domingo, março 21, 2004

A corrida de fera

[Esse texto vem da coluna "malandragem é o seguinte", em 1999, minha estréia virtual, que se deu pelas mãos do grande amigo Zé Augusto Aguiar, na forma de um imeio/coluna sem pé, mas com cabeça]

Tomando o café da manhã na padaria da esquina - hábito de carioca,
independente de classe social - fico tentando entender porque diabos o
pão é sempre seco feito pedra-pome até a última mordida, quando,
subiatmente, toda manteiga que parecia não existir, comparece em
impensável quantidade num tasco tão minúsculo de pão. Observo com certo
desdém a manteiga dependurada, pingar no pires.
Confesso que um dos motivos principais de ficar parado, em pé na esquina
em frente ao meu prédio é uma nova vizinha, que nem é tão nova e nem tão
vizinha, mas mora perto. E é um pedaço de bom caminho, deixemos os maus
caminhos pra lá. Já reparou que essas moças que são muito bonitas,
demais da conta, andam sempre apressadas ?
É o medo do assédio, do cortejo...elas cansaram disso.
- Coisa mais linda !
- tudo isso é seu ???
Cansaram...
O que me leva a pensar na famosa “corrida-de-fera”.
A corrida-de-fera é uma modalidade não reconhecida pelo comitê olímpico
de...corrida. É uma exibição.
Calma que eu explico: Já repararam naquele surfista que acha que surfa,
pelo menos umas dez vezes mais do que realmente exibe em pé na prancha,
quando sai d’água ?
Toda praia tem um desses.
O cara chega na praia com duas, ás vezes três, pranchinhas debaixo do
braço, barraca, dezoito roupas de borracha...
entra n’água todo faceiro, dá o showzinho dele e sempre, prestem bem
atenção, sempre que sai do mar, dá uma corridinha inútil, como se
houvessem hordas de fãs atrás dele.
Toda vez aquela corridinha....
Dependendo da ocasião, a carreira pode simular um tremendo esforço, ou
uma grande satisfação, ou ainda, uma verdadeira luta do homem contra a
natureza. Tudo safadeza.
Na verdade os malandros querem demonstrar um compromisso com a difícil
tarefa de ser ‘fera’.
Não pensem que é fácil ser ‘fera’, ou pior ainda: ‘fera-braba’.
São inúmeros compromissos com o fiel público: uma imagem para zelar,
autógrafos até doer as mãos, mulherem implorando por atenção,
jornalistas ávidos pela palavra genial do ídolo,
‘iiiii....eu....hum......só.....queria.....realmente ( sempre tem um
‘realmente’, um ‘extamente’ metido na frase ), agradecer.....
meus...hum...patrocinadores......valeu ! ’
E sempre aquela corridinha insuportável. É quase impossível rastrear
aonde exatamente começou a corrida-de-fera. Corre a lenda que foi em
Natal, final dos anos setenta. Mas existe uma forte corrente que aponta
para as praias da dourada Califórina final dos 60. O grande fera tem que
desenvolver uma corridinha característica toda sua. De cabeça abaixada,
ou erguida, com os braços pra baixo, com cara de puto, ou face contraída
mostrando clara determinação, todos precisam transmitir uma mesagem com
a corrida-de-fera.
“Me deixem em paz !” quer dizer um. “Viram minha última onda ? “ diz
o outro. “Voce de bikini branco, topas ???” pensa o terceiro....Uma
regra importantíssima é jamais olhar para a galera, jamais ! Um
verdadeiro ‘fera’ é circunspecto, concentrado. Não dá bola pro que os
outros possam pensar.
É fera e tá acabado.
A verdade é que, ao assistir um bom dia de surfe, debaixo da sombra de
uma árvore, com a cabeça feita, não tem coisa mais engraçada do que
ficar mangando (debochando, como dizem lá pra cima...) dessas figuras.
Surfe no pé, Zé.
Té jazz...

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