quinta-feira, março 18, 2004

Ipanema é o lugar

Ipanema é o lugar

Numa roda de amigos, final de tarde, sentados em frente ao Ceasar Park Hotel, um dos camaradas levantou o copo de requeijão cheio de cerveja e bradou: - Um brinde à Ipanema!
Os outros 4, pegaram o copo com certa lentidão - afinal, era a décima terceira ou décima quarta garrafa consumida...- Levantaram preguiçosamente e brindaram.
- À Ipanema!
Puta que o pariu, falou o mais velho e mais rabugento, olha aquela esquerda ! Todo mundo virou com surpreendente rapidez para olhar a onda que quebrava em frente a Maria Quitéria em direção a Garcia d’ávila.
Uma tremenda morena que passava exatamente na mesma hora que a turma admirava a coisa mais linda da praia se derramando no mar, ficou frustrada pela isenção de cortejo .
O mais novo pensou alto: É foda mesmo...Ipanema tem altas ondas.
E antigamente dava muito mais. Continuou o magrinho sentado na ponta mais perto do quiosque pra nunca deixar faltar cerveja na mesa com os braços longos e olhar comprido. Nos anos setenta era o Pier, perfeito de qulaquer tamanho e reinava a maior doideira nas dunas da Gal.
Quando detonaram o Pier, a galera se espalhou pela praia e o surfe era em frente a farme , na Aníbal ou na vala da Montenegro , que hoje chamam , com muita propriedade, de Vinícius de Moraes. Salve o poetinha !
- Salve o Poetinha! brindaram todos, contabilizando a décima quinta ou décima sexta ampola.
-Lembra do Valdir? Perguntou o gordinho que enxugava os copos feito um ralo. Ninguem entubava como aquele cara... morava ali embaixo, perto da Henrique Dummont.
- E o Maurinho?
- Puta que o pariu \!!! suspiraram juntos os 4, como quem visse Mauro Pacheco arrepiando as direitas grandes nos mares que só ele caía, sozinho, em meados do 80. Mauro tinha 17 anos quando ganhou os dois campeonatos mais importantes do Brasil naquela época: o de Saquarema e o de Ubatuba. Se tivesse ranking ele ganhava...
- Ele ainda pega as ondas, aí na frente. Tem um filhinho lindo. Com o sangue dos Pacheco nas veias o guri vai surfar pra cacete, levo a maior fé.
Agora essa rapaziada nova só quer saber de malhar e lutar jiu-jitsu...falou o ranzinza, desapontad. Eu tenho uma teoria: nesses últimos seis, sete anos, que o fundo esteve uma bela duma merda aqui em Ipanema, a galera que seria naturalmente surfista, por falta de opção e de vontade, preferiu seguir a onda dos lutadores.
- As meninas gostam...se sentem mais seguras, sei lá?! disse o magrelo cheio de recalque de ser magrelo. Menina nenhuma se sentiria segura do lado do magriça, a não ser que ele tivessa berrado-e ele sabia disso.
O gordinho se ajeitou na cadeira, respirou fundo como quem vai fazer uma bruta duma revelação e solta: - Um bando de bundão! todo dia esses malandros tão aí malhando de sungão, abdomen dividido e o caralho, nadando do Leblon ao Arpoador, mas é só o mar subir um pouco que os caras arrumam aquelas proteções pro joelho e ficam pianinho na areia.
- Eu li que nos próximos anos vai voltar a dar onda direto aqui na Zona-sul, é a tal da El Niña .
- Esse ano tá dando onda direto... já viu o fundo que tem na Teixeira?
- Aquilo é lugar de viado!
- Mas tem altas ondas em cima daqueles destroços de emissário .
- Tem mesmo.
- Tu viu aquele Guilherme Gross caindo outro dia na Joana Angélica pegando altos tubos?
Os Quatro balançaram a cabeça como quem dissesse, “vi sim.” .
Já estavam na vigésima, ou vigésima primeira, quando passou a loira que eles esperavam religiosamente naquele mesmo horário. Os copos ficaram dependurados nas mãos como que fossem entornar, a boca abriu levemente, só faltava escorrer a baba, os olhos pareciam ter olhado para medusa do Ulisses. Todo mundo vidrado no rebolado da musa do fim de tarde.
- Tremendo burrão... versou o gordinho.
- Isso é que é mulher. Sonhava o rabuja.
- Trabalha na Centaurus. Pilhou o mais novo.
- Mentira!!! Mentira deslavada! Indignaram-se os outros tres, já fazendo as contas pra ver se sobrava algum no mês que vem.
Quando virou pra pedir a vigésima quinta, o magrelo viu uma série de ondas se aproximar, marchando certinhas, alinhadas, até estourarem, quadradas, na beirinha, bem perto de uma criança que brincava na areia com a babá.
- Mais uma Ceará!
- Um brinde a Ipanema!
Dessa vez a única coisa que eles ergueram foram as esperanças.
- Ipanema é o lugar.
(Texto publicado na revista Vizoo, no longínquo ano de 1998)

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