domingo, janeiro 28, 2007

MOTE (clica aqui e compra o filme)

[Escrito no dia 3 de Maio de 2002, encomenda da Surf Portugal pela ocasião do lançamento da edição comemorativa de 25 anos do 'Morning of the Earth'em DVD]



MP de peito aberto

Enquanto os americanos realizavam aqueles filmes caretas, com narrativas didáticas, uma verdadeira profilaxia de informações, David Nuhiva caminhando na prancha, cultura de praia enlatada para Hollywood, nessa mesma época, final dos anos 60, a Austrália afundava-se na contra cultura, no L.S.D. e pranchas com 2 pés menores.
A primeira manifestação veio com 'Evolution'(1969), de Paul Witzig, que chocava a audiência com o primeiro ataque de backside registrado em filme, Wayne Lynch com apenas 15 anos!, Março de 69, na costa oeste de Victoria.
Em seguida, George Greenough, um milionário excêntrico de Santa-Barbara, muda-se para 'Down-under' e investe seu tempo e dinheiro criando uma obra-prima: “Innermost Limits of pure fun”(1970), muito provavelmente o mais importante filme de surfe de sempre.
Nat Young relata em seu livro, 'Nat’s Nat and that’s that'(Nymboida press, 1988), 'Foi nessa época (1971) que me fascinei pelo cogumelo Psylocida cubensis, conhecido como ‘Gold Top’. Havia uma regra no nosso pequeno grupo, se achássemos um no caminho para a praia tínhamos que come-los. A experiência com esses cogumelos foi semelhante às de Bunker Spreckles no Hawaii com o Peiote. Eu me sentia como um herói, um guerreiro, era capaz de tudo…'
Esse tempo descrito pelo 'Animal' Nat Young, é fabulosamente documentado no filme 'Morning of the earth'(1972) de 'Albie Falzon.
É exatamente sobre esse filme incrível que vou estrear essa nova coluna onde a Surf Portugal vai contar histórias de diretores, surfistas, vídeos, cameras, filmes, músicas e ondas que compôem a arte dos filmes de surfe.


Nat goiabando

Freiras e cogumelos

Albie Falzon trabalhava numa editora, fazia o desenho gráfico das páginas de uma publicação para Igreja Católica e um belo dia saindo para almoçar, conversava com duas freiras, que lhe perguntaram: qual o seu sonho ? o que voce deseja fazer da sua vida ?
Albie, perpelexo, olhou pros lados, pensou, pensou, olhou pra cima e respondeu na buxa: - Gostaria de fazer um filme maravilhoso e positivo sobre o mundo…
E elas disseram, ‘voce vai realizar seu sonho, meu filho’, foi então quando ele começou a filmar 'Morning of the earth'.
Desde que os primeiros filmes de Bud Browne chegaram na Austrália em 1957 (Surfmovies, Albie Thoms, Shore thing, 1999, AU), Albie Falzon sabia que queria filmar e editar uma daquelas jóias. Já colaborava como fotógrafo para Bob Evans, editor da ‘Surfing world’ e pioneiro na exibição e confecção dos filmes de surfe na Australia.
Associou-se a outros surfistas, David Elfick e John Witzig, e criaram a primeira publicação ‘up-to-date’ australiana, o jornal 'Tracks'.
O Tracks tinha uma linha editorial voltada para ecologia, debates sobre drogas, nudismo e tudo que viesse da cultura ‘hippie’, que fundia-se com o estilo de vida dos surfistas.
Comprou uma Boileau 16mm e começou a filmar os amigos, logo estava viajando para filmar o campeonato nacional em Bells, mas decepcionou-se com as imagens e resolveu que competição, definitivamente, não era seu filão.
A sequencia inicial de 'Morning of the earth' foi filmada numa cratera de vulcão no Kauai com filme infra-vermelho e editada com imagens que Falzon costurava na intenção de criar a ilusão de que o espectador estava testemunhando a própria criação do mundo.
' O filme comça mesmo quando Nat Young dropa duas esquerdas em Whale Beach.' Conta Falzon.
A costa norte de New South Wales era completamente dasabitada e tinha ondas incríveis, como Angourie, Broken heads e centenas de ‘points’ para direita. A vida simples na fazenda, criando galinhas, colhendo cogumelos, fumando ganja, morando em casas de árvore, como Chris Brock, e principalmente surfando ondas perfeitas e desertas.
Nat Young e amigos são retratados no filme como uma comunidade alternativa, sem as preocupações de uma vida atribulada com as guerras, do Vietnã e Coréia, sem as crises na política Européia e sul-americana, completamente alheios ao movimento circular do mundo, detidos apenas nos movimentos das marés.

Michael Peterson

Michael Peterson mostra ao resto dos surfistas espalhados pelo mundo que o trilho de Kirra acelera a velocidades absurdas, seu cut-back de frações de segundos ficou eternizado como o momento mais influente do surfe moderno.
Curren atingiu a maturidade quando conseguiu aprimorar os movimentos de MP. Slater ainda procura o seu…


Ulu anos antes das hordas de lutadores

Descoberta

Continuando sua obsessão pelo inusitado, Falzon, queria fugir do tradicional Hawaii/OZ. Precisava de algo mais…transcedental. Se oriente, rapaz.
Numa das sequências mais memoráveis do filme, Albie Falzon leva o grommet Steve Cooney, 15 anos, e Rusty Miller, outro americano apaixonado pela Austrália, para a ilha de Bali. Este é o primeiro documento das ondas balinesas, idéia de um dos seus sócios, David Elfick, agora produtor associado de empreitada.
As imagens de Uluatu, com Cooney e Rusty caminhando no reef, ondas no fundo, camêra lenta, é o momento sublime do filme.
Só pelo fato de revelarem as ondas quilométricas ondas balinesas, 'Morning of the earth' já nascia clássico.
Mas tinha mais…

Fitz, Lopez e Barry

Quando voltou de Bali, Falzon conseguiu ainda um finaciamento de 20.000 Dólares para terminar seu filme e devolveu 200.000 ao Australian Film Development Corporation com faturamento de público.


Fitz no trilho

Terry Fitzgerald tinha o jogo de corpo mais elegante da nova geração, poses de um ginasta e uma ridícula projeção nas curvas- nem tanto quanto Barry Kanaiapuni, o havaiano que dominou Sunset como Lopez fez em Pipe.
A última parte do filme é dedicada ao Hawaii e traz um jovem Lopez tomando a coroa de Butch Van Artsdalen como novo e inquestinável Pipeline Master, ainda em 71.
Barry Kanaiapuni eleva a arte de surfar Sunset à alta Performance, desfazendo o que seus ancestrais criaram como mero divertimento e devoção religiosa, tornando-o um verdadeiro ataque às paredes poderosíssimas que desbavam sobre sua cabeça.
Fitz foi o primeiro, são tantos os primeiros nesse filme…, campeão profissional mundial, se houvesse circuito em 75. Em Morning…. Ele surfa Rocky point com um backside inovador e altamente estiloso, isso sem mencionar Sunset.

A trilha sonora foi feita sob encomenda, depois do filme editado, e lançada pela Warner australiana e foi o primeiro filme australiano a receber o disco de ouro. Como o filme não tem narrativa, as canções contam a história e retratam tão bem essa época que até hoje voce pode achar o CD nas lojas certas.
“O filme definitivamente capturou os hábitos daquele tempo e sem qulaquer tipo de comentário ou diálogo. É uma percepção. Tem mais sentimento no filme do que em qualquer representação acurada.” Diz Steve Cooney.

Foi lançado em 97 uma edição especial comemorativa dos 25 anos de Morning of the earth pela distribuidora inglesa Chilli Video – hoje responsável pela produção dos programas do WCT/ASP.

Albie Falzon continua trabalhando com surfe, dirigiu Metaphysical para a Quiksiver em 97, entre outras coisas, por exemplo, outra obra-prima, “Can’t step twice on the same piece of water”, uma brincadeira com “Gato em teto de zinco quente”

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Thread

Ainda nos filmes de surfe, por que não visitar a página do fotógrafo californiano de Santa Cruz Patrick Trefz e prestigiar seu novo filme,
Thread ?

Clica aqui embaixo e assista o trailer





Ou assistir um clipe espetacular da mais influente banda alemã de sempre, o Can, tambem filmado e editado pelo camarada acima.
Supimpa, né ?

Indo.doc




Foi uma grata surpresa.
Diria o Barão de Itararé com uma das suas geniais tiradas, 'de onde menos se espera é que não sai nada mesmo'- pois dessa vez saiu.
Aqui, nesse baluarte da ostentação bobalizada que é a Zona Sul carioca, há uma simpática marquinha que faz roupas bem humoradas para surfistas, chama-se Lanho.
Minha convicção dá fé (ou como eles dizem, 'bota fé') ao fato desse movimento ter colocado o Leblon de volta no mapa do surfe, de e de .
Graças aos campeonatinhos da Lanho, o surfe renasceu no Leblon e Ipanema, depois de quase uma década agonizando num mata-leão de águas poluídas, febre de ju-jitsu, altinha e maromba.
Hoje, agora mesmo, o cidadão pode ir ali no calçadão da Delfim Moreira e constatar: olha o surfista!
Por algum tempo, só quando dava onda no Pontão, mais de metro.
Mas, por Tutatis!, o que foi a grata surpresa ?
Tive o prazer de assistir ao documentário Indo.doc.
Resumindo, uma turma (não confundir com Uma Thurman) de amigos viaja pra Indonésia em seguida aos desastres que a devastaram e, curiosos e solidários, visitam algumas das regiões mais afetadas pelos Tsunamis.
O argumento do vídeo é muito inteligente e bem bolado, a edição é discreta (coisa rara nesse tempo de pirotecnias masturbatórias) e a direção tem o mérito de não se deixar pela amizade com os personagens e deixa o surfe em segundo plano, valorizando a aventura e a intenção de documentar a vida depois da tragédia.
No final do filme, um depoimento corajoso (da parte dos dois diretores André Pires e Leondre Campos) e emocionado de uma senhora local, pregando a volta da peregrinação dos surfistas pr'aquela ilhazinha perdida entre sonhos e tragédias, Asu, frontalmente contra a estupidez de muitos ao condenar os miseráveis que lá vivem ao esquecimento em troca de algumas ondas secretas.
Em nenhum momento Indo.doc cai na perigosa armadilha de exagerar na tradicional prática do surfe nacional de auto-promoção.
O bom senso prevalece, o surfe tempera e dá água na boca mas nunca serve para exibicionismo, qualidade rara nesses dias de youtube, blogue e Myspace, ferramentas públicas de frivolidades.
Querem saber ? Gostei pacas.
O documentário é leve, assisti com a patroa, esparramado no sofá, depois da empulhação que foi o programa 'Jogos para sempre' do Flamengo X Vasco na final do Carioca de 3/12/1978, que teve o descaramento de copiar o sensacional curta da Raça Filmes, 'O Deus da Raça', Ipsis literis- até nos créditos- santa cara de pau, Batman.
Uma sugestão aos camaradas, já que a Lanho prega a arte livre e gratuita, é transformar o Indo.doc num arquivo Torrent e disponibilizar para o mundo inteiro o DVD completo, com legendas.
Indo.doc merece atenção.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Webcast



The incestuous nature of the surf industry is the root of 99% of the ASP announcers’ problems. They are too ‘bro brah.’ Announcers and analysts are either afraid, or not incentivized enough to be critical. This is understandable. These folks want to keep their marketing jobs and their friends, you know… so that they can, uh, …market. But hobnobbing and kissing ass makes for placid broadcasts. There is no edginess. No hook outside the forces of competition. Johnny Miller is hook. John McEnroe is hook.
Scott Bass dá mais uma dentro.

O Maior competidor de todos tempos

[Última Tempestade em Copo d'água de 2006 - Surf Portugal]



Não é a toa que o malandro teve problemas sérios nas costas.


A lógica nunca prevaleceu em esporte algum.
Quando chegou no Havaí para encerrar a temporada de 79, Mark Richards estava quase mil pontos atrás do primeiro colocado no ranking da I.P.S. (International Profesional Surfing, orgão pré-A.S.P.), Wayne Rabbit Bartholomew, atual campeão mundial de 1978 e favorito à repetir o feito.


Nosso presidente botava pra baixo.


Na cola do ‘Muhamad Bugs’ (como Rabbit gostava de se apresentar, em homenagem ao seu ídolo, Cassius Clay) estavam Cheyne Horan e Dane Kealoha.
Cheyne era a grande estrela em ascensão da Austrália, um verdadeiro furacão que chegou varrendo adversários. Sua primeira grande vitória foi em 1978 no Rio de Janeiro com apenas 17 anos e ainda naquele ano terminou em segundo lugar, o princípio duma série sem precendentes de vices na história do surfe profissional (78/79/81/82) e só interrompida quando finalmente conseguiu quebrar a maldição no mundial de masters realizado na França em 1999.


17 anos e já era segundo do mundo


Cheyne era um demônio da velocidade, foi campeão nacional de skate e surfe na categoria junior em 1976, dali foi direto para o recem criado circuito mundial de surfe profissional e mais tarde convidado para participar da equipe Bronzed Aussies, pioneira e revolucionária equipe de surfe criada pelo jornalista Mike Hurst, inspirada nas grandes equipes de tênis.
Voltamos a falar disso um pouco mais na frente.


Dane era pura força e categoria.


Dane Kealoha era o Sunny Garcia da época, ainda mais power e versátil, um surfista exuberante que parecia fadado a dar o primeiro título mundial para o berço do surfe.
Durante o final da temporada de 1979 ninguem surfou mais do que o havaiano no North Shore.
Dane tinha a legítima linhagem havaiana na linha do seu surfe, Bertleman, Eddie, Ho, Hackman, mas com uma modernidade ainda não vista em praia alguma do mundo.
Suas batidas de backside desafiavam a física, tamanha verticalidade e violência, Dane venceu seu primeiro evento em 79, Gunston 500, interrompendo o reinado de 6 anos do Sul-africano Shaun Tomsom em casa e em seguida repetiu em Nova Jérsei.


Porrasurfe era assim em 79.


Rabbit tambem tinha duas vitórias no ano, Japão e Flórida.
O circuito inteiro tinha 13 etapas, parecido com o WCT de hoje em dia, Perna Australiana, Japão, África, Flórida (?!) e Havaí, tudo contava e cada bateria passada valia ponto pro ranking.
Mark Richards começou o ano irresistível: demoliu Burleigh e Bells (extamente como Slater em 2006) nas duas primeiras paradas da temporada.
E não pensem que MR era uma novidade.
Já no primeiro ano do circuito, 1976, Richards terminou com um honroso terceiro
, 77 em quinto e 78 em…décimo!
Conhecido pelo jeito inovador que encaixava sua biquilha manobra após manobra, MR antecipou o que conhecemos hoje como base e top, ou bottom e lip.
Curiosamente, Mark Richards optou por surfar exclusivamente de monoquilha durante o inverno havaiano de 1979 – uma estratégia no mínimo arriscada.
Risco era tudo então.


P.T. muita pose, menos surfe e, olha lá!, marketing pessoal.


Jogo Duplo

Richards precisava de um milagre, ou um par deles.
Como bater Dane e Rabbit em Pipe ? Especialmente Dane, uma temeridade no Backdoor.
Todos aguardavam o Pipe Masters ansiosamente, ranking nas mãos, fazendo contas e especulando resultados.
Rabbit vinha de vitória e liderava com alguma folga, tinha autoridade em Pipe e precisava apenas de um resultado razoável, mais do que provável, num dois ventos restantes, Pipe e Sunset.
O mundo do surfe exprimentava súbita exposição com o circuito mundial e a gigantesca rede americana de TV, ABC, levou uma equipe inteira de profissionais para fazer a cobertura de Pipe, anunciado como o campeonato mais espetacular de todos tempos.
Várias câmeras registravam tudo na praia, comentaristas ao vivo em rede nacional, jornalistas atentos, um grande circo armado nas areias de Pipe.
Como a ondulação tardava a chegar e condições medíocres imperavam durante o período de espera (soa familiar ?), Fred Hemmings começou a se deseperar quando soube que o prazo da ABC para fazer a cobertura era até o dia 11 de Dezembro, uma terça feira e até domingo nada de ondas perfeitas.
E ainda tinha o Duke Kahanamoku Hawaiian Surf Classic, tradicional evento que não contava pontos pro ranking mundial mas valia uma fortuna em prestígio para uma carreira bem sucedida.
A solução foi fazer os dois campeonatos no mesmo dia, numa segunda feira.
Os competidores saíam da água em Sunset, apenas tres baterias, já que o campeonato era exclusivo para convidados, entravam no carro e corriam para Pipeline, criando um trânsito sem precendentes na outrora pacata Kam Hwy.
Mark Richards venceu o Duke, com Shaun em segundo, Horan em terceiro e Rabbit em quarto.
De volta à Pipe, Dane liderava a final com Shaun e MR distantes da vitória.
Como ? Shaun e Mark Richards fizeram final nos dois eventos ? quase na mesma hora ?
No mesmíssimo dia ?
Sim senhores, fizeram, Shaun em terceiro e Richards em quarto.
Nos últimos minutos, a zebra australiana Larry Blair encontra um tubo espetacular e vira a bateria em cima de Dane, que com esse resultado aproxima-se da liderança do Rabbit por míseros 9 pontos, seguido de perto por Horan e Richards.


Cade meu título, pô ?!



Treino é treino…

Mike Tomsom, primo do Shaun e top 16, chega na praia e não acredita no que ve: Rabbit treinando.
Em nenhuma outra etapa Rabbit foi visto surfando antes de um campeonato, era parte da estratégia dele, deixar todos em dúvida sobre que prancha ele iria usar, como estaria surfando, etc… – tática aprendida com seu mestre, Michael Peterson.
Dane tambem estava na água e nenhum ser humano era capaz de imaginar que aquele camarada sairia da praia naquele dia sem o título.
Dane precisava passar uma bateria.
Umazinha.
Bartholomew estava na mesma situação.
Cheyne, ligeiramente mais distante, carecia duma semi.
A corrida era entre os tres, todos presumiam.
Afinal de contas, muitas contas, para Mark Richards só interessava a vitória.
O World Cup foi num Haleiwa com 6’ a 8’ e toda comunidade havaiana foi olhar seu filho favorito sagrar-se campeão.
Rabbit foi o primeiro a cair.
Aparentando nervosismo, Rabbit perdeu sua prancha e deixou o texano Ken Bradshaw dominar a disputa.
‘É desconcertante pensar que o surfista passa o ano inteiro viajando pelo circuito, liderando o ranking, quando no instante derradeiro sua cordinha arrebenta e ele termina em terceiro ao invés de primeiro’ pondera Mike Tomsom na Surfing.
Tudo agora conspirava para uma vitória de Kealoha.
Tudo, menos um porto-riquenho: Edwin Santos.
Kealoha esperou as ondas com a tranquilidade dos grandes campeões, esperou, esperou e esperou…
Enquanto isso, Santos, Edwin Santos, fazia seu papel de coadjuvante, surfando uma onda aqui, outra ali.
E Dane esperando…
Faltando cinco minutos para soar a corneta (era corneta ?) e Dane tinha surfado apenas uma onda.


Rabbit por pouco não levou dois seguidos.

Um a um

Com Dane e Rabbit fora da jogada, a pendenga estava entre Cheyne e MR, a maior rivalidade da história do nosso esporte até Andy versus Kelly.
Quando Cheyne entrou n’água para enfrentar Bruce Raymond todos esperavam mais um desastre como dos candidatos ao título, Dane e Rabbit, mas Cheyne demoliu Raymond e tudo indicava que uma semi-final contra PT seria barbada.
O problema era que PT, exímio competidor, tinha outros planos.
Voltemos um pouco aos Bronzed Aussies.
PT era o mestre e Cheyne seu pupilo.
‘Acabei com ele’ disse PT, ‘e em seguida, tudo que eu precisava fazer era ganhar do MR, mas perdi. Acho que o Cheyne nunca me perdoou por isso’
Curioso é que, Horan teve problemas com os Bronzed Aussies poucos meses antes e se desligou da equipe, isso mudou o curso da história do surfe profissional.
Fizesse parte da equipe, PT provavelmente deixaria Horan vencer e só Deus sabe que rumo o surfe tomaria.
Richards abateu Peter Towned com facilidade e ganhou o primeiro dos seus quatro títulos seguidos.
Seu domínio só foi quebrado por Slater.
Mark Richards ainda teve o bom senso de largar o circuito logo após seus quarto título em 1982, quando percebia a chegada incomoda de um goofy que estava naquela final de 79 em Pipe, Tom Carroll, o próximo surfista que iria mudar completamente a face do surfe profissional e alterar nosso jeito de atacar a onda de backside.
Mesmo ‘aposentado’ Richards ainda voltaria a frequentar os pódios quando, em 1985, subjugou toda uma nova geração vencendo em Sunset, e tornando a ganhar em 1986, ano do famosa série que fechou a baía de Waimea.
Quando fotografado para a capa da Surfing em 79, um modesto Richards perguntou ao famoso fotógrafo, Norman Seef (mesmo que fazia fotos para capas dos discos do Fleetwood Mac, Rolling Stones e Santana), enquanto tomava um café entre as sessões no estúdio na movimentada Sunset Boulevard: ‘Esse aqui é o banheiro que a Stevie Nicks usou ?’


Anotou a placa ?

sábado, janeiro 06, 2007

Ray

[Texto para Surf Portugal, escrito em 18 de Novembro de 2004. Pouca coisa mudou, não ?
Os links do texto levam pro youtube.
Será que já tinha publicado isso aqui no Blogue ?]


Sugar X Lamota

Curren nos surpreendeu quando falou com reverência do boxe numa de suas raras entrevistas.
‘A nobre arte’.
Numa linha era o sangrento esporte de brutamontes, logo ao lado Curren recomendava João Gilberto ao Vivo em Montreux.
Nossa cabeça, ávida por novas influências, assimilava tudo com velocidade espantosa e questionava tudo que até aquela entrevista- ou perfil, já nem lembro- era claro e evidente como Vetea num tubo no Tahiti.
14 de Fevereiro de 1951, Chicago Stadium, dia que ficou para história como o ‘The St Valentine’s day massacre’.
Sugar Ray Robinson reinava com uma técnica e estilo inigualáveis (entra Muhamad Ali e Sugar Ray Leonard, como herdeiros), reescrevia página por página dos livros de boxe, luta a luta.
Seu arqui-rival, Jake LaMotta, imortalizado no cinema por um De Niro insuperável e irrestível, no filme ‘Raging Bull’ (que rendeu um Oscar para De Niro), surrava sem pena Ray.


40 e subindo

Segundo relatos da luta, ‘o rosto de Sugar Ray era uma massa disforme de sangue e carne’ quando no décimo primeiro assalto, numa das maiores reações da história de todos os esportes, Robinson ataca enfurecidamente La Motta e o encurrala nas cordas com uma série de golpes precisos e fatais pelos dois próximos rounds obrigando o árbrito da luta a interrompê-la dando o título mundial dos médios para Robinson.
Delírio, frustração, superação.
Todos queriam ser Sugar Ray.
Todos queriam ser Curren.
Toda selvageria do impetuoso Occy, apelidado de Raging Bull pela imprensa pela força, impondo manobras às ondas ao contrário de encaixá-las como fazia Curren, toda raça e rebeldia de Occy não era páreo para a consistência de Curren – duas vezes campeão mundial.


Slater Esteve aqui

Março de 2005, Gold Coast, o ‘super banco de areia’ e a primeira etapa do WCT, 45 felizardos sonham com a largada na frente.
Andy sabe que não faz tanta diferença assim: nos últimos tres anos seu reinado foi pouco ameaçado, tem criatividade e competitividade, ninguem pode acusá-lo de burocrata. Andy entendeu as regras.
Antes de se tornar o melhor competidor, Andy era especulado como melhor dos Free- surfers,’Quando Andy vai aprender a competir e vencer um campeonato ?’ perguntavam as vozes mais ouvidas da nossa imprensa.
Não tiveram muito tempo para pensar na resposta.


Mais duas finais com esses caras e teremos uma baixa entre os espectadores

Parko espera pela sua hora.
Uma vitória em casa pode lhe render bela vantagem no iníco da corrida ao título tão sonhado.
Já venceu Kirra e Bell’s em outros anos.
Fanning…
Um senhor que poderia ser grisalho, não optasse pela careca reluzente, observa tudo com familiaridade.
Slater estuda a situação e decide que não lhe resta muito tempo.
Recorda-se de como, sem querer, assassinou uma geração brilhante de surfistas, Machado, Dorian, Willians, Kalani, Knox…com um discurso morno sobre diversão e amizade.
Todos reverenciavam Slater- ele sempre devolvia com candura, mas desafiado foi sempre implacável.
A memória traz bateria em Pipe Masters, high fives.
Sente ponta de inveja do tri-campeão e seus desafetos.


Australia no te parece

Andy devolveu o espírito de guerra ao circuito mundial, tão moderado e insosso, com títulos quase honorários, como os de Occy e Sunny – bem merecidos, importante ressaltar, mas tardios.
Tivesse insitido um pouquinho mais, Elkerton levava o seu por serviços prestados.
Com Irons acabou essa história.
Andy quer mais e não vai parar enquanto não aparecer alguem com apetite à altura.
A ASP parece feliz com seu novo Rei, mas algo deve mudar para apimentar o formato de competição por demais previsível do WCT.
Maior dinâmica no ranking durante o ano, integrado com WQS, seria uma boa saída, quem sabe ?
Dessa forma, um jovem talentoso poderia ascender ao WCT e repetir a façanha de Wood no Bell’s de 1987 (com 17 anos!), ou um surfista mediano do ‘CT descer para o ‘QS em plena temporada.


É hora do Mick, Não ?

terça-feira, janeiro 02, 2007

Tentação



O conforto da aposentadoria

'É tentador sim, mas tambem é atrativo, quando voce vai bem, continuar na briga.
Se eu tivesse voltado e não ganhasse o título poderia ter sido uma coisa frustrante olhando o que eu tinha conquistado, mas faz parte tambem tentar tudo possível para conquistar tudo que voce pode ter.'
Tradução livre do que Slater disse em Outubro, antes da escovada em Pipe.
Repeti o 'tudo', exatamente como ele fez - everything.
O que move essas camaradas ?