segunda-feira, janeiro 28, 2008

Um grande começo (ou porque surfo)

Sérgio Rodrigues tinha uma coluna imperdível no extinto saite Nominimo chamada Todo prosa, falava de literatura e adjacências.
Por sorte, mesmo com o fim do Nominimo, Sérgio consegue manter um saite com raro conteúdo, como essa sessão chamada 'Começos inesquecíveis', que em Janeiro traz Herman Melville fisgando o leitor com seu arpão.


Foto do blog do Nico.

[Me chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. Sempre que me pego ficando amargo, mandíbula tensa; sempre que em minha alma se faz um novembro chuvoso e cinzento; sempre que me vejo detendo involuntariamente o passo diante de agências funerárias e seguindo a cauda de todo cortejo fúnebre que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria leva a melhor sobre mim de tal forma que só um forte princípio moral me impede de sair à rua e, deliberadamente e com método, aplicar murros na cara dos passantes – nesses momentos, sei que está na hora de me fazer ao mar o mais depressa possível.]

Trecho inicial de Moby Dick de Herman Melville

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Curren por Pepe (e Shane Herring!)

Achei essa pérola nas dicas do 70, na mesma hora me cadastrei no canal do Silveirasilveira no youtube.
Se não me falha a memória, isso é do tempo que o Pepe trabalhava com o Bocão e Antônio no Realce/Ombak/Vibração.
A narração me dá nostalgia do tempo em que os textos eram escritos por gente que entende do riscado (e aqui abro um parêntese para Bruno Bocayuva do canal Woohoo, que sabe, como poucos, o que faz).



E ainda um raro clipe com Shane Herring, um dos surfistas mais talentosos que vi surfar.
De todos que surgiram depois de Curren, Herring era o único que tinha a postura e elegância do mestre - e ainda mais power.
Perguntei ao Sarge e Barton Lynch onde andava Herring e os dois bateram nas veias do braço mostrando o caminho de entrada da heroína.
Sarge se adiantou em dizer que volta e meia Herring ensaiava uma volta e que, tirando Occy, Shane Herring foi o talento mais bruto e selvagem que ele acompanhou.
Lembro do S.H. em 1990 na França com sua pranchinha Daniel (apesar de ser de Dee Why, terra do Simon Anderson), fazendo miséria nas triagens.
Dois anos depois ele estava competindo de igual pra igual com Slater no circuito.
Tres anos depois já era história.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Como ganhei o Título mundial e uma prancha do Slater



Alguem duvida da proverbial sorte do Alfio ?

[Cobertura exclusiva do Hang Loose Pro Imbituba WCT 2007 para Revista Surf Portugal # 179 Dez. 2007]

Eu acho que a história deveria começar assim: Sempre um camarada a dar exemplo, Slater sai d'água arrasado por Kai Otton (menos por Kai do que pela desatenção que dedicou ao WCT), sobe a rampa e olha fixo pra cima. Chegando na área reservada aos competidores, pega a 6'3'' que usou no dia anterior e a entrega nas mãos do Mick Fanning.
Fanning não se desarma e lhe dá em troca uma das sua pranchas.
Há toda uma simbologia ali, troca de guarda, ou de gentilezas, Slater quer dizer tanta coisa...
Ainda falta Taj perder para consumar-se o título mundial do Fanning.
Toda trupe da Rip Curl está apreensiva, equipe de filmagem está à postos, chefes de equipe da Reef e da Dragon preparam os auto-colantes comemorativos discretamente.
Nada mais interessa.
Todos sabem ali que é apenas uma questão de tempo para comemorar.
Slater era a ameaça real, Taj não assusta. A combinação de resultados avisa que para roubar a coroa do Macaco albino o candidato precisa vencer no havaí e até um grão de areia sabe que Slater é capaz de tudo, mas Taj...Em Pipe ? Bem, esqueça. Esse título já tem dono.
Até Slater sabe disso, por isso a prancha de presente.
Mick tambem o sabe mas é preciso respeito à matemática.
Nessa altura já estão dentro d'água Taj Burrow versus Tom Whitaker na última bateria da quarta de final, as ondas estão convidativas com paredes de 2 metros, nem tão perversas como no Chile, nem tão deformadas quanto em Teahupoo nesse atípico ano de 'dream tour'.
O sempre burocrático Whitaker, freguês de Burrow (4 x 1 incluso semi-final em Bells), trucida sem piedade Taj. Fanning vai para sua semi-final contra Parko e parece não acreditar (eles nunca parecem acreditar, não é mesmo ?) no que acontece lá fora, cada onda surfada por Whits é comemorada como um dez no Pipe Masters pela torcida e Taj enfraquece diante da pressão, caindo em ondas fáceis como um novato assustado.
Quando sai o resultado e o título é finalmente consagrado, Mick está com a lycra vestida esperando pela primeira onda da semi. A praia inteira espera algum tipo de comemoração, talvez Mick Fanning abandone a bateria e se jogue na tão antecipada celebração, por que não ?
Mas nada desconcentra Fanning em 2007, ele surfa como tem surfado desde a Europa em 2006, com seriedade, determinação, com gana de vencer.
E não pensem que ali estão dois amigos australianos comemorando a volta do caneco para OZ, não senhores. Parko e Fanning tem contas a acertar, 6 x 1 pro Joel e Mick está sempre pronto para diminuir a vantagem.
Que surfe fantástico que a praia (e todos no webcast) testemunha na Praia da Vila!
Fanning, já como campeão do mundo, faz a maior média de todo evento.
Não apenas isso, que é detalhe estatístico, o fato é que Fanning foi o surfista do campeonato. Não apenas o mais consistente ou o mais esperto competidor, desta vez sem a responsabilidade da corrida ao título, Fanning surfou o que realmente se espera cada vez que vai para água.


Slater não arredou o pé da praia até Fanning selar o título. Foi o primeiro a ir comprimentá-lo. Teremos outro exemplo como esse ?

O ciclo está completo.
E antes disso, o que aconteceu ?
Duvido que, daqui a cinco anos, algum espírito de porco será capaz de lembrar que o Mar catarinense recusou-se a dar sinal de vida por uma semana, ou que parte da estrutura do evento foi arrastada por um impensável tornado (??!!!) que revirou e torceu estacas de ferro como se fossem de papel.
O que fica, o que ninguem nunca esquece, é a bateria do Slater na primeira fase.
Quis o destino que o herói local Fabinho Carvalho surfasse justo na bateria do freak e a praia, quero dizer, a praia não, a cidade inteira veio ver o fenômeno KS8.
Amigos, jamais vi algo semelhante em 25 anos de surfe.
Já vi no Maracanã, o maior estádio do Mundo, tamanha celeuma, mas para um surfista ? Bem talvez não estejamos aqui falando de um mero surfista...
Slater tem status de super-star, coisa assim de Ronaldinho.
Alguns milhares de pessoas se acotovelavam na areia com todo tipo de camera, celulares e artefatos capazes de registrar aquele momento.
Antes do Slater descer, parou ainda em cima da rampa que levava à praia, olhou a multidão assustado, respirou fundo como quem vai tomar um caldo, balançou a cabeça consentindo, desceu - o barulho era de final de copa do mundo, com gritos e assobios orquestrados que pareciam ensaiados por meses.
E olha que nas baterias anteriores estavam Parko e Fanning, quase ofuscados diante do brilho do camarada da Flórida.
A média do Slater na primeira fase foi superada apenas pelo Fanning delirante com seu título na semi.
Posso me arriscar na tarefa de descrever duas ondas do Slater, uma delas de backside, surfando com um volume na parede sem igual, metendo o pé sem dó na sequência de manobras e mantendo a velocidade alucinante que um senhor de 35 anos é capaz de manter depois de passar os últimos 15 anos surfando melhor do que o resto do mundo.
A finalização foi tambem formidável, mas já ninguem olhava porque estavam todos de olhos fechados gritando feito índios em pé de guerra.
Numa direita que ao mortal comum parecia sem muito potencial, Slater dilacerou a modesta face da onda por duas vezes e emendou numa junção arremessando-se com tal violência ao lip que tememos pelas quilhas, pobrezinhas, cuspidas na base da onda e ao contrário somente para Slater acertar tudo com calma e compostura.
Na segunda fase nada de muito importante aconteceu exceto a vitória do Marco Polo sobre Pancho que vinha de um excelente resultado em Trestles. Polo surfou com força e autoridade para bater o havaiano no surfe.


Nada parava Fanning, nem o excesso de alcool da comemoração.

Nas 16 baterias da terceira fase quase sempre os cabeças de chave venceram, exceto por cinco vezes.
Dayan Neve devolveu a derrota que sofreu para Knox em Bakio e teve, por breves instantes, a sensação de alívio no pescoço apertado pela corda da desclassificação.
Tambem condenado à desqualificação, Cory Lopez perdeu para um entusiasmado Mick Campbell, que com tres nonos e um simples quinto já frequenta o top 16.
Cory estava abatido, talvez tenha previsto seu destino: 15 anos de circuito, oito vezes entre os top 16 da ASP, Terceiro do mundo em 2001, um dos poucos que pode ostentar um troféu ganho em Teahupoo, ejetado do WCT, Cory Lopez estava tonto, perdido.
Talvez um milagre possa salvá-lo em Pipe (como a final do ano passado), mas receio que nem isso.
Bruce Irons tambem perdeu displicentemente para Basnett. Bruce não largou Occy durante todo evento, inclusive ganhando dele numa bateria triste. Para Occy era tambem uma despedida do país que o idolatrou desde a primeira vez que pisou aqui em 1986 para o Hang Loose inaugural (ficou em segundo, perdendo pro Macaulay na final). Occy está fora do WCT. Assim como Mick Lowe e Trent Munro, que já anunciaram precoce aposentadoria.
Os brasileiros tiraram proveito do campeonato em casa, colocando 3 surfistas nas quartas, Heitor Alves, Neco e Léo Neves.
Heitor foi um franco atirador, nada tinha a perder. Neco fez uma bela campanha em casa e perdeu para um velho conhecido: Fanning. Os dois já se enfrentaram 6 vezes e o australiano empatou o jogo em 2007 ganhando duas vezes.
Léo perdeu numa bateria de notas fracas contra Kai Otton, mas deixou pelo caminho escalpos de respeito como do C.J. Hobgood e do Shaun Cansdell que surfou muito bem até bater de frente com Neves.
Rodrigo Dornelles tambem surfou com grande autoridade em Imbituba e é, até a penúltima etapa do WCT, o melhor brasileiro no circuito, empatado com Léo Neves.
Curioso é que Pedra Dornelles é quase completamente ignorado pela imprensa brasileira (estrangeira então, nem se fala) e apesar disso é o mais feliz dos surfistas brasileiros competindo hoje no circuito mundial - e isso reflete nos resultados.
Outro camarada feliz é Kai Otton.
Kai caiu duas vezes com Slater em Imbituba e quando valeu o título para seu compatriota Fanning foi devastador.
Verdade que Slater competiu como a seleção brasileira jogou contra a França na Copa do mundo de 2006, certo de que a qualquer momento mudaria o resultado a seu favor.
O gol de Henry minou a arrogância brasileira e Otton com uma série de esquerdas deixou Slater absolutamente perdido n'água.
O novato australiano teve um início de ano perto do notável, um terceiro em Teahupoo e a melhor onda surfada no Chile (nono) mas perdeu o foco e passou por uma sucessão de 17s e 33s. Enquanto isso, Jeremy vinha em franca ascendência no ranking, um 3 em Trestles e um 5 em Mundaka (Bakio), tudo indicava que a briga pelo rookie of the year estava resolvida quando chegaram ao Brasil, mas Otton tinha outros planos e com Pipe à frente, posso apostar no aussie como melhor novato.
Na final, Otton já estava satisfeito de simplesmente estar ali com Fanning.
Os dois bêbados da comemoração típica australiana fizeram uma bateria divertida para se assisitir bebendo, Occy, Bruce e Wardo estavam num estado de felicidade no mínimo estranho na área reservada aos competidores torcendo por quem quer que remasse nas ondas.


Redemption!

Tudo era festa.
Menos para Taj.
Taj estava sentado num cantinho, triste, sem um sorriso, assistindo todos seus amigos celebrarem o título do Fanning ali na sua frente. O garoto que entrou no WQS em 96 (11) e rejeitou a vaga no WCT porque ainda era muito novo, candidato ao título e esperança de trazer o caneco de volta para terra de OZ, Taj Burrow já tinha sido segundo do mundo e frequentava os top 5 quando Fanning chegou no tour.
O tempo passou e Taj realiza que suas chances diminuem a cada dia.
Bem disse Slater na coletiva que precedeu o Hang Loose que ele e Taj não fizeram os sacrifícios que Mick estava fazendo para conquistar o título.
A diferença é que Slater tem oito.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Quem se lembra do Rush Randle ?



Vi no SporTV que a turma anda mesmo sem teto nem chão.
Ali no início dos intermináveis anos 90, um exibido windsurfista havaiano dava piruetas com alças na prancha nos vídeos de surfe (Hawaii 9.0. da Gorilla Grip era um deles) e ninguem levava a sério, afinal de contas...alças ?!
Rush Randle viajava pela melhores ondas do mundo fazendo suas papagaidas, sem ajuda do jet ski e em ondas de alguma consequência, fundo de coral, pelo menos uns 4 ou 5 pés pra começar a conversa.
Zona de impacto quer saber o nome da nova manobra ?
Perguntem ao Rush Randle.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Ao Vivo


E quem aguenta esperar pra ver J. Bay como em 2005 ?

A sensação era muito esquisita, um desconforto, uma desconfiança. Estava ali na praia, onde deveria estar, no calor do momento, vento sul gelado, alto falante gritando nos meus ouvidos, seguranças e estacionamento.
Me desacostumei.
Desde 2001, Jeffrey's Bay, que não visitava um WCT in loco e perdi completamente o hábito. Agora em Imbituba comecei a me dar conta de que talvez eu prefira assistir o Dream Tour pelo computador.
Cada onda testemunhada ao vivo na praia da Vila, ficava a sensação que faltava o replay, o outro ângulo, a câmera lenta...
Entrando nos detalhes dessa estranha escolha, de preferir ver na frieza do meu computador contra a vibrante praia, na Vila, por exemplo, a distância que as ondas quebravam era enorme, e no webcast, que eu espiava de vez em quando, o internauta tinha duas ou tres opções de câmeras, mais o replay.
Eu cresci com o costume de fazer qualquer sacrifício para assistir um campeonato ao vivo (mesmo porque não havia outra opção, senão esperar pelas fotos meses depois), foi assim em Saquarema no início dos anos 80, ou a partir de 86 uma anual peregrinação ao sul do Brasil, 18 horas do Rio de carro, para os Hang Loose.
Só o camarada que estava sentado estrategicamente na praia era capaz de assistir as baterias, e o Free surf ao lado, num espetáculo que era narrado na volta como uma experência invejável de vida aos pobre-coitados que ficaram presos em casa na rotina de escola-casa.


Andy ao vivo na França 2003

Hoje, ligando o computador em casa ou no trabalho, posso assistir todas baterias que quiser, escolhendo o que bebericar e beliscando um amendoim enquanto Nuno Jonet, ou Tom Carroll, ou mesmo Slater, comentam e narram o que acontece dentro d'água no Tahiti ou Bell's.
Depois de ver Fanning judiar duma onda, emendando uma manobra na outra sem dó nem piedade com uma precisão e velocidade impressionantes, resolvi ir até a sala de imprensa e tentar assistir um pouco do webcast.
Imaginem a situação: o sujeito lá na praia, dentro dum contêiner, sentado como estivesse no escritório, computador ligado na sua frente, conectado na página da ASP, janelinha aberta com as imagens ao vivo (verdade seja dita, com um delay de alguns minutos), revendo as ondas que acabara de presenciar.
Por alguns momentos tive vontade de voltar para o hotel e acompanhar tudo dali.
Logicamente não teria a companhia do Fabio Gouveia ou do Léo Neves para contar histórias do circuito, mas Nuno e Holly Beck não me deixariam na mão.


Ouvir o discurso no calor do momento não se compara ao editado e embrulhado para imprensa

A verdade é que para camaradas mais velhos e preguiçosos como eu ou para a molecada ansiosa por fazer 200 coisas ao mesmo tempo, é imbatível estar sentado em frente ao computador ouvindo sua musiquinha preferida, atualizando-se das notícias e respondendo imeios.
Habituei-me a ficar aqui, escolhendo quem ouvir e quando ouvir.
Corro o risco de ir contra tudo que prego e acredito, num típico exemplo de 'faça o que digo, mas não faça o que faço'.
A comodidade só é mesmo esquecida quando voce vence a preguiça, acorda antes do nascer do sol e vai para água surfar ao lado dos outros camaradas que deixaram as tentações da noite passada de lado e estão lá na primeira hora de luz do dia: Fanning, Slater, Taj e Parko.
Só então voce percebe que ficar em casa pode até ser melhor para acompanhar as baterias, mas o que acontece em volta, aquilo que a câmera não olha porque não está ligada, o antes e o depois, o durante ao lado, tão pertinho do seu campo de visão e atuação.
Em casa se voce se empolgar muito com uma bateria, o máximo que pode acontecer é ir correndo pr'água surfar na companhia de alguns amigos, o que não é mal, mas num WCT, voce pode ir surfar e dar de cara com Taylor Knox ou Bruce Irons esquentando para uma disputa próxima.
Eu costumava acreditar que nada superava essa experiência de estar ali. Não existia melhor maneira de evoluir do que surfar ao lado do surfista que admiramos todo resto do ano pela grande rede, pelas fotos, pelos vídeos.
Achava inclusive que se voce quisesse de verdade ser bom nisso (pegar onda), tinha que passar obrigatoriamente pela órbita de um grande campeonato - para se provar.
Afinal, se voce deseja mesmo competir num nível acima, deve aguentar a pressão de ser observado numa arena onde a atenção pode subitamente voltar-se para voce.
Lembro como se fosse hoje quando no Sundek de 1988, todos surfistas se preparavam para o campeonato que iria começar no dia seguinte, vem uma série espetacular em Itamambuca, lá no canto direito. Sabia que nenhuma sobraria pra mim, fiquei admirado olhando as ondas dos feras da época, Tinguinha, Barton Lynch, Richie Collins, o garoto Teco e eis que de repente sobra uma das ondas, limpa, sem ninguem remando...
Enchi o peito de coragem e no meio daquela multidão de celebridades eu tinha uma chance de mostrar o que sabia, Ricardo Bocão, diretor do programa de TV Realce e tambem competidor vinha remando de volta e deu seu grito de incentivo: uhu!
Fiz pose para cavar, apontei a prancha pra cima e fui.
Deu tudo errado, caí de maduro, frustrado.
Perdi minha oportunidade.


KS>Fiji>05>aspworldtour.com/live

O que restava fazer ? voltar e tentar novamente, ora bolas, mas o raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
Fosse hoje em dia, me pergunto e tambem te pergunto, leitor, se aquele mesmo garoto esforçado ficaria em casa vendo o WCT pela telinha do seu computador, esperando pelo replay, enviando mensagens de apoio e outras menos nobres aos locutores do webcast ?
Mal posso esperar pelo Pipe Masters, com tres ângulos diferentes, com sorte teremos de novo Shaun Thomsom tecendo seus atentos comentários e espetando os garotos mal acostumados que o surfe produz com tanta destreza.
Acho que estou, aos 40 anos, me tornando um deles.
Posso estar rejuvenescendo ou eles envelhecendo rápido demais.
Ainda não sei se isso é bom ou ruim.

Deu cria


Goiabada deu cria e agora tem filial no novo saite da Hang Loose.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Liquid Time (revisitado)




>Surf Portugal, Setembro de 2006]<

Esqueçam o melhor filme.
O que vi não era melhor nem pior que nada: era diferente.
Mágico…

Eu estava em boa companhia.
George Greenough chamou de fascinante.
Jack McCoy parecia puto da vida: Pôrra, cara, voce fez uma coisa linda!
Alby Falzon, do clássico Morning of the earth, declarou que nunca tinha visto imagens tão maravilhosas.

Liquid Time, filme de 2002 dos irmãos Webber, Greg e Monty, é uma obra de arte e, voces bem sabem, obras de arte não se medem.
São apenas 20 minutos, um tempo que parece perfeito para contemplação.
É um filme de surfe, mas tambem não é, mas é um filme de ondas e onda é surfe dentro da nossa cabeça.
Fiquei tão perturbado com as imagens que demorei mais de dois anos para escrever sobre elas.
Monty Webber diz que a idéia foi do seu irmão Greg, que certa vez o perguntou: quer filmar as micro ondas mais fantásticas que voce já viu ?
Enlouqueceu…pensou Monty.
Entretanto Greg estava certo, aquelas formas continham uma simetria nunca antes vista, faltava olhar (e filmar) com um pé na realidade e outros 25 na fantasia.
A experiência consiste em acomodar-se em frente a TV e deixar levar pelos mais bizarros e maravilhosos 20 minutos da sua vida de surfista.
Com a trilha deliciosa do DJ inglês Tim Lee, tecladista daquela bandinha grudenta dos anos 80, Katrina and the Waves, somos transportados para o mundo que é um misto de Gulliver, Timothy Leary, Greenough, Tom Carroll e Kelly Slater.
Gulliver porque as ondas que aparecem no filme são minúsculas e voce é incapaz de olhar para aquilo sem se imaginar na situação de um surfista miniatura, sozinho naquele mundo improvável de tubos com mais de um minuto.
Leary, o velho chapa que foi responsável pela divulgação e expansão das cucas com aquela famosa droga extinta e pouco recomendável conhecida como L.S.D.
Por que Leary ?
Tenho a nítida impressão que tudo fugindo da nossa faculdade de compreender e que mexe com sonhos e delírios é associado ao Timothy Leary.
Greenough filmou pela primeira vez as ondas como objeto de contemplação, como se o surfista fosse absolutamente desnecessário.
Carroll e Slater são o nosso ideal de surfista quando nos vemos incapazes de passar por uma situação pesada ou arriscada demais para sobrevivermos – mas o leitor pode substituir pelos irmãos Irons, Hobgoods, Parko, Fanning ou Ruben.
Se o surfe, como gostam tanto de escrever por aí, é fantasia e liberdade, Liquid Time é mais surfe do que qualquer outro antes dele.
São apenas ondas.
Sim, eu já disse, pequeninas, ridículas ondas dessas criadas pelos barcos na margem, solitárias, aguardando pelo nosso sonho.
Até hoje, ou pelo menos até 2002 quando o filme foi feito, um filme de surfe tinha ondas e surfistas.
Ou seja, nós somos induzidos a pensar as ondas com a cabeça dos surfistas que lá estão, interpretando aquilo como se fossem suas – e são, pois não ?
Dessa vez não.
A coisa é pura.
Cabe ao espectador criar a própria fantasia, seu universo particular, onde os limites são apenas os da imaginação (daí o Leary e o LSD), ninguem interfere no que voce vê.
Afirmei que o surfe é liberdade e nada é mais livre do que o olhar.
Os irmãos Webber conceberam uma nova maneira de olhar para as ondas, inverteram o processo do camarada que filma e o que assiste, em Liquid Time os dois se (con)fundem.
Enquanto filma, Monty deixa-se levar por toda história dos filmes de surfe, todos surfistas, todas pranchas e nós, admirando e delirando, experimentamos cada surfista, cada single fin, bonzer, fish…Durante os 20 minutos somos Gerry Lopez, Irons, Ward, Saca, Dora, MP, Shaun, Mineirinho, Occy, Curren, todos e somos o surfista que sempre sonhamos ser