quarta-feira, junho 08, 2005

Condenado

Revista Surf Portugal - Coluna Tempestade em copo d’água - Janeiro 2005



O importante Não é competir, é se divertir e Rob Machado nessa, sifu.

Ninguem se diverte competindo. Competição é dor, frustração, angústia e decepção, mesmo para Andy em 2004 ou Slater em 95.
Todo papo furado sobre diversão, amigos e ‘deixar rolar’ assassinou uma geração brilhante de surfistas, Machado, Dorian, Knox, mesmo Taj.
Tenho muito viva uma frase que Derek Hynd citou numa de suas fantásticas reportagens sobre a vida no circuito mundial. Hynd, que com apenas um dos olhos enxergava bem mais do que o resto, discursava sobre a dura tarefa que era ser surfista profissional disposto à uma carreira séria pré-WCT, antes do primeiro milhão de verdinhas, antes da grande rede, antes da turma do Taylor Steele, o Ciclope citava Dostoyevski: ‘Life is pain and man is unhappy’.
E ele usava uma baita frase dessa para ilustrar a desilusão de tentar, tentar e perder, perder – não havia um único momento de felicidade nisso que não fosse fugidio.
Os grandes campeões não eram nada sorridentes, pelo contrário, tinham uma desconfiança constante que alguem lhes roubasse o cinturão, o patrocínio, as chaves do carro, um pedaço de parafina (não é Hardman ?).
Kelly teve bastante trabalho com Pottz e Elkerton o acusando o tempo todo de ser uma farsa.
Mesmo Curren tinha dificuldades com os campeonatos no Havaí, apesar de ter surfado a onda do inverno quando tinha apenas 17 anos, um tubo inacreditável em Off the wall, ‘Pipe, Pipe!’ Gritavam seus detratores.
Carrol tinha vencido em Sunset e Pipe. Kong dominava Sunset. Pottz era o mágico do free surf e Occy…bem Occy já era Occy.
Derek Hynd não tinha menor pena nem compaixão e indicava as deficiências e virtudes com o mesmo apuro.
Discurso decorado de surfista atualmente: ‘Estamos aqui apenas para nos divertir’.
Mentira.
Querem saber ? Perguntem ao Saca.



Saca mostra os dentes. Quando mostrará suas garras ?

Decepção.
Era preciso apenas duas ou tres baterias, o evento em Sunset, onde for a comemorado um vice poucos anos antes, seu mentor Zé Seabra estava lá, João Valente estava lá, todos torcendo…
Parecia inevitável a classificação, já passaram-se tres anos, as pranchas estavam boas, a champanhe gelava.

Dor.
Na cabeça do Tiago, a coisa deve se passar assim: ‘Este é meu grande momento, preciso justificar todo dinheiro que investiram em mim durante esses cinco anos, qualquer onda deve ser surfada com a maestria de um surfista digno do WCT.’
Errado.
Tudo que Saca deveria fazer – e aqui é muito fácil fazer qualquer análise, de longe, sentado em frente ao computador -, pois Saca nem precisava surfar como sempre surfa, tudo que ele tinha que ter feito era competir – e vencer.
Vencer, ainda que fosse em segundo lugar, com um 3.5.
Greg Emslie numa situação destas, não hesitaria em fazer um belo ‘feijão-com-arroz’, como dizemos aqui no Bananão.
Saca é vaidoso, sacrificou sua tão almejada vaga por um desempenho que ele sonhou, todos portugueses sonharam.
Decepção.
Numa hora dessas, a coisa na areia pode ter sido assim: ‘Será que ele não tem noção do que está fazendo ? Por Deus do céu! Tudo que ele precisa é uma onda medíocre…uma merda de onda e ele tá no WCT.
Putaquiupariu!
O mar em Sunset pouco lembra Sunset, talvez esteja mais próximo de Ribeira, com águinha quente.
Nuno Jonet não consegue esconder sua tristeza enquanto narra o campeonato.
Um internauta levanta-se indignado em Lisboa.

Frustração.
Pat O’Connel em segundo, Adam Robertson lidera com conforto, Saca nescessita de um 5.18, uma nota tão possível quanto um dia de sol no inverno havaiano, minto, cinco ponto dezoito ? tá no papo!
Surfando do jeito que surfa em Sunset, Tiago Pires FARÁ 5.18 a hora que bem entender.
Quem não dividia esta certeza, não entende absolutamente nada de surfe.
Dias depois, numa conversa informal, graças a tecnologia disponível na grande rede, Saca reconhece: ‘Acho que não estou pronto’.
Fico imaginando o que diria o velho Ciclope numa situação dessas…

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