta. Como não basta punir, ainda que exemplarmente, os lalaus até agora indiciados, dando o caso por encerrado a poucos metros da entrada da gruta de Ali Babá.
É preciso espremer, por exemplo, o Roberto Jefferson desse mensalão: um tal de Roberto Tibúrcio, que há tempos confessou à rádio CBN de Belo Horizonte ter subornado jogadores do Corinthians, Coritiba, Ponte Preta e até do Cruzeiro para o Atlético Mineiro não cair para a Segundona, no Brasileiro do ano passado. Curiosa mistura de Jefferson com Marcos Valério, Tibúrcio é, como Pololi, a perfeita encarnação do que antigamente chamavam de malaquias, o homem da mala, o agente do suborno de juízes e jogadores. De tão velha, a palavra saiu de moda, mas não da memória de quem não se surpreende mais com a ladroeira do futebol brasileiro.
Não diria que é agora ou nunca, mas que estamos diante de uma boa oportunidade para devassar o bas fond futebolístico, ah, isso estamos. Não o fizemos entre 1981 e 1982, quando a revista Placar desmascarou a Máfia da Loteria Esportiva. Nem 13 anos depois, quando se descobriu que o ex-árbitro Wilson Catani recebera R$ 18 mil para beneficiar o Botafogo de Ribeirão Preto na Série A-2 do Campeonato Paulista. Nem em 1997, quando Ivens Mendes, o poderoso chefão da Conaf (Comissão Nacional de Arbitragem de Futebol), foi apanhado com a boca na botija, pedindo grana ao presidente do Corinthians, Alberto Dualib, e ao mandachuva do Atlético Paranaense, Mário Celso Petraglia, que chegaram a ser suspensos, mas voltaram a seus cargos. Nem em 2002, quando Armando Marques foi afastado da Comissão de Arbitragem da CBF por ter coagido um árbitro a mentir na súmula.
Nossos cartolas não têm o menor interesse em limpar e profissionalizar o futebol. Se um roto-rooter ético entrasse, sem entraves, nas entranhas da CBF, a faxina só iria terminar nos entupidíssimos esgotos da Fifa, o que muitas alegrias daria a um mundaréu de gente, em especial a um sujeito chamado David A. Yallop, que na década passada contou todos os podres daquela entidade durante o longo reinado de João Havelange (1974-1998), num livro traduzido pela Record com o título de Como Eles Roubaram o Jogo.
Ladrão e futebol já conviviam no gramado quando em nossos campos predominavam imigrantes britânicos ou seus descendentes, que entre si só falavam em inglês. Sempre que um companheiro de equipe parecia alheio à aproximação de um adversário que lhe pudesse roubar a bola, ouvia-se o grito de alerta: “Man on you!” (homem em cima). Talvez um antropólogo possa explicar por que preferimos traduzir “man on you” por “ladrão”, em vez de “inimigo” ou “cuidado”. Não tenho certeza se herdamos dos ingleses as expressões “roubar a bola” e “enganar o adversário”. De todo modo, assumindo-as, nos comprometemos—ou nos entregamos. Começam pelo léxico as perigosas relações do futebol com o ilícito.
No Chile, começou pela onomástica. Tinha o sobrenome de Ladrón o árbitro chileno que em 1922 veio apitar, no estádio do Fluminense, um jogo entre as seleções do Brasil e do Paraguai. Éramos infinitamente superiores aos guaranis, mas não conseguimos passar de um empate (1 x 1) porque o juiz chileno, fazendo jus ao nome de sua família, anulou, descaradamente, três gols legítimos da equipe brasileira. Não apanhou da torcida—que se deu por satisfeita gritando bem alto e sem parar o sobrenome do chileno—mas nunca mais voltou ao Brasil. Entrou em nosso índex, como um dia entrariam em outras listas negras José Marçal Filho (que prejudicou o Botafogo, no final do campeonato carioca de 1971), José de Assis Aragão e José Roberto Wright (personae non gratae no Atlético Mineiro), Armando Marques (que garfou a Portuguesa na decisão do Campeonato Paulista de 1973). Bem, a lista é interminável, e se não tivemos um gatuno de apito na boca chamado Ladrão, consertamos com um trocadilho o nome de “sua senhoria” José Eunápio de Queiroz, que entrou para a história da infâmia futebolística com o gracioso e justíssimo alcunha de Larápio de Queiroz.
Nem toda arbitragem equivocada merece ser tomada por uma ação malévola, condenada como fruto de um complô, de uma rapinagem mafiosa. Mas depois do escândalo detonado por Edílson de Carvalho, ficou mais difícil aceitar faltas não marcadas ou inexistentes e cartões sonegados ou gratuitos como meras falhas humana. Os árbitros vão penar um bocado. Os honestos e os desonestos. Sem exclusão dos incompetentes. Se forem espertos, juntam suas forças, se organizam, e ajudam a sanear, a desmirandar e a desteixeirar o futebol pentacampeão do mundo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Bom Júlio, se vc não se importar, eu gostaria de sugerir uma enquete (pq naquelas da band, ao meio dia, fica difícil de acreditar): quem é a favor vs quem é contra a repetição de TODOS os jogos apitados pelo Edílson.
Eu sou contra.

Anônimo disse...

Bom Julio abraço,acho o que o Tiburcio fez é normal no meio do futebol,tanto é verdade que isso hoje se tornou uma pratica normal.Dar bicho por vitoria e pra ganhar é normal no mundo inteiro.Veja o seu time?????VIVE PAGANDO UM BIHINHO EXTRA.ACORDA PASCHOAL.