quarta-feira, maio 31, 2006

Fiji embrulhado


Quem vai atirar primeiro ?

Tenho a impressão que o Andy se acha tão superior do que os outros, e isto não deve passar duma impressão, que contra Damien H. na semi final ele não ligou em ser escovado.
O problema é sério.
Andy dá o sangue apenas contra Slater, que considera adversário a altura, eventualmente se coça contra Eugene, Joel, ou Cigêi (que é campeão mundial), mais do que isso, não faz.
Assisti a bateria torcendo pelo regular, como um velho torcedor de arquibancada.
A cada instante esperava a reação do tri-mundial, afinal ali estava um tri-mundial, pombas.
Andy parecia desinteressado com a contenda e ficou essa sensação de desprezo pelo adversário.
Tudo apontava para uma final em família: a família Globe.
Mas o matuto australiano não tem o espírito corporativista que acometeu Irons senior e tratou de colocar água na Fosters dos Robigúdis.
Cansdell é um goofy de pés muito bem plantados na prancha, firme como uma quilha de encaixe. Trabalha em silêncio, tem uma semi-final em Pipe no WQS mais difícil para um estrangeiro conseguir boa colocação - da mesma forma que Dingo fez, anos antes.
Venceu em Lacanau um seis estrelas batendo na final Timmy Reyes (em ascensão, 33,17, 9 e 5), outro que foi um monstro em Fiji e enterrou até os bagos no Irons junior.
Quando digo matuto, quero dizer natural duma cidadezinha Mullaway, onde nada acontece e donde ele já se pirulitou quando classificou-se para o 'CT.
É o segundo estreante a fazer uma final nesse 2006, um ano mais novo do que Bobby 'El Chicano', 4 mais velho do que nosso Mineiro.
Com um quinto em Bells e esse vice, Shaun vai para oitava posição no ranking, Bobby continua em segundo, reafirmando sua condição de candidato ao título com um respeitoso quinto em Fiji.
Martinez surfou a melhor onda do evento, mostrando ao resto do mundo que esse ano não há sorte- nem boa, nem má - há sim, vontade.
A grande surpresa pra mim foi mesmo ver Andy jogar fora sua oportunidade de entrar no jogo e botar pra quebrar.
O que espera ele ? A volta do Rei ?
Sua consistência é impressionante, um nono, dois quintos e um terceiro, mas falta a explosão, ou melhor, falta a fagulha para explodir.
Os irmãos H. surfaram numa ansiedade enorme durante todo evento e de alguma forma conseguiram ir passando pelos adversários sem precisarem nunca do esforço extra: ora o Chris Ward ficava congelado, ora o O'raff fazia apenas 4 pontos...
As baterias nunca esquentavam a ponto de ferver.
Chris Cote, o bobo da corte, conseguiu o que queria desde o ano passado e teve mais destaque na cobertura do que o motivo que o levou pra lá em primeiro lugar: os surfistas.
Passei a assinar a Transworld depois do sensato editorial que Joel, esse sim o homem por trás (epa!) da revista, escreveu falando sobre as mudanças de foco e rumo editorial.
Não me arrependo, assim como não me arrependo de assinar Surfer, Surfing, Waves, Tracks, Surf Europe, Underground Surf (mesmo com falta de periodicidade...), Surfer's Path (pelo Drew Kampion), Adrenalin (apesar do paspalho do Vicente Medeiros), ASL, The Surfers Journal e Surf Portugal.
Fora a Surf Portugal e Surf Europe, que são cortesia, todas outras são pagas com o parco dinheirinho que sobra, quando sobra- e sobra cada vez menos.
Portanto, me sinto livre para discutir, criticar e debater sobre qualquer uma dessas publicações.
Tipos como os irmãos Cote (ou aberrações egocêtricas como Vicente Medeiros) são fenômenos passageiros e rapidamente esquecidos, mas aborrecem enormemente quem quer ver seu WCTzinho sossegado ou ler sua querida revistazinha em paz.
Nunca ataquei marcas ou instituições, seja revista ou TV. O que ataco, sem dó nem piedade (como diria nosso presidente André Costa) porque torcedor, são os equivocados por trás de cada uma delas.
A isso chama-se isenção.
A Maioria já ouviu falar do termo, quase sempre mal acompanhada de políticos de caráter duvidoso e geralmente precendendo suas mentiras.
Isenção é renúncia, independência.

segunda-feira, maio 29, 2006

Nas costas do Cote


Me lembrem, por favor, de mandar esse livro de bolso ao Chris

Não vi escrito em inglês, escrevo em português: Quanta baboseira esse Wha' Happ'n.
A Transmissão do campeonato é uma das piores de sempre e fica patente que Chris Cote é uma besta quadrada, dessas de emoldurar e pendurar na sala do clube de tiro. No mínimo imprudente que seja ainda um dos responsáveis pela edição de surfe da Transworld (Junto da Trasher, a Transwrold Skateboarding foi parcialmente responsável por tudo que o carrinho representa hoje).
Mesmo com a ajuda do Steve Zeldin, ex-editor da Surfing e fundador da Water e do editor do Track's Sean Doherty, ou do Derek Reilly, ex da ASL, ou mesmo dos insossos integrantes da equipe, Hobgoods e Priscila 'Macarrão, a narração é rasa e beira um certo analfabetismo sobre o histórico da ASP.
Interessante observar que em formato impresso a Transworld saiu da puberdade faz tempo, graças exclusivamente ao bom senso do Joel Petterson e sua visão aguçada - contra a visão açudada dos irmãos, Justin e Chris Cote.
Por algum motivo que prefiro ignorar, um dos melhores campeonatos do já fabuloso circuito mundial WCT deixa a desejar na locução da transmissão ao vivo.
Enquanto a Quiksilver, Rip Curl e Billabong fazem miséria durante as transmissões ao vivo na grande rede, convidando desde Mark Richards, tetra mundial e lucidez parelha com a do Tostão no futebol, ou Nick Carroll, nosso equivalente ao Saldanha, ouso afirmar. Temos o Sinuca, que apresenta com muita propriedade mas nem tanta análise, que ele sempre deixa pro Pottz, que por sua vez poderia representar, caso Bigorna permitisse, nosso Canhotinha de ouro - bate, pronto.
Em Fiji soa esquisito tantos editores, ainda empregados, envolvidos com a locução, parecem todos muito amestrados para não incomodarem os patrões.
Talvez esteja chegando a hora da ASP montar seu time de webcast - que nem por isso deixaria de lamber as próproas botas- , gente como Sarge, Nuno, Big All Hunt, Jason Borte e um (ou dois) ex-campeão mundial fariam a coisa andar.
O padrão é altíssimo e ficamos habituados com o que há de melhor.
Ter a transmissão já é fenomenal.
Somos mal agradecidos.

Copa, Copa!

A franca decadência na qualidade do programas do SporTV chega ao futebol.
A série 'Expresso da Copa - Raízes Brasileiras' é um primor de indolência, refinando a arte de como filmar, editar, escrever e dirigir um péssimo exemplo de programa de televisão.
Vindo do mesmo canal que exibe a série 'História do futebol' produzida pela BBC e os magníficos 'Surfers Journal' fica difícil de tragar.

PS - Mas convenhamos, desde que temos Paulo Cesar Vasconcelos, o Vandeca Luxembrugo dos comentaristas, praticamente comandando as análises no SporTV a melhor coisa tem sido ouvir o som do rádio...

sexta-feira, maio 26, 2006

Dois canudos


[No meu próximo livro, publicarei uma palestra que fiz na Universidade de Quixadá sobre o comportamento das aves peralvilhas aos 26 anos vivendo em cativeiro com internet banda larga e TV paga e sua inter-relação com exus opinativos.]

Até agora não entendi como o Troy Brooks virou pra cima do Joel.
Isso só comprova a teoria, toda bateria que tem uma reação no final, com a emoção dos minutos esvaindo-se a flor da pele, tende a um resultado polêmico.
Sujeito lidera os 25 minutos, faz e acontece, o outro, pobrezinho, acuado, reage e os Deuses conspiram a favor do mais fraco.
Parko já tem o seu filme, sua frota de carros, casa própria.
Tem tambem um jeito de surfar original como não víamos a tempos no circo, assim como Fanning, mas falta alguma coisa.
Talvez devesse passar tres meses lendo sobre os feitos do Mark Richards no circuito mundial no final dos 70 e início dos 80.
Da maneira que vai, podemos estar assistindo a outro Cheyne, menos goiaba.
Mineiro foi uma grata surpresa e quem se ressente disso, lamento.
Na primeira bateria fez o Cêjota suar a camiseta de lycra até o último minuto em esquerdas caindo em placas, tamanho de respeito.
Não esperava uma evolução tão rápida em ondas como essas. Na minha opinião, passou no teste com louvor.
Se alguem acha que não, por favor aponte outro camarada da mesma idade que surfe e compita melhor que ele.
Digo mais: se o rapaz tiver a delicadeza de observar tudo como um aluno aplicado (Slater era assim, ainda é), pode aprender muito, suficiente para ainda terminar entre os top 16 - afinal, aí vem Japão, Europa e Brasil.
Pedrinho, por outro lado, parece disposto a provar para a ASP que mereceu a vaga.
Não precisa.
No Tahiti, perdeu numa bateria ridícula contra Greg Emslie e agora em Fiji foi aniquilado pelo Bobby numa bateria de poucas ondas.
Pedro quer mostrar, a cada bateria, que é capaz de surfar melhor do seu oponente. Pode até ser, como era no caso do Tahiti, mas dizia Shaun Thomsom ainda nos distantes e temíveis anos 80: Surfe radical não ganha campeonato.
Um dos maiores estrategistas de todos tempos, Shaun (que acaba de perder tragicamente seu filho num acidente em Durban) queria dizer aos garotos que chegavam ao circuito, Carroll, Curren, Lynch, que de nada adiantava surfar no limite da radicalidade se voce não soubesse as regras do jogo.
E as regras, amigo, se voce ainda não percebeu mudaram muito pouco.
Continuam entrando dois malandros na arena e apenas um sai vivo, simples como na Copa do Mundo.
Bobeou, rodou.

El Chicano Martinez vem fazendo um estrago em 2006.
[Pausa para eventual sarcasmo: me ocorre que essa corja que ama um trocadilho deve ter pronto uma manchete 'Bobbby não bobeia', palmas publicitárias, o autor tira a cartola, curva-se e agradece envaidecido]
Vejam o que esse camarada de Santa Bárbara fez até agora: um terceiro, um nono e uma vitória.
Em Tavarua, pega Danny Wills e se for uma batalha de tubos e nada acontecer de errado, vai pra frente.
O problema é que passando, encara ou o Cêjota ou Fanning, que tal ?
Peterson é outro que deixou a vitória escapar-lhe pelos dedos contra o Peterson australiano, Luke Stedman.
Luke está em 12º no ranking e ao que tudo indica está na ponta dos cascos, como diria nosso garanhão italiano aposentado, JS.
Tenho urticária quando vejo Stedman surfar.
A previsão para terminar o WCT de Fiji não é das melhores, o que pode favorecer Eugene e em nada abala Andy, que parece meio desinteressado mas assim que sentir cheiro de sangue vai despertar seu instinto carnívoro.

terça-feira, maio 23, 2006

Reboque por Nick Carroll

Tow surfing only opens new doors if it's done in places no paddle surfer can go. And many goofballs are using the ski to yank 'emselves into waves well within paddling range that they couldn't catch using their arms -- mostly that they wouldn't dare APPROACH. Then beating their chests about being Men, like Laird H, etc.

It's like rich businessmen being driven in Jeeps up to semi-captive lions, then shooting 'em in the head from 20 metres. In a word, fake.

domingo, maio 21, 2006

Novidade

Profecia da Revista Surfer, Fevereiro de 1986, 'A year in review' pelo Paul Holmes:
'Sem a menor dúvida, um ano radical! (a exclamação é dele, não minha) Junto dos desconcertantes aéreos que os caras tem acertado em ondas pequenas, 1985 será lembrado pela introdução (êpa!) do Barrel Roll, criado pelo sempre inovador Johnny Boy Gomes.'

E quem duvidava ?


A capa de outra edição, pra chamar atenção - pim, pom.

quinta-feira, maio 18, 2006

Reboque

[Coluna Tempestade em copo d'água, Revista Surf Portugal, Fevereiro 2006]


-Querida, ligue para o Formiga e diga que hoje não dirijo pra ninguem.-

A sensação de estranheza ao ver Herbie Fletcher dropar uma onda média com seu jet ski em Waimea no filme Amazing surf stories em 1987 era incômoda.
Já tinha lido sobre as proezas do irmão do Wes Laine, Randy, e seu cavalo marinho motorizado, mas um surfista respeitado e inovador como Herbie, que ainda por cima nos presenteava com os empolgantes vídeos da série ‘Wave Warriors’, primeira geração de filmes de surfe para assistir em casa, Herbie, dizia eu, legitimava uma aparente ‘nova’ modalidade de se divertir nas ondas.
Ninguem dava um centavo por aquilo, o purismo falava bem mais alto e a única concessão seria usar o automóvel em salvamentos.
Brock Little não precisava de motor para colocar o pescoço na ponta da guilhotina- fazia por prazer, no braço, no peito.
Já escrevi que surfe é provavelmente o esporte mais humilhante que jamais existiu.
Um sujeito que resolve aprender a surfar com mais de 20 anos de idade vai demorar outros 20 para ser considerado um surfista mediano – isso, no caso de ser extraordinariamente talentoso, caso contrário, mais 20.
No jiu-jitsu, por exemplo, qualquer Zé ninguem depois de 3 ou 4 anos já alcança determinada graduação que impõe respeito, debaixo de treinamento sério e trabalho duro.
No surfe não faz a menor diferença se voce dedica 12 horas diárias do seu tempo para estudar ondas e treinar com sua prancha – o surfe é imperdoavelmente humilhante, repito redundante como um jornalista que escreve press-releases.
Não há saídas faceis no surfe.
Exceto o surfe rebocado.


- Um caso raro de surfista que encolheu quando estava prestes a dropar uma onda de 2 pés. -

Aí sim, temos a trapaça onde um meio surfista transforma-se num inteiro, ainda maior do que outros, com menos sorte de não terem um amigo com automóvel ou sem grana para comprar o seu próprio.
Imagem é tudo, diz a propaganda. O desafio hoje atende pelo nome de divulgação.
Entenda: Valente me confidencia que num mesmo dia em Portugal, Saca e Grego tinham uma ‘entourage’ com nem sei quantos fotógrafos e cinegrafistas numa investida para surfar Nazaré enorme, enquanto Zé, aquele da canção ‘Seabra is mad’ do Ithaka, acompanhado do Eric Ribiere se aventuravam pelo ‘Spot X’, sem que uma única alma soubesse do feito – aqui entra o acaso e Valente, em cima da hora para registrar e publicar.
Saibam, no entanto, que Saca e Grego são dois dos maiores surfistas da Terrinha e estariam disponíveis para qualquer empreitada, com ou sem platéia, como o fazem na maioria das vezes, sem viv’alma por testemunho.
Mas somem a isso uma pequena fortuna para comprar os cavalos marinhos mecânicos, mais o dinheiro do combustível, cifrões voando com a fumaça e temos motivos suficientes para convocar uma coletiva de imprensa, como fez (e faz!) o Laird desde a primeira vez que montou na motoquinha, isso, porem, não os faz menos ou mais surfistas do que todo resto.
Aqui não tratamos de essência, alma, purismos e essas cretinices, falo de talento, jeito pra coisa.
Rebocados pelo fenômeno do tow-in, vieram surfistas emergentes, aberrações que nunca foram capazes de discernir o momento certo de postar na posição ereta em cima duma prancha, fosse a onda grande ou pequena.
Não por acaso, os pioneiros em ondas gigantes como acompanhamos nas revistas (nós sempre acompanhamos isso pelas revistas, não é verdade ?) eram quase todos windsurfistas – e ele, Laird.
Alguem ainda lembra daquele tubo impressionante do Peter Cabrinha em Jaws ?
Pois aquilo foi absolutamente sem querer, quero crer.
Derrick Doerner quando lá chegou, rebocado, foi surfando a coisa como sempre fez e logo apontou para dentro do caroço como se surfasse em Backdoor, era o passo à frente, por favor.
Eis o que gostaria de dizer: um surfista como Shane Dorian, quando consegue tempo para dedicar-se ao surfe rebocado elimina toda concorrência, mas Dorian faria tudo isso no braço se necessário fosse, como Saca e Grego.
E fariam porque podem.
Quem não pode, vai no reboque.





- A onda que representa pra nova (e velha!) geração a mesma atitude absurda e irresponsável que o monstro do Laird no Tahiti representou a poucos anos atrás - o tow in ficou ultrapassado ? -

PS – Um australiano de 19, desses que competem no circuito de esperanças, Laurie Towner (towner ?), ganhou um campeonato junior em ondas de 3 pés, um mês antes protagonizou a onda da temporada no Backdoor, estampada em página dupla na Surfer e ASL e duas semanas depois dropou uma onda que deixou a comunidade de cabelo em pé no reef de Shipstern’s Bluff, uma aberração da natureza de dar pesadelos.
Nesse mesmo dia, Towner foi rebocado em outras meia-dúzia de ondas mas nada tão arrepiante quanto sua atitude na remada.
Nesse exato momento, a comissão que premia as maiores ondas da temporada se pergunta o que é, afinal, atitude.

sexta-feira, maio 12, 2006

Teahupoo, we have a problem



Nosso intrépido repórter Nicholas, irmão do Thomas, tem escrito diretamente da Polinésia Francesa no saite da ASL.
Um blogue no formato de fórum ou vice versa ?
Enquanto isso, no Bananão, bem alimentados editores são incapazes de criar conteúdo original durante o ISA Games, que acontece logo aqui ao lado.
Talvez o surfe amador não seja mais interessante para essa assoberbada patuscada, desde que eles tem, sim!, o circuito do sonhos e seus press releases de sonho.
Mas, por Tutatis, por que deveria eu me preocupar com essas questões menores enquanto esses geniais jornalistas estão tão ocupados criando (tambem geniais) manchetes para o futuro título mundial do Mineirinho ?
Talvez um mundal amador, junior ainda por cima, seja coisa relegada para os blogues.
Perdão, alguem disse aí do outro lado do monitor que nunca o surfe foi tão popular no Brasil ?
Ouvi um indignado gritar, com veias pulando no pescoço, feito Bocão no OP da Barra em 89, que apesar das futuras estrelas do surfe mundial estarem aqui na esquina, O Globo, JB e cia não publicam uma linha sequer sobre o ISA ?
Bigorna, meu amigo que tudo sabe, tudo vê, indaga: José, para onde ?
E agora ?
Leio o Nick em inglês e meto a cabeça no buraco igual avestruz.

quinta-feira, maio 11, 2006

Meu nome é Andy

Sal na terra



[Pedro Adão e Silva é a antítese do tipo que tanto prolifera-se em praias brasileiras.
Seu envolvimento com surfe é duma profundidade difícil de alcançar.
Alimenta 4 blogues com suas paixões: Musica com o Quase famosos , política (O Canhoto) e surfe no inspirador Ondas e o outro que leva seu nome.
Não deve ser fácil achar tempo numa agenda que inclui ainda lecionar e cuidar do recem nascido herdeiro.
Nesse turbilhão de tarefas, prevaleceu a vontade de compartilhar uma de suas maiores virtudes: o Olhar.
Quando recebi esse texto que cito abaixo me dei conta duma coisa: onde estão os Pedros desse lado do Atlântico ?
Recordo que certa vez um editor me disse, em tom de desdem, que achava a Surf Portugal muito melancólica.
Tomei um susto.
Mais tarde, pensando no que ouvi com mais calma, cogitei com meus botões se o amigo não confundia o que entendo por, usemos aqui a palavra profundidade, nos cai bem, com algo mais fútil e rápido - talvez bem humorado, sim ? - mas refleti se nosso amigo achava que tudo distante da linha editorial infanto juvenil seria triste, melancólico.
Se assim for, Pedro é um vidente dessa melancolia, um surfista que recusa-se a ser tratado como consumidor ou público-alvo e cria seu próprio ambiente partindo das coisas que acredita - como nos blogues e agora na sua coluna na Surf Portugal.
Seu texto (clica aqui e leia tudo) de estréia é um presente que faço questão de emprestar aos 4 leitores do Goiabada.]


'Entre a multidão que ouvia o Profeta, encontravam-se muitos pescadores que conheciam bem a importância e a função do sal: conservar e purificar. E, acima de tudo, sabiam que o sal não ficava no mar, transformava-se, ia para a Terra para dar sabor à vida humana. E fazia-o com um tempero que não era efémero. Um tempero que se conservava, pois o sal arde mas não se consome.
É esse o sentido último da metáfora do “Sal da Terra”: a busca de uma vida purificada e revigorada, a procura da plenitude. É também essa a ambição e parte da experiência de quem faz surf (ou dos viciados em fazer surf). Também nós, surfistas, sabemos bem qual é a importância do sal.'
texto publicado na coluna "Sal na Terra" da Surf Portugal.

segunda-feira, maio 08, 2006

Grant McLennan (12 de Fevereiro de 1958 - 6 de Maio de 2006)




Li hoje no Quase famosos, Blogue do amigo d'além mar Pedro, que Grant Mc Lennan morreu.
Quem diabos é Grant Mc Lennan e por que interessa uma nota ?
Grant Mc Lennan era vocalista da mais doce das bandas australianas, The Go-Betweens, mais uma das maravilhosas descobertas que o programa 'Novas tendências' na falecida Fluminense FM (tres prêmios de melhor cobertura na ASP, 89, 91 e 92).
Não temos atualmente no Rio de janeiro referência nas ondas do rádio para situar a garotada, que provavelmente nem sente falta por resolver sua sede com a grande rede.
De volta aos Go-Betweens, lembro bem quando comprei o LP lacrado na Gramophone do Shopping da Gavea, Tallulah, idos de 1987. Desci as escadas rolantes correndo, ansioso para chegar em casa e descobrir o que se escondia dentro do plástico.
Fiquei refem daquele disco por mais de um mês mas nenhum único amigo me acompanhava nas audições por acharem talvez 'muito pop' ou 'fácil' demais de gostar.
Aquilo era época do lançamento dos seguintes LPs: Prince, ''Sign o' the Times'', R.E.M., ''Document'', U2, ''The Joshua Tree'', That Petrol Emotion, ''Babble'', Jesus and the Mary Chain, Darklands (de 86 mas chegou aqui em 87), The Smiths "The World Won't Listen", New Order "Brotherhood" (tambem de 86), a pedrada dos Red Hot chilli Peppers, "The Uplift Mofo Party Plan".
Go-Betweens é possivelmente a banda australiana mais influente na musica atual, deixando seu rastro nos cultuados Belle & Sebastian, Broken Social Scene e até mesmo nos Kings Of Convenience e mais duas dúzias que deixo pra turma completar nos comentários.
Grant deixou 4 albuns solo enquanto sua banda decidia se voltava ao estúdio ou não e ainda conseguiu formar um projeto paralelo com Steve Kilbey, vocalista dos The Church, outra banda extraordinária da terra de OZ, o projeto chamava-se Jack Frost e tem um som completamente diferente de tudo que os dois fizeram antes.
Considero Horsebreaker star o melhor dos solos, CD duplo com uma coleção de canções que vale como um passeio pela Great ocean road.



Seu parceiro de banda, Robert Forster, manda avisar para tristeza aumentar que os Go-Betweens terminaram definitivamente.

quarta-feira, maio 03, 2006

Benito

[Escrito com toda insatisfação contida numa correspondência não desejada invadindo seu sagrado espaço, esse desconexo texto parece atacar o sujeito oculto do último parágrafo- enganam-se.
Ataque nunca foi meu forte, tenho péssima pontaria.
A turma não engole a ironia porque não sabe mastigar e a engole como insulto.
Voce discorda das idéias, da exposição que elas ganham nesse mundo de aflitos, mas pode, e deve, separar o homem da obra.
Gosto de lembrar sempre do Borges, detestado pelas idéias (vade retro) e idolatrado pela literatura (amen).
Querem outro ?
Jabor, sujeitinho duma vaidade desmedida, dono de um texto afetadérrimo e previsível como uma casca de banana, provavelmente deve ser um bom papo - pra quem tem bolas de ouro e saco de amianto.
Mas vejam o exemplo do Jabor: foi um péssimo diretor de cinema, mas em contrapartida é ainda um pior escritor.
A horda de assustados saboreia. Fiquemos com Borges, apenas.
De volta ao nosso mínimo universo do surfe, incomoda ver gente de fora cantar de galo nesse terreiro.
Somos desprezados pela grande e pequena imprensa que coloca gente completamente despreparada para coberturas dos campeonatos, roupas são vendidas aqui com toda aura de sol e mar, sempre com um surfista imponente enquanto o surfe carioca afunda em areia movediça.
O Rio, o surfe do Rio, nunca esteve tão desamparado.
Por outro lado, deixamos as novelas mais 'bonitas' com bonecos de inflar simulando situação de praia. Nesse mesmo lado, o Rio de janeiro virou conceito de marca, que quer ser 'carioca' sem sujar os pés de areia, nem as mãos de graxa.
Bacana ser malandro sem precisar se envolver com a malandragem.
Frequentar butiquim limpinho.
Ainda assim, aparece um Pedrinho daqui, um Trekinho dali, os irmãos Vargas, que mesmo sem a efervescência dos 80 (Company/Cyclone/Redley/Visual/Realce) conseguem com sua própria força de vontade o destaque merecido.
Tudo que peço é um pouco, só um tiquinho, de moderação quando se referirem ao passatempo do Duke, como fez a Tim, que gastou dinheiro e fez uma bela campanha onde surfistas sentem-se honrados, fato raro, vindo do meio empresarial.
O texto abaixo foi encomendado pelo Tucano, que entre centenas de empreendimentos, apoiou o primeiro livro de poesias do Pepê, sem no entanto cobrar 'retorno'.]


Texto para revista ‘Star-point’ - Maio de 2005

‘Quero ver o sorriso estampado
Pela cara dessa gente
Quero ver quem vai, quem fica
Ou quem chega de repente’

Tudo está no seu lugar, música de Benito de Paula, pelos idos de 76.


De Paula, momentos antes do desfile da coleção inverno 2007 da Griffe 'Meu amigo Charles'.

A grande contradição é entre o egoísmo e a abnegação.
Uma dúvida dolorida que nos atormenta da hora em que colocamos a cabeça pra fora do ventre materno até o grandioso momento de abotoar o paletó de madeira: dividir ou esconder ?
Sem pensar duas vezes, um guarda o conhecimento como o personagem da trilogia ‘Senhor dos anéis’: Precious, precious…
Enquanto o outro, logo ao lado, mostra sorridente à todos sua preciosidade.
Tal tesouro pode ser o disco do Coltrane com Johnny Hartman ou uma praia no litoral norte de Zampa.
O ano, 1960, John Severson ouve Laurindo de Almeida no rádio enquanto pensa em publicar um programa mais elaborado com fotos, para divulgar seu terceiro filme, Surf Fever, que chamaria de The Surfer.
Shirley Mac Laine deslumbrante fazia dupla histórica no cinema com Jack Lemmon em ‘Se meu apartamento falasse’, do diretor colecionador de Oscars, Billy Wilder, enquanto o mestre dos sustos, Hitchcock, lançava seu clássico ‘Psicose’.
Severson se surpreende com a popularidade da sua publicação e nasce ali uma periodicidade sem interrupções de 45 anos.
A fotografia clássica do jovem empreendedor sentado numa cadeirinha na praia catando milho na sua Remington enquanto ondas podem ser vistas ao fundo, talvez um dos momentos mais influentes de toda história desde Duke elegante em Waikiki.
Trabalhar na praia.


As cores da turma do sal-e-sol eram tão variadas quanto permitia a emergente psicodelia.
Mickey Dora estabelece ordem hierárquica na Meca do estilo, Malibu, enquanto Phil Edwards começa a se aborrecer com toda pompa que sua antiga rotina parece atrair.
Dividir ou não ?


A cultura de praia do jeito que conhecemos hoje começa ali.
Os principais articuladores terminam como anarquistas, artistas reclusos, rebeldes ou solitários convictos.
A lista é grande: Brian Wilson enoluquece, Dora foge, Edwards some, Leary vai em cana, Severson vende tudo, Bunker morre e Hendrix avisa: voce nunca ouvirá surf-music novamente.
Lojas brotam como erva daninha, revistas engrossam, pranchas diminuem, cabelos crescem, mentes se expandem…
Tudo isso, embrulhadinho, vende que é uma beleza.
Os sessenta, os setenta e agora os oitenta (em breve os noventa), são produtos, deixaram de ser décadas.
O seu esporte predileto, ou o meu, passa agora pela caixa registradora e vem com nota fiscal.
A legitimidade é um certificado lavrado por designers descolados.
As sentenças são repetidas como mantras, curtas e definitivas – e mentirosas, como acima.
Recebo em casa um catálogo da H. Stern com nova coleção de relógios, um papel caríssimo, bela diagramação, inspirado no Arpoador anos 60, surfistas, calçadão tradicional com pedras portuguesas, belas mulheres.
Tenho ânsia de vômito.
O texto nos comunica que o autor é surfista.
Dois anos antes uma revista semanal de diário carioca informa que o surfista da frase anterior é ex-surfista, como se fosse uma fase, um mero período de transição para um estado superior de, imagino, escala social.
Sou ex-croto, temo afirmar, copiando descaradamente meu oráculo, Fausto Wolff.
Não sei ainda quem vai nem quem fica, mas reconheço na mesma hora quem chega de repente.