sábado, março 26, 2005

Sem saida


Foto de David Pu'u, do saite Wetsand.com

Revista Surf Portugal #145 - Fevereiro 2005

Saí da água resmungando, amolado, questionando tudo que o Mar faz com a gente e o tudo que a gente faz com o Mar.
Estive lá por tempo suficiente para conseguir a onda que julguei merecer, e nada!
Passamos tanto tempo construindo expectativas em cima do alicerce de nossas esperanças, parados mas ansiosos, imaginando-nos em cada uma daquelas situações: uma acelerada, uma andadinha na prancha pra sair de mais um tubo imaginário.
Exatamente quando alguem te pergunta o que faria se ganhasse sozinho na loteria, ou se achasse uma maleta com um milhão de Dólares, fantasia.
Pura fantasia.
Somos assim, sempre nos repetindo como um clichê interminável, tão previsíveis quanto admiravéis, verdadeiros ‘spots’ de propaganda ambulantes para a campanha de um novo carro: aventura.
Ou anúncio de telefonia celular, seres universais, sem fronteiras, auto-exilados nos oceanos.
Ninguem bate essa imagem.
Produzimos música de qualidade para provar que não somos tão ocos e frequentamos o horário nobre na TV para provar definitivamente que somos, afinal de contas.
Saí da água mesmo aporrinhado.
Quem escreve sobre a eminente super-população de surfistas acorda cedo e procura um lugar tranquilo ?
As manhãs nunca foram tão solitárias como nesse início de século, a impressão que fica é de muita comida e pouca fome.
Aquela onda era minha!
Eu sonhei com ela, tive toda sorte de fantasias com ela, cometi todos pecados previstos desejando aquela onda.
Era minha…
A frustração de vê-la só, ou pior!, de vê-la sem mim, é insuportável.
Por que achamos que determinadas coisas foram concebidas para nos pertencerem ?
Que pretensão é essa, de se achar dono de alguma merda ?
Antecipei tanto aquele momento…
Antes de entrar, alongando os músculos velhos e retesados, na verdade criando tempo para poder observar melhor o Mar.
Remando e, queixo na prancha, encarando as ondas como De Niro em Taxy driver.
As possibilidades são infinitas – menos deixar passar.
Me afastava da água pesadamente, enfiando os dedos vigorosamente na areia, trazia a dor não da perda, mas da decepção, a pior delas: comigo.
Quando virá novamente ? Estarei disponível, na mesma hora, menos cansado, mais faminto do que hoje ?
Recordo duma frase de efeito que ignoro o autor: ‘Só me lembro dos tubos que não saio…’
Como quem tem saudades de um tempo que não viveu.
O nocaute de Buster Douglas por Tyson, Brasil campeão em 50, Brasil vencendo a Copa de 98, Pigmeu no WCT, Bush derrotado nas eleições…
Surfe, afinal, é nostalgia salgada e elástica, grudenta.
O camarada da frase acima surfava tubo atrás de tubo num desses picos indonésios e deixava todos de boca aberta quando, numa das maiores ondas do dia, surfou um tubo lindo, longo, profundo.
Quem viu garante que não presenciou outro igual.
Mais tarde, uma cerveja em cada mão, resolveram lhe perguntar sobre a onda do dia.
Aceitando a garrafa, agradeceu pelo elogio e pela cerveja, confessou que não lembrava da onda tão comentada, mas explicava para quem quisesse ouvir, eloquente e simulando com os braços os movimentos da prancha adiantando do meio pra cima da parede, que um tubo que ninguem deu muita bola foi o melhor de sua vida.
Ele não saiu do tubo e a memória era tão viva que ardia.
Quando terminava de contar aparecia uma expressão de angústia no seu rosto queimado. As rugas dobravam-se todas e ele engolia seco.
Eu carregava a mesma expressão enquanto saía puto d’água e andava em direção ao carro.
Não olhei pra trás.

3 comentários:

Fabio Soletti disse...

Julio, antes de mais nada, Bom Feriado!!

Sou leitor frequente do seu blog e so queria deixar a minha admiraçao registrada, seus textos sempre trazem
substancia rara e necessaria para minha leitura diaria...

Obrigado por ter escrito publicado esta materia, realmente fiquei emocionado, tanto e que pensei em
lhe escrever mesmo antes mesmo de termina-la ...,
mas completei a leitura e ainda estou em choque.....

Boas Ondas
Fabio Soletti

Julio disse...

Lisonjeado feito uma atriz da platinada em entrevista com o Jô agradeço a rasgação de seda e prometo não chocar mais.
Vai daqui um abrazzo

Cuze disse...

... e portugal campeão europeu em 2004!!! (quem é a Grécia?!) LOL:P

já tinha lido este texto na SP#145, pareceu-me um texto mais pessoal e intimista do que aqueles a que nos habituou - aqueles textos cheios de sarcasmo e bom humor, corrosivos e inteligentes. uma faceta pouco conhecida do famoso Julio Adler?! ou serei eu que sou mt maçarico nestas lides?! LOL

seja como for, o talento e o dedo afinado continuam aí, a transformar pensamentos em palavras! em suma, excelente como sempre!!

1abraço!