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quinta-feira, setembro 05, 2019

Bóia 25


Confira o 25º Episódio do podcast Bóia, apresentado por Julio Adler e João Valente.
Assuntos:
Teahupoo, Medina, geração Momentum e o documentário da HBO sobre mitos e lendas inventadas, coletivo feminino de jazz em Londres, new wave na Nova Zelândia e Adriano de Souza.
Se voce busca as últimas notícias do surfe, procure em outro lugar.
Bóia é deriva e divagação.
Toda terça-feira - ou não.




Nerija 


Split Enz






Storm Riders (Filme inteiro!)




segunda-feira, agosto 21, 2017

Boia

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Por quem dobram os sinos ?


[Resenha dos campeonatos de Bells e Margies, abril de 2015]

Ever tried. Ever failed. No matter. 
Try Again. Fail again. Fail better. 

Samuel Beckett


3… 2… 1!

Pausa para o jogo do século XXI

As histórias dos grandes retornos são as que mais fascinam.
Um sujeito, ou time, acuado com medo do fracasso supremo é capaz de coisas que até o homem duvida.

Final da Champions, 25 de maio de 2005, entre Milan e Liverpool, jogo que ficou conhecido como O Milagre de Instambul. 70.000 pessoas presentes.

O esquadrão do Milan meteu 3 logo no primeiro tempo, sem pena.
O time italiano tinha Kaka, Dida e Cafu, Seedorf, Maldini, Pirlo, Crespo e Shevchenko.
Liverpool foi pro intervalo e seu técnico, o espanhol Rafa Benitez, convenceu os 11 homens a lutar como se fosse o último dias das suas vidas.

De volta pro segundo tempo, em mágicos 6 minutos o time inglês empatou o jogo, embalado pela torcida ensandecida cantando o poderoso hino You´ll Never Walk Alone - mesmo que seus sonhos sejam varridos e arrasados, você nunca estará sozinho!

Encerrada a surpreendente partida, vieram as cobranças dos penaltis, vitória do Liverpool, 3 x 2.

Esse foi apenas um dos grandes exemplos que o esporte insiste em nos ensinar, nunca desista, principalmente se quase 40.000 torcedores apaixonados te empurram pra frente.

Já dizia Taylor Knox (que ganhou apenas um evento em toda carreira no WCT), quem desiste nunca será um vencedor e um vencedor nunca desiste. 

Tenha Adriano de Souza na cabeça durante o resto do texto.


Por quem dobram os sinos ?

Mal deu tempo para digerir a vitória do Filipinho na primeira etapa e já estávamos todos completamente envolvidos com a previsão de ondas do Rip Curl Pro em Bells.
A euforia era enorme, alimentada pela possibilidade de ondas pequenas, e a esperança dum segundo triunfo do furacão Toledo - principalmente se lembrarmos do jeito que foi a lavada.

Ou mesmo a tão aguardada volta do Medina ao pódio.
Especulava-se tudo, Slater, Florence, Julian, Taj… incrivelmente o nome do Mineirinho não era assim tão repetido.
Justo ele, campeão em 2013, mais experiente do conterrâneos no WSL, vindo de um terceiro lugar no Gold Coast, eliminando o favorito local Mick Fanning na quarta de final.

A primeira fase foi um banho de água fria, todos brasileiros perderam, Medina foi o único que sobreviveu.

Um pequeno abalo foi suficiente pra fazer Toledo acordar e simplesmente destroçar os havaianos Dusty Payne e Seabass.

Durante todo campeonato o surfe beirou o sofrível, com médias baixas e nível de surfe que nos faz duvidar várias vezes desse formato engessado.

A onda de Bells carrega uma história que se confunde com a própria história do surfe profissional.

Foi ali que Michael Peterson consolidou a lenda de maior competidor do seu tempo e também foi ali que Mark Richards começou a fantástica corrida que lhe daria quatro títulos mundiais.
Todos grandes surfistas já vencerem em Bells, Carroll, Curren, Potter, Andy, Sunny, Occy, Parko, Fanning, Slater.
Existe uma mística no lugar que não permite que o circuito se afaste dali, mesmo com toda antipatia que existe hoje com a onda.

A gritaria acusando Bells de ser uma onda cheia, sem graça, encontra coro por todo lado e até faz algum sentido, mas o esporte precisa dos seus símbolos e Bells é um dos nossos poucos templos obrigatórios.

Nem que fosse apenas para reverenciar passos fundamentais para a evolução do surfe, como a (re)invenção do surfe de backside pelo Wayne Lynch nos anos 60, ou a afirmação da triquilha como equipamento funcional por Simon Anderson nos 80.

O ritual reconhece a história sem deixar de apontar pra frente, basta lembrar da final entre Fanning e Slater em 2012, uma derrota doída do Careca, com nota 10 e full rotation executado à perfeição e tudo.

Bells é uma onda de repetição, nos últimos 20 anos tivemos Sunny Garcia, Parko e Andy Irons vencendo 3 vezes cada, Slater e Fanning (como já veremos) mais 4 cada um.

Bells Bowl, 4 a 6, Terral

Desta vez não vimos as condições perfeitas, a suposta onda capaz de elevar o surfe de garotos ao próximo degrau.
2015 será lembrado como o ano do julgamento confuso.
Jordy e Jadson foram duas vítimas dessa confusão.
Jordy, como bem percebeu Steve Shearer, astuto jornalista australiano, sofre com o preconceito que armou-se em torno dele de que o sul africano não seria tão eficiente em ondas pesadas de verdade quanto é nas direitas da sua predileção - J. Bay, Testles, Snapper, Bells.
O fato dele ser descartado numa corrida séria ao título amassa suas notas contra o peso de um Fanning, ou Parko - supostamente candidatos legítimos.
Mas isso são apenas suposições e nós sabemos que nada disso faz sentido.

Jadson foi melhor que Fanning nas oitavas.
Em nenhum momento o Macaco Albino foi o surfista do campeonato, nem ele nem Mineiro.
Os dois foram eliminando a concorrência silenciosamente, sem nenhum alarde, com a frieza de um assassino contratado.

Quando se encontraram na final, em ondas horríveis, mexidas, deformadas, seria a terceira vez na temporada em apenas dois eventos.
Uma vitória pra cada um, sendo que Adriano ignorou Mick nas quartas do Quik Pro.
Tinham contas para acertar.
Mineiro foi preciso, Fanning ligeiramente mais insinuante.
O resultado foi como deveria ser, polemico, suado, por que não justo ?
Veremos isso logo adiante, na etapa de Margaret River…


Acabei de ganhar do melhor surfista do mundo!

A Arte da ficção

Permitam que se use aqui um pequeno trecho da entrevista do escritor americano Ernest Hemingway, notório também pela sua queda por touradas, corridas de cavalos, caçadas e guerras, em 1954, num café em Madri.

Hemingway pergunta ao seu entrevistador,
Voce costuma ir às corridas ?

O entrevistador responde,
Sim, as vezes.

Hemingway,
Então voce le os programas das corridas…Ali voce tem a verdadeira arte da ficção.

A mesma coisa acontece quando lemos a lista das baterias do campeonato.
O papel aceita tudo.

Quando todos sites, inclusive a WSL, começaram a analisar o quão grande poderiam ficar as ondas em Margaret River, a expectativa de assistirmos um evento da magnitude do Fiji Pro de 2012 parecia iminente.

Parko teria encomendado uma prancha de 8’, pela primeira vez em muitos anos o fã poderia ver seu surfista preferido usando as gunzeiras fora do Havaí.

Na minha cabecinha doente, recordava-me de um campeonato em 1990, que aparecia no primeiro Sarge surfing Scrapbook, uma serie de videos que o fotografo Paul Sargeant fazia nos anos 90.
Margaret River ainda era um mistério nessa época, pouco aparecia nas revistas ou filmes.
No jornal Tracks, Derek Hynd descreveu as condições como 15’ a 20’, as maiores já vistas fora do North Shore na ASP.
O Tahitiano Vetea David surfou com uma 8’6’’, Tom Curren conseguiu uma 9’1’’.
Ainda não se falava em The Box.

Corta para 2015, voce olha a lista de baterias da primeira fase, nome por nome, depois ouve o locutor falando que The Box tem quase 10 pés de onda.
Aquilo é um moedor de carne.
O túmulo dos goofys.
Tambem é o sonho do Kieran Perrow, surfista mediano que sempre se destacou nessas condições extremas.
KP tem a chance de expor essa nova geração ao ridículo e fará de tudo para isso - ou não.
As médias são lamentavelmente baixas.
Slater vence a sua bateria com um total de 8,2.
Ninguem faz mais de 16 pontos em toda primeira fase!

A segunda fase começa com a derrota do Medina e Toledo.

Nada empolga muito até Owen Wright se atirar em duas ondas que serão repetidas à exaustão nos próximos 10 anos.
Sua irmã, Tyler, gritava do canal pra ele não dropar a bomba - ainda mais de costas pra onda.
Engraçado que foi preciso um goofy pra mostrar como se faz naquela deformação de onda…

O campeonato parecia feito sob medida para Owen, Slater e John John.
Ondas enormes, pesadas, perfeitas mas nem tanto.
Nenhum brasileiro entrava nas listas de favorito.
Mineiro sobrevivia com a garra de sempre e já era o dono da camisa amarela depois que Fanning perdeu para Jay Davies sem tanta empolgação.
Mas como resistir ao ataque do Slater em Margaret no terceiro e maior dia de competição ?

Tema de Kelly

São anos demais de circuito.
Ele já não tem mais a mesma energia, nem motivação.
A idade começa a lhe cobrar o preço.

Fale o que quiser do camarada, quando é chegada a hora de revelar sua majestade, Slater ainda é capaz de fazer o impossível.
No meio dos 34 existe muita gente que faz o diabo, cada um dos seu jeito, em determinadas condições, mas Slater molda as condições ao seu bel prazer e as transforma em arte.
Seu 10 contra o pobre coitado do Glen Hall podia ser um 15 - fácil.
Surfando com uma prancha abaixo da média, uma mera 6’3’’, bat tail (rabeta batman), Slater fez uma linha anormal numa das maiores ondas da bateria, entubou com a categoria de sempre, saiu limpo, rasgou usando toda parede como quem desejasse acariciar um dragão começando pela cabeça e terminando com a ponta da cauda.
O que ele não sabia, nem esperava, é que tinha um Mineiro no meio do caminho…

Ace Buchan, 16 de março de 2009

No blogue que Adrian Buchan escrevia no Surfline, muito bem escrito diga-se de passagem, Ace refletia sobre a primeira etapa e concluia que competir em alto nível no circuito mundial não é para qualquer um, a pressão é enorme e o sujeito tem que gostar da batalha, dizia ele.
Veja o que Ace escreveu sobre Adriano,

Por isso Adriano é  bem sucedido, porque ele ama a disputa. Obviamente ele surfa muito, mas ele ama a competição. Na primeira fase ele quase remou por cima do Jordy para defender sua liderança (2009). É por isso que Kelly tem(tinha) nove títulos. Mesmo podendo confiar no seu talento para avançar mais da metade do tempo, quando necessário ele afronta seu oponente e briga pelas migalhas. 
No final do dia é o surfe que fala mais alto, voce não quer se engalfinhar pra passar a bateria. Para mim, é disso que o esporte é feito e por isso é tão empolgante. Ver pessoas se testando em situações de aperto e tendo que brigar por aquilo. Eu amo aquilo!

Nós aqui na Hardcore tambem amamos isso, Ace!

Aqui é Mineiro, porra!

John John era o Milan, irresistível, atropelando todo mundo, cartel de vitórias arrasador, repleto de jogadores caros e talentosos - metendo 3 gols no primeiro tempo da final e praticamente decidindo o jogo.

Mineiro pode ser representado pelo Liverpool, um time aguerrido, mas desacreditado, liderado por um técnico mestre na estratégia e que não desiste jamais.
Depois de ter lutado tanto e chegado tão perto de ser o primeiro campeão mundial brasileiro, Adriano viu Medina roubar seu sonho.
Ou parte dele.
O sonho de ser campeão mundial permanece.

O primeiro gol foi marcado no Quik Pro, vice em Bells, oitavas já garante a lycra amarela pro Rio.
Agora vamos pros penaltis.

Na folha das baterias, uma bateria entre Slater e Adriano num mar de mais de 8 pés resulta num massacre, só que não.
Desde 2010, em Porto Rico, De Souza já enfrentou Slater 10 vezes e perdeu apenas uma.
Ninguem no circuito entendeu melhor como funciona o jogo.
Eu sei que tenho que ser melhor do que ele (Slater) nos 30 minutos, porque nunca serei melhor que ele fora das baterias, declarou Adriano para a adorável Chelsea quando saiu do mar.

Mineiro é um dos únicos, senão o único a ter um retrospecto de 100% pra cima do Gabriel Medina, são 6 x 0 e isso não é pouco!

Alem de eliminar Slater, Mineiro ainda tinha o herói local, Taj Burrow (que vai ser papai!) pela frente.
Surfando com o livro de regras debaixo do braço, sem errar, escolhendo as ondas com perfeição e, principalmente, sem cair da prancha, Adriano foi batendo os seus penaltis até o triunfo final.

Exultante ao sair da final contra Florence, Mineiro ajoelhou no chão, agradecendo aos céus e ao seu anjo da Guarda, Ricardo dos Santos, pela glória alcançada.

Eu acabei de ganhar do melhor surfista do planeta!

A consciência brutal de se reconhecer inferior ao camarada que ele derrotou mostra uma maturidade digna de quem está pronto para cumprir seu destino.

E todos nós sabemos que Mineiro não vai descansar enquanto não levantar o caneco de campeão mundial.








segunda-feira, março 23, 2015

Janela

[Texto recuperado do HD de 2002, quando ainda colaborava com o então tímido site waves - ainda lá está, no mesmo lugar.
Revisitar velhos escritos dá um misto de orgulho e vergonha simultaneamente.
Orgulho de enxergar determinadas coisas antes e vergonha de usar tantas conjunções e recursos baratos de linguagem que hoje evito com todas forças.
Me admiro da incrível coincidência de encontrar Galeano mais uma vez num texto escrito 12 anos antes desse último publicado aqui no Goibada.]




Tenho a incômoda capacidade de enxergar surfe em tudo quanto é canto.
Na entrevista do escritor uruguaio Eduardo Galeano no jornal O Globo de Domingo, 21/07/2002, reparei numa frase que cai tão bem na nossa cultura surfe que inspirou esse texto.


O que alguns bobos acham que é defeito acaba sendo a nossa maior virtude.

Primeiro me veio à cabeça o Peterson, talvez o surfista mais incompreendido do circuito WCT, de uma campanha avassaladora, só pra usar um termo muito em moda, ignorando Slaters e Fannings afora, de costas e de frente, Backside e frontside pros mais maldosos.

Logo em seguida, não sei porque diabos, acometeu-me um vídeo novo chamado Momentum - under the influence, espécie de versão atualiazada do primeiro Momentum, onde as estrelas tem todas menos de 23 anos e, supostamente, os melhores do mundo.

No que resta de minha memória, 
comprei o Momentum no Havaí, em 92, quem recomendou foi o Sérgio Noronha, que assistia 200 vezes a fita por dia.
O impacto foi grande, todo mundo conhece e ninguem mais aguenta tanta gente lembrando do Slater, Machado, Dorian, Kalani, Knox embalados pelo sonzinho bacana e pra cima do Bad Religion, Nofx, Pennywise e Gangrena Gazosa, opa!, brincadeira...

Uns 30 anos depois, lançaram até aqui no Brasil, sem direito ao secret-video, umas das sequências mais legais do VHS, mas voltemos a 2002....

A versão 3.0 do ganso de ovos de ouro do Taylor Steele, sob a influência, não nos revela sequer um brasileirinho.

Nem umzinho...




Admirador dos vídeos da rapaziada que tem no emblema o nome Poor specimen, não tenho dificuldade nenhuma em elogiar todos 23 títulos da Família Steele.

Não o faço por impaciência.

Reconheço, entretanto, que não deve haver qualquer preconceito nem desprezo da parte dos produtores para cima dos meus conterrâneos - nem poderia - taí a prova no premiado filme de Skate, Hallowed Ground, encomendado pela mais nova gigante da Surfwear, recém comprada pela Nike pela bagatela especulada de 140.000.000 milhões de Verdinhas, sim senhores, a Hurley, filhote de Bob Hurley, ex representante da Billabong nos E.U.A.

O Brasil, e os brasileiros, são destaque no Hallowed Ground, filmado em 16 mm, com direito a incursões na trilha e tudo - talvez porque fica difícil ignorar os títulos do Bob Burnquist, patrocinado da Hurley/Nike e cia Ltda.

Mas os carrinhos não são, nem de longe, assunto de meu interesse, portanto voltemos ao surfe.

Concluindo então que não há preconceito, existe até (pasmem!) admiração, como explicar a ausência absoluta de surfistas de passaporte verde entre os melhores do mundo com menos de 23 anos, segundo Taylor Steele ?

De cabeça, sem coçar muito a careca, Trekinho, Raoni, Pedro Henrique, Pigmeu, Léo Neves, Mineirinho, Marco Polo...

A lista é maior, tão grande quanto a injustiça.

Devo substituir os gringos palhinha por qualquer um da lista acima ?

Fica o Taj, Bruce e Andy, Dean, C.J e Damien, Rasta, Fanning e Joel.

O resto roda.

Sobra então pro Rafael Mellin, solitário guerrilheiro/video-maker, a árdua e agradável tarefa de revelar ao mundo, começando pelo Brasil, o talento não reconhecido (por enquanto!) dessa gente bronzeada tentando mostrar seu valor.

Que venha o Lombrô 3, pra saciar a sede de sangue novo.



PS - Voce, meu caro leitor, vai comprar ou copiar o vídeo quando assistir na casa do amigo ? e por que ?

segunda-feira, janeiro 05, 2015

Olimpo derrotado

[Cobertura da primeira vitória do Gabriel Medina em 2014, o início de uma longa e inesquecível Jornada]

De olho em algo muito maior do que apenas uma porrada no lipe...


O que fica na memória é a sequência fantástica de nocautes: Mick, Taj e Parko – Pow, Pow, Pow! Isso, só na conta do Medina. Mineiro e Pupo derrubaram Owen, Kerr e Slater.Temos, numa rápida contagem, 15 títulos mundiais e uma infinidade de Top 5 entre esses senhores.

Quem diria, 17 anos atrás, que os brasileiros deixariam um rastro de destruição desse porte nas areias do Super Bank – na verdade na água – logo na primeira etapa do ano...
Apresso-me em responder, com fatos, quem sonhava com esse momento: Peterson Rosa e Neco Padaratz – e Adriano.

O campeão do Quiksilver Pro 2014 ainda não tinha feito três anos de idade quando Slater venceu o Bronco na final do então Billabong Pro de 1997. Neco Padaratz ficou na semi, também diante de Kelly.

Adriano, na sua estreia no WCT, arrancou um terceiro em 2006, com apenas 19 anos, gostou tanto que decidiu fazer três finais na Goldie: 2009, 2010 e 2012. Os números servem para mostrar como uma vitória se constrói. Ela começa bem antes de Gabriel acabar com a festa dos australianos e fincar a bandeira brasileira no lugar mais alto do pódio.



Troca de guarda

Na Nova ASP, a expressão americana “terra de oportunidades” ganha novo significado. A nova direção quer mudanças e nada melhor do que nós, reconhecidamente mercado emergente, para dar a partida nos novos negócios.

Gabriel nem precisou usar seus superpoderes para superar um por um dos seus adversários no caminho do título. Durante todo o tempo, Medina parecia mandar uma mensagem como esta: “Pessoal, esse é o meu jogo e eu jogo do jeito que eu quiser”. Cada onda foi surfada apenas com o esforço suficiente para abater o oponente, sem exageros, sem firulas. Como Curren fez tantas vezes antes e como Kelly aprendeu a fazer como ninguém. A carta na manga, a arma secreta, tem lugar e hora para ser usada.

Medina aprendeu isso.


Doces rivais

Quase duas semanas depois de impor a quinta derrota seguida ao onze vezes campeão mundial, Adriano publicou uma foto de uma onda do Slater no Instagram com a seguinte legenda: “Como usar o espaço da onda, mesmo ganhando do Kelly na Gold, é nessa foto que eu observo a perfeição, tenho conhecimento que falta muito ainda”. Sempre conectado, Kelly respondeu: “Você é um sujeito bacana, Adriano”.

Mineiro tem uma maneira diferente de abalar o Careca, alguma coisa balança as estruturas do camarada que antes parecia tão imune aos encantos alheios. Talvez esse seja o jeito de Adriano repetir aquele famoso “Eu te amo”, que Kelly disse para Andy antes da final do Pipe Masters de 2003.

Não há hoje, no Circuito Mundial, ninguém tão preparado, obstinado e combativo como Adriano de Souza. Até Slater reconhece isso.

Quando inverter o sentido tem outro significado


Se quer uma revolução, faça você mesmo

A grande notícia na página da (Nova) ASP antes de começar o Quik Pro era o retorno de Owen Wright. Fazia todo sentido, afinal, o camarada tinha se apresentado com candidato ao título mundial em 2011, fazendo três finais seguidas com Slater. Após passar toda a temporada de 2013 de molho, recuperando-se de uma contusão, Owen era uma aposta certa. Ou não?

Perguntem a Miguel Pupo...

Pupo é um rapaz calado, fala mansa, boa praça, sempre com sorriso no rosto quando cruza com um companheiro, lembra até um pouco outro goofy brasileiro famoso pela velocidade e estilo, Victor Ribas.

Victor também não chamava muita atenção até um belo dia disputar o título mundial com Occy e Taj e levar a decisão para o Hawaii. Até hoje, o terceiro lugar no ranking de 1999 ainda não foi superado [Nota do Autor: em 2014 a história muda].

Não estamos aqui para falar do Victor, contemporâneo do pai do Miguel, Wagner Pupo.
Estamos aqui para mostrar que nem toda força da indústria consegue ganhar uma bateria.

Na terceira fase do Quiksilver Pro, Miguel Pupo silenciosamente aniquilou Owen Wright, dando cabo das expectativas da máquina de comunicação da ASP. Pupo foi possivelmente o surfista brasileiro mais elogiado pela imprensa estrangeira nessa primeira etapa – o que não deixa de ser uma grande conquista. Cada vez mais, Miguel vai crescendo debaixo dos nossos narizes como grande surfista.

Perguntem a Josh Kerr...


O serrote e a marreta

Existem alguns detalhes fundamentais na extraordinária vitória do Medina.

Número 1: ele nunca foi o melhor surfista do evento, mas venceu cada um dos principais favoritos com uma precisão cirúrgica.

Número 2: Gabriel rompeu barreiras, primeiro goofy em dez anos a vencer na Gold Coast – Mick Lowe bateu Andy Irons numa final complicada em Rainbow Bay em 2004.

Número 3: essa é a primeira vez que iniciamos o ano na frente do ranking.

Número 4 (talvez o mais importante): Gabriel não se deu ao luxo de voar.

Existe um dado novo nessa história: a partir de agora, já não somos mais francoatiradores, todos os olhos estão apontados para Medina, Mineiro, Pupo e cia. Passamos de caçadores a caça. Se antes nós reclamávamos do julgamento, agora é a vez deles – vide comentários abaixo de toda e qualquer publicação sobre a primeira etapa. São muitas primeiras vezes, tudo novo.

Como disse muito bem Adriano, eles (gringos) já têm onde se espelhar, sobram as referências do que fazer e como fazer, enquanto para os brasileiros é sempre uma surpresa porque ninguém trilhou esse caminho ainda – de ganhar o título mundial.
Gabriel tem um retrospecto excelente contra Taj, Mick, Slater e Parko, o problema é outro brasileiro, chamado Adriano de Souza, que tem 4 x 0 em cima dele.

Imaginem se a disputa do título ficar entre esses dois camaradas? Num tempo de mudanças, de troca de guarda, tudo pode acontecer.


sexta-feira, abril 25, 2014

Bells 2013

[Aproveitando a deixa do Bells de 2014, publico aqui a resenha Facit do evento de 2013]


O indomável

Horas depois da extraordinária vitória do Adriano de Souza em Bells, a imprensa estrangeira tentava, ainda meia tonta, explicar o que todos acabavam de testemunhar.
Afinal de contas, Bells é o evento mais tradicional do mundo, mais de 50 anos sem parar, e a lista dos seus vencedores é a mais verdadeira lista de surfistas de ponta que há, mais ainda que a lista dos campeões mundiais da ASP.
Vejam só, Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Slater, Parko, Fanning...
Foi Shane Dorian que cunhou a famosa frase, Nenhum prego jamais venceu em Bells, naturalmente  defendendo seus interesses, mas isso não vem ao caso.
Adriano conhece bem a história dos eventos da ASP e tem como objetivo, alem do óbvio título de campeão mundial, fincar bem seu nome como grande surfista nos principais campeonatos do circuito.
Poucas horas depois do Mineiro literalmente quebrar o sino, o saite do jornal Tracks, quase tão antigo quanto o Rip Curl Bells Easter classic, descrevia a seguinte cena:
No banquete comemorativo dos 50 anos do campeonato de Bells, foram convidados todos campeões desde 1962, homens e mulheres.
Na oportunidade, foi lançado tambem o livro Bells, a praia, o campeonato e os surfistas do Michael Gordon (irmão daquele simpático câmeraman que entretia a todos com assovios e sorrisos).
Mineiro comprou um livro e foi, de mesa em mesa, catando os autógrafos de cada um dos campeões, mostrando respeito e devoção pela história do esporte que lhe deu tudo.
Essa é uma diferença fundamental entre Adriano e todo resto da sua geração e mais jovens, respeito pela história.

Filipe, o pequeno grande Homem

Alguem ainda se recorda das dúvidas que pairavam em torno do Filipe Toledo ?
Responsável por uma das manobras mais impressionantes de todo campeonato, Filipinho surfou com total abandono em Bells e só não mais à frente por ter enfrentado o melhor surfista de todo evento, Jordy Smith.
Precisamos apenas de cuidado ao tentar avaliar as ondas do rapaz e levar em consideração que, mesmo com um surfe de altíssimo nível, Toledo ainda tem muito o que aprender no tour.
O primeiro ano de todos debutantes é para absorver toda e qualquer informação que puder, mesmo que, como Bobby Martinez, ele vença um evento.
Um quinto em Bells é um belo começo.


O poderoso Panda

Ainda melhor do que ver Willian Cardoso bater Slater numa bateria sensacional, foi ler os comentários atônitos dos gringos perguntando sobre o Panda.
Aonde se escondia esse cara ?
Finalmente um surfista power de verdade saindo do Brasil
É o novo Richard Cram
Como esse cara não está no circuito mundial ?
As respostas são faceis.
Cardoso não se escondia, apenas competia no WQS, circuito solenemente ignorado pela imprensa e até mesmo pela própria ASP.
Um circuito sem prestígio nenhum como o WQS é praticamente um limbo entre o mais completo anonimato e os top 32.
Tirando dois ou tres eventos pingados no planeta Prime, o resto não serve nem pra encher a barrinha do lado nos maiores saites de surfe por aí.
O Panda é um produto desse circuito desalmado que serve tambem como uma espécie de organização militar, onde os cadetes devem se submeter aos mais enlouqecidos desejos dos mais graduados em nome duma possível aceitação.
Os top 32 são os oficiais, a turma do WQS são os recrutas e as grandes marcas, o estado maior.
Willian Cardoso era um recruta dedicado, seria o equivalente a um sargento hoje, tem mais horas de batalha que muito malandro nos top e deseja os escalpes com mais fúria e paixão do que todos americanos e australianos juntos.
O que acontece com o Panda hoje é a mesma coisa que passou Tiago Pires antes de entrar no tour, sempre perto da vaga, sempre batendo na trave e surfando tanto quanto seus pares no WCT.
Voltando a bateria contra Slater, Cardoso mostrou ao público com quantos litros d'água se faz uma cachoeira.
Enquanto Slater buscava os tubos apertadinhos, o Panda enterrava seus quase 90 kilos de músculos na parede do bowl de Bells e deixava todos boquiabertos.
O resultado foi uma derrota com gosto especial de merda para o careca, justo no ano que ele anunciou estar comprometido.
E desta vez, não tinha juíz pra culpar, nem falta de ondas, nem prancha...

Raoni Gigante

Juro que não aguento mais ouvir os locutores se referindo ao Raoni como matador de gigantes.
Raoni não é matador de gigantes, Raoni É um gigante!
Ele mesmo escreveu isso no twitter depois de vencer Joel Parkinson.
A lista de baixas é grande e do mais alto nível, Slater em Portugal, Fanning, Occy, Parko, todos quando disputavam títulos.
Raoni é o tipo de sujeito que cresce nesse ambiente de tensão.
Coisa de quem tinha que cair, desde pequeno, nos maiores mares em Itaúna, uma das ondas mais fortes do Brasil.
O cara ganhou um evento em Sunset, por Deus do Céu!
Evitem se referir ao Raoni com essa expressão cafona e ridícula que os gringos inventaram por absoluta falta de recursos no próprio idioma.
Raoni é um gigante, Pôrra!

Ao meu comando

Steve Shearer, meu jornalista predileto nesse mundinho cão das coberturas do WCT, aproximou-se do Mineiro e disparou, como voce está se sentido agora que toda atenção da imprensa é dedicada ao Gabriel Medina e seu futuro título mundial.
Ainda estávamos nas primeiras fases e Adriano respondeu altivo, É verdade, todos falam dele, mas se voce perceber, nos últimos cinco anos, estive sempre nos top 5. Não sou mais uma zebra. Eu sou candidato ao título.
Mineiro poliu seu surfe aos poucos e foi se livrando da sua cavada em dois tempos para o Bells deste ano, claramente observando o que funciona e o que não funciona no julgamento.
Um amigo meu disse que Mineiro compete com o livro de regras debaixo do braço e está coberto de razão.
A inteligência do Adriano vai bem mais longe do que enxergam nossos pobres companheiros de imprensa.
Mineiro sabe como ler uma onda e como estudar seu ataque pra cada uma delas, ao contrário de algum dos seus adversários que confiam somente no talento.
Voce não se mantem nos top 5 sem muito esforço instinto competitivo.
Vitórias em Jeffreys, Supertubos e agora Bells.
Adriano crava seu nome no Olimpo não apenas como maior competidor brasileiro de todos tempos, mas um dos maiores e mais ferrenhos competidores de todos tempos.
Seu nome agora figura ao lado do Nat Young, Terry Fitzgerald, Jeff Hackman, MP, Mark Richards, Simon Anderson, Cheyne Horan, Carroll, Curren, Pottz, Occy, Sunny, Hoy, Dorian, Andy, Taj, Parko, Fanning e Slater.
E em 2013, ninguem está mais próximo dum título mundial do que Adriano de Souza.

10 fatos que (tambem) marcaram o Rip Curl Pro Bells 2013

1 - Adriano venceu seu primeiro evento para seu novo patrocinador, a marca cearense Pena - todo investimento já teve retorno.

2 - Alejo voltou ao seu melhor e deve voltar pros top 10

3 - Carissa Moore fez chover em Bells e dificilmente perde o título em 2013

4 - Apesar da vitória da Carissa, Steph ainda tem a linha mais pura e bela em Bells - podemos incluir aqui mais da metade dos top 32.

5 - Nat Young sentiu-se em casa nas direitas geladas de Bells, mas a ajuda do Maurice Cole foi preciosa.

6 - A cara do CJ quando Mineiro usou corretamente a prioridade na terceira fase foi uma das cenas mais divertidas do evento

7 - O vigor com que Adriano badalou o sino até quebrar!

8 - Jornalistas australianos e americanos finalmente mostraram respeito, e arrisco até dizer, reverência ao surfe brasileiro.

9 - Parko jogou fora mais uma das suas providenciais vantagens depois da derrota do Careca

10 - Chupa Careca!


sábado, julho 14, 2012

Chiclete com banana

[Texto sobre a primeira etapa do WCT 2012. Resolvi (re) publicá-lo hoje porque #5STEPH arrastou mais um.
Leia com atenção e assinale com um X os campeões mundiais]


Stephanie gosta de vencer


Rainha do mar

Não há ninguem hoje no circuito com mais vontade de ser campeão mundial do que Adriano.
Minto, talvez Stephanie Gilmore traga atrás daquele sorriso cheio de dentes um dragão faminto capaz de devorar até o(a) mais valente adversário(a).



Corre direto para 2Hrs e 40 segundos





Alguem viu a noite de gala da ASP ?
Na cerimônia que a associação oferece aos escolhidos para celebrar os novos (e velhos) campeões mundiais, Steph deixou, sem querer, aparecer muito mais que suas lindas pernas. Quando chamada ao palco para entregar o troféu de campeã mundial para Carissa Moore, Steph mirou a enorme taça com um olhar de Gollum (my precious!) e antes de parabenizar a novíssima campeã, Happy Gilmore logo avisou, vou sentir falta... Carissa, eu te empresto...
A mensagem ali era clara, depois de um ano apagado em 2011, Steph estava de volta e no Quiksilver Pro, primeira etapa do ano, atropelou a concorrência sem dó nem piedade.
O jeito que Steph conduz sua prancha podia tranquilamente ser usado como referência de como atacar uma onda com classe e agressividade - para homens e mulheres.
Se Lakey Peterson é um Dane Reynolds de saia, Tyler é um Occyzinho (a), Steph seria um misto de Curren, Lisa Anderson e Slater.
Meu Deus! Pela primeira vez em anos, poderemos ter uma corrida ao título das mulheres tão interessante quanto a dos homens.
Conto com Carissa, Sally, Tyler, Lakey, Laura e Courtney para isso.





Instigado

Esse campeonato era do Mineiro, me perdoem a paixão cega de torcedor de arquibancada.
Aquela onda do Taj não era 9.43 nem aqui, nem no Itaim Bibi. Mas o que voces esperavam na Australia ?
Não quero de forma alguma insinuar que há uma coisa consentida por trás do palanque que arremessa esses sujeitos a premiar determinadas ondas com exatamente a nota suficiente para vencer baterias - de jeito nenhum!
Quero dizer apenas que resultados estranhos não são mais surpresa pra ninguem, nem para brasileiros, nem para australianos, havaianos, sul-africanos, tahitianos ou americanos.
O julgamento chegou numa sofisticação de subjetividade que hoje em dia muita bateria pode ter resultado para um lado ou para o outro.
E simplesmente não acredito em mão grande.
Nem defendo juízes com argumentos que são na maior parte das vezes corporativistas.
Creio que a pressão é gigantesca e determinados momentos são cruciais para decidir o quanto uma onda pode valer - ou não.
Vejam John John naquela espetacular final em Pipe contra Jamie.
Eu pergunto, teria ele conseguido as duas notas que precisava, se fossem ambas surfadas logo no início da bateria ?
Slater se beneficiou tantas vezes disso, por saber crescer na hora certa e jogar com a pressão e a torcida.
Parko, por outro lado, precisa de tudo dando certo para poder vencer sem riscos.



Olho no Mineiro e Mineiro de olho na próxima manobra


Poliuretano, fibra e resina


Taj apareceu em 2012 sem a sua companheira fiel dos últimos anos e seu surfe ganhou em dinâmica, velocidade e expressão.
Sempre achei que as Firewire pareciam deixar o surfe do Taj chapado demais na onda (sem trocadilhos) sem tanta borda e até um tanto previsível para um sujeito que ficou famoso por liderar inovações.
Com uma prancha tradicional shapeada pelo mago da Lost, Taj foi logo obrigado a enfrentar Dane Reynolds numa disputa que beirou a insanidade e que, mesmo ali na segunda fase, já mostrou que algo diferente tinha acontecido com TB.
Claro que uma vez mais foi apenas questão de Dane repetir seu erro como sempre fez contra Taj, mas desta vez Taj estava mais bem preparado e ninguem poderia pará-lo.




Tal Parko, Tal Jordy

Uma das coisas que eu mais gosto de ver nos campeonatos de surfe são as rivalidades e Parko é mestre em alimentá-las.
Julian foi um que mordeu a isca e tem pago o preço.
Outro que mostrou quanta satisfação é bater no eterno vice foi Jordy Smith. Dava gosto ver o sorriso debochado do rapaz ao ser entrevistado depois do primeiro confronto com Joel.
Foi uma espécie de alívio do sul-africano ganhar do seu ex-ídolo e atual adversário na casa dele - duas vezes!
Jordy e Parko, apesar da diferença de idade, passam por dois momentos bem parecidos.
Jordy representa hoje o que Parko representava quando surgiu no circuito, um camarada ridiculamente talentoso, capaz de ser campeão mundial a qualquer momento, mas algo sempre o atrapalha no meio (ou no final) do caminho.
Parko veio desta vez como em 2009, completamente focado e bem preparado fisicamente, Jordy voltou ao ataque de 2010, pronto para atacar quem ousar passar pela sua frente.
Os dois terão muito trabalho em 2012 quando encontrarem os brasileiros...




O teu cabelo não nega

A famosa tempestade brasileira que tomou de assalto o mundo do surfe em 2011 começou aqui mesmo na Goldie, apelido simpático da Gold Coast.
Foi nessas mesmas direitinhas que Mineiro fez uma das 5 melhores baterias da temporada contra Taj e tambem foi a grande oportunidade do Alejo Muniz mostrar que não veio pro tour a passeio.
O caldo engrossou e agora somos muitos e melhores.
Vejam só, Pupo ganhou de um dos favoritos, Mick Fanning, surfando com a frieza e precisão de sempre, Heitor dispensou Flores, batendo mais vertical possivel de backside e Raoni perdeu apertado para um Jordy inspirado.
Medina sofreu do mesmo mal que aflige Kolohe, excesso de expectativa.
Alejo se recupera duma contusão e Jadson esteve mesmo fora de sintonia.
Mineiro fez o estrago de sempre.
Quando estreiou no circuito em 2006, Adriano foi logo chegando até a semi-final no seu debut, perdendo apenas pra quem ? voce adivinhou se disse Taj Burrow.
E só pra apimentar a história, Taj fez aquela final contra Slater - e perdeu.
A corrida para o título de 2012 está aberta e quem quiser aposentar de vez o Careca, terá que se agasalhar muito bem, porque a tempestade brasileira veio de enxurrada e não vai a lugar nenhum tão cedo.


Voa Canarinho voa...já cantava Junior


Miami com Copacabana

Encerrada a final, Mineiro cheio de dignidade e elegância na entrevista, sem reclamar do julgamento ou espetar seus adversários, um verdadeiro exemplo pros outros 31.
Lembrei do Mestre Jackson do Pandeiro, que cantava Chiclete com Banana assim -

Eu só boto bebop no meu samba
Quando Tio Sam tocar um tamborim
Quando ele pegar
No pandeiro e no zabumba.
Quando ele aprender
Que o samba não é rumba.
Aí eu vou misturar
Miami com Copacabana.
Chiclete eu misturo com banana,
E o meu samba vai ficar assim:

Tururururururi bop-bebop-bebop
Eu quero ver a confusão




quinta-feira, maio 17, 2012

Desatino da rapaziada


[Texto inédito, escrito em Janeiro de 2012]

Ei nós, que viemos
De outras terras, de outro mar
Temos pólvora, chumbo e bala
Nós queremos é guerrear
Peixinhos do mar - Milton Nascimento
Pepe e Daniel Friedman, um passo à frente e você não esta no mesmo lugar


Somos guerreiros mas não somos de guerra. Se tem uma ideia que nunca passou pela nossa cabeça foi a de guerrear.
Essa tempestade começou com garoa fininha, gotejando ainda nos anos 70 com Pepe e Daniel Friedman arrastando os dois primeiros campeonatos internacionais aqui do Salvelindo, ainda na pre histórica era das monoquilhas,1976/77.
Ainda em 76, 18 surfistas foram convidados para competir no Pipeline Masters, penultima etapa do circuito do IPS (atual ASP), Pepe foi um dos escolhidos e chegou até a final, causando grande celeuma pela importância do evento.
Pepe terminou o ano em 18º lugar no ranking, apesar de ter competido apenas em 4 (1 no Rio e 3 no Havai) eventos e pontuando só em dois - ficou na frente do Wayne Rabbit Bartholomeu e Terry Fitzgerald, ambos com 5 eventos.
Nos anos 70, tínhamos uma revista de surfe só, a TV mostrava surfe pontualmente uma vez por ano e nossos heróis tinham nomes esquisitos como Rico, Bocão, Rato, Mudinho e Lipe.
Cauli foi provavelmente o primeiro a ter o desejo real de fazer parte do insipiente circuito mundial de surfe profissional, justo pelo fato de ser o mais feroz e dominante competidor do Brasil no final dos anos 70.
Como bem apontou Fred D’orey num dos seus textos, Cauli passou a seguir o modelo australiano de surfistas, mais modernos e competitivos, enquanto o resto da turma preferia o modelo havaiano, mais romântico, doidão e antiquado.
Atrás da seriedade e compromisso que Cauli tinha com as competições, vieram Valdir Vargas, o próprio Fred, Roberto Valerio, Ismael Miranda, Paulo Tendas e Alexandre Salazar, mais conhecido como Picuruta.
Essa geração começou a ser percebida de forma diferente das anteriores. A chuva engrossava.
Ainda não havia no Brasil um surfista que pudesse, ou quisesse, participar integralmente do circuito mundial, os custos eram caríssimos e os resultados escassos demais para garantir o proximo campeonato ou prato de comida.
Na realidade, até o início dos anos 80 era muito mais interessante sair pelo mundo atras de onda boa do que competindo.
O sujeito guardava dinheiro pra ir surfar com os amigos, fosse lá onde fosse.
Quem gostava de onda grande economizava pra passar no minimo 4 meses no Havaí, ou como Bocão fez em 73, passar logo um ano inteiro.
Melhores Brasileiros no ranking até 1988
1977 - 21º Daniel Friedman (2 eventos)
1978 - 32º Cauli Rodrigues (2 eventos)
1979 - 72º Daniel Friedman (1 evento)
1980 - 27º Ismael Miranda (2 eventos)
1981 - 23º Valdir Vargas (3 eventos)
1982 - 30º Roberto Valerio (2 eventos)
1983 - 48º Roberto Valerio (2 eventos)
1984 - 78º Fernando Bittencourt (2 eventos)
1985 - 70º Roberto Valerio (8 eventos)
1986 - 91º Renato Phebo (7 eventos)
1987 - 76º Pedro Muller (8 eventos)
1988 - 54º Fabio Gouveia (12 eventos)
Cauli enxergava mais longe e melhor que todos


Fecha o tempo
Descontando o Waimea 5000, onde  éramos capazes de aniquilar muitos dos favoritos com a condição certa e torcida a favor, foi na Africa do sul que começamos a chamar atenção. Primeiro com um quinto lugar do Roberto Valerio no Renault Pro de 1983.
Valerio bateu o grande ídolo local, Martin Potter, na casa dele, Durban.
[Potter ja começava a virar fregues, tinha perdido pro Fred em 1981 aqui no Rio e ainda nos daria o prazer imenso de perder pro Fabinho em 91 na França...]
Cauli conseguiu a proeza de varar a muro de preconceito na Australia em 1983 mas logo foi garfado quando chegou longe demais.
Depois foi a vez do Picuruta assustar em 84/85 com uma serie de bons resultados na Africa que consistiam em apenas passar pela triagem e chegar até o homem.
Mas Picuruta não apenas passava baterias.
O surfe do santista tinha algo novo e pouco comum nos desajeitados surfistas brasileiros, Picuruta tinha power, postura e drive, em outras palavras, surfava veloz, forte e elegante.
Não bastava.
Aqui no Brasil era raro a divisão de categorias entre amadores e profissionais, campeonatos nacionais eram dois ou tres e o formato confuso. 
Não havia ambiente para se formar surfistas competidores - ainda...
Em 1986 a Hang Loose realiza uma etapa do circuito mundial na Joaquina, que não desaponta e quebra classico por 3 dias.
Depois dum hiato que nos empurrou la pra segunda pagina do ranking, o mundo volta a olhar pro Brasil com curiosidade.
Tinguinha deixa todos impressionados e o tetra Mark Richards o aponta como grande promessa.
O ainda amador Sergio Noronha chega até as quartas de final e lava a alma da torcida que lota a praia.
Trazendo de volta os maiores surfistas do planeta de volta para nossas ondas, a Hang Loose inicia sem querer a maior revolução que o surfe profissional brasileiro teria na sua historia.
A simples convivência com Occy, Carrol, Gerlach, Archy e cia já fazia a rapaziada local evoluir em uma semana mais do que num ano inteiro. E essa turma queria isso mais do que qualquer coisa - evolução.
O Gato sempre foi referência dentro d'água

Evolução = conquista
Com a estruturação do surfe nacional e o primeiro circuito brasileiro profissional em 1987, as primeira participações no mundial amador em 1984 e 1986 e a categoria amadora bem estabelecida, estávamos no caminho certo.
Um programa jovem na TV aberta, semanal!, unia e compartilhava as imagens bem antes de existir a palavra website. O Realce, dos surfistas Ricardo Bocão e Antonio Ricardo trazia as ultimas noticias do surfe numa velocidade alucinante, em audio e video, tornando a TV mais uma ferramenta importantíssima no árduo caminho até o tão sonhado circuito mundial.
Nessa altura, já temos quatro revistas, alguns jornais e dezenas de fanzines (os blogues da epoca).
Renato Phebo anuncia que conseguiu um patrocínio (British Airways) para competir em todo circuito, Pedro Muller, Marcelo Boscoli, Rodolfo Lima, Eraldo Gueiros, Carlos Burle, Dada Figueiredo, Pepe Cezar, Felipe Dantas, Taiu, Cezar Baltazar e mais uma meia dúzia de gatos pingados se apresentam para fazer volume.
Já não somos mais tipos exoticos ou meros mascates frequentando a festa exclusiva dos gringos, a maioria é bem educada, fala bem inglês, vem de familias abastadas e tem a prancha lotada com patrocinios.
Falta estourar.
E em 1988, Fabio Gouveia faz exatamente isso, não apenas ganhando o primeiro título mundial amador para o Brasil, mas fazendo um verdadeiro estrago na sua estreia no Tour.
Ele e Flavio Padaratz são o grande destaque da temporada australiana do final do ano.
Fabio ganha um prestigiado Pro Junior, faz a semi final do MBF em Bondi, ganhando do Tom Carrol pelo caminho, na semana seguinte ganha a triagem do XXXX no Gold Coast, em seguida faz as quartas do BHP em Newcastle  enquanto Teco fica em segundo na triagem, perdendo para Richie Collins na final.
O tradicional jornal australiano Tracks publica um artigo chamado ‘Boys from Brazil’, escrito pelo fotografo Paul Sargeant. 
Inspirado pela conquista do Fia, um moleque de 16 anos chega até as semis do Alternativa Pro no Rio. Na frente duma multidão apaixonada, Victor Ribas enfilera a gringaiada e nos enche de orgulho e esperança no futuro.
Já em 1989, Fabio e Teco acompanhados de Amaury ‘Piu’ Pereira, competem em mais de 20 eventos no mesmo ano.

Fia tuitando - Tuíiii!


Parada numero 1
Abril de 1990, quarta parada do Tour, Tom Curren faz sua volta ao circuito e, desde as triagens, vence as tres primeiras.
Curren ainda não foi vencido por ninguem em 90 e vai enfrentar o paraibano Fabio Gouveia no Coca Cola Surf Classic em Narrabeen.
Fabinho ganha do Curren, ganha respeito e espera pela sua vez.
Julho de 1990, Teco chega até a semi final do maior evento do mundo, OP Pro em Huntington na California.
Teco ainda faria mais uma semi na França e uma final no Rio, mas seria Gouveia a trazer o titulo de volta do Brasil ao vencer o Hang Loose Pro no dia 28 de outubro.
Um surfista brasileiro não ganhava em casa (nem fora) desde 1977.
Foi um delírio completo e a deixa pra avisar: 
Querida, chegamos!
Em 1991, Fabinho ganhou o Arena Surf Masters em Biarritz e Teco arrastou finalmente o Alternativa.
No ano seguinte, Gouveia terminou em quinto do mundo- ninguem sonhava com isso cinco anos antes.
Fia, Teco e Piu levaram junto no rastro, Peterson Rosa, Renan Rocha, Vitinho, Jojo, Tinga, Hemerson Marinho, Tadeu Pereira, Tatui e mais.
A invasão foi absoluta.
Vitinho vai um pouco mais adiante e encerra 1999 em terceiro lugar no ranking.
Neco Padaratz entra no tour quebrando tudo.
Já começavamos a falar sobre um possivel título mundial...
Todos já conhecem de cor as cores do fundo da prancha do Medina


Corta! Ação!
20 anos depois dos fabulosos feitos de Fabio, Flavio e cia na ASP, um menino ainda adolescente chega ao tour na metade do ano e ganha, não um, mas dois eventos.
Gabriel Medina é da geração que viu Adriano de Souza arrombar as portas.
Viu Mineiro em 2006, no seu primeiro campeonato entre os top 44 (ainda eram 44) chegar até a semi final.
Viu Jadson fazer a mala do Slater na sua primeira final, no seu ano de estréia no WT.
A subida foi lenta, mas constante, recuamos algumas vezes para pegar embalo e subir mais.
A tempestade brasileira não é mais uma surpresa - faz parte do cotidiano.
Somos guerreiros mas não gostamos de guerra.
Gostamos é da batalha.