sexta-feira, outubro 28, 2005

Duas capas, dois poemas.

[O livro Puízia do Pepê foi entregue ao mundo no dia 16 de agosto de 1999, cerimônia discreta, pouca gente, os mesmos amigos de sempre.
O tempo passa e o que tá escrito lá ganha volume, pequenas frases envelheceram como lemas.
A poesia, que era até coisa de invertido, já passou a ser aceita pelos fariseus- até publicada! - aqui no Bananão, ainda que sem encostar na preciosidade duma sílaba do Pepê.
Escolhi, sem muito zelo, dois poemas do Puízia (que, não contem por aí, está por doze mangos num saite aqui).
Pra casar, um par de capas (de 74) duma revista resistente ao tempo, 45 anos, elegante todo esse tempo, com uma roupa pra cada ocasião.]


Revista Surfer 1974


Pra salgar a vida eu uso onda.





Carregar prancha a caminho das ondas
faz mais um desvio no corpo do surfista andarilho.
Por isso ele vê horizonte inclinado, puxando pro lado.
Enxerga o voô capenga da gaivota à procura de peixe;
o declive da praia e o desaprumo da vida escorrendo no
Tempo.


Pedro Cezar

quinta-feira, outubro 27, 2005

Novidade (texto publicado na revsita Alma Surf)

[A novidade veio dar à praia.
A novidade (Bi Ribeiro - João Barone - Gilberto Gil - Herbert Vianna) do disco Selvagem de 1986.]


foto do blog Surfers Rule

‘Prefiro a versão do Gil’ discordou saborosamente o mais velho.
‘Pô, a do Paralamas, original, aê, é mar manera’, disse o mais novo com a testa franzida como uma cortina de teatro em final de peça.
A discussão tinha começado umas duas horas antes quando o moleque foi contar as mil maravilhas da sua prancha nova: uma Fish.
Diz que os olhos brilhavam! Foi um tal de tres-meia-zero pra tudo quanto é lado.
‘Mas que anda, mas que é soltinha, mas que é isso e mais aquilo’.
‘Essas tampas de privada são frouxas, falta pivô. Eu dava 360 quando tinha 15 anos de idade com uma duas quilhas muito mais firmes do que essas merdas.’
‘Pôrra, eu tenho 19…’
‘ Com a tua idade eu queria era pegar tubo… vê se ia ficar atrás de rodopiar feito pião ?’
‘Isso voa na marola, 21.5 de meio, 15.5 de rabeta e 17.25 de bico, Tio…’
O garoto era muito bem informado, tinha morado na Califa e viu nem sei quantos shows do Jack Johnson, foi ver a pré-estréia do ‘Broke down melody’ e sua vida nunca mais foi a mesma.
Gostava mesmo dos filmes da ‘Lost’, porrada pura comendo solta, rapaziada enchendo os cornos, umas ninfetas de bobeira… viu mais de 100 vezes.
Era Chris Ward no céu e Léo Neves na terra.
Toda vez que encontrava seu tio, curtia bater um papo, mais para ouvir as histórias do que falar.
‘ Teve aquela vez em Saquarema…já contei essa ? mar enorme, água gelada, só nós tres lá fora, sem cordinha…isso sem falar na dura que a gente levou…’
As lendas aumentavam conforme o tio bebia sua cerveja e dava demorados tapas nos baseados, segurando a fumaça sem tossir, manha de coroa do alto dos seus 34 anos.
O passado encantava e o futuro aborrecia – os dois.
‘Tio, que voce achou do ‘Broke down’ ?’
‘Esse negócio de neguinho ficar pegando onda de peito me deixa maluco.
Tem um amigo que viu e disse que era filme de viado, muita artezinha, fotografiazinha, conversinha fiada pra boi dormir.
Pediu pra tirar e colocar o ‘Nine lives’.
Assisti mais duas vezes, uma delas dormi.’
‘Caraca, eu acho esse filme muito foda, cara. Tem um ‘feeling’ bem das antigas, astral, aê.’
E tome de papo, desta vez o tema versava sobre som:
‘ Jack Johnson, né ? o cara arrebenta, diz aí?’
‘Acho uma chatice. Sou mais nosso ministro, o Gil. Dá de dez no habaiano.
Mas, olhe!, o cara apareceu pegando pra cacete no Pipe Masters em noventa e pouco. Tinha só dezessete anos… Tá lá no 110/240. Já viu ?’
‘???’
‘E Ben Harper ? Vai dizer que num gosta ?’
‘Aquilo é um chorão, lembra no ‘Shelter’ ? Falando da paz mundial…faça-me o favor!’
‘Tu é rabugento, hein tio ?’
‘Mas voce se amarra, né mané ?’

[A novidade era o máximo
Do paradoxo estendido na areia,]

Novo hoje é samplear bossa-nova, vide Thievery Corporation.
Novo é surfar em porta, ripa e tocos (de madeira crua e poliuretano laminado), vide irmãos Malloy.
Novo é Curren, Occy, ultrapassando a barreira dos 40.
Novo é Skip Frye e suas fishes de 30 anos atrás.
Novo é coleção de bermudas com desenho dos 80.
Novo é o filme de surfe voltando para os cinemas (poder ao digital!).
O novo nunca foi tão velho.

terça-feira, outubro 25, 2005

Contos de surfista

[Trecho retirado do livro 'Ela é carioca' de Ruy Castro (Cia das Letras, 1999)}


Ipanema vista da pedra do Arpoador. Foto do saite Almacarioca (vejam a bela seleção de crônicas - excetuando o insuportável Jabor)

Yllen Kerr
1924-81. Artista plástico, fotógrafo e esportista (sim senhores, surfista)
A história pertence à idade de ouro de Ipanema. Num dia de semana, um homem a bordo de seu baita carro, a caminho do trabalho na cidade, viu Yllen Kerr, de chinelo e bermuda, atravessando a rua em direção à praia.
Meteu a cara pela janela e disse: 'Yllen, praia a esta hora ? Vamos trabalhar, rapaz. Estou faturando 20 milhas por mês!'
Yllen não pareceu impressionado: ' Vinte milhas é quanto eu pago para ficar aqui na praia'.

Posto 5

[O camarada que escreveu este texto em Fevereiro de 2000, tinha apenas a tenra idade de 32 anos, não fosse pela generosidade do Bocão, nem prancha decente teria pra cair naquele mar espetacular no Posto 5.
Uma tarde preguiçosa, toca o telefone, Fiapo histérico repete: Back-door, Back-door! Pega a bike e vem pra cá agora! Faz tempo que não vejo assim! Pê cinco clássico!
As frases, cheias de exclamações, aceleravam meu coração como um desfribrilador.
Pouco tempo depois saiu o primeiro CD da Paula Lima, fraquinho comparado aos shows exuberantes do Ballroom, que, falando nisso, vai embora, feito felicidade naquela cançãozinha.
O texto é da extinta carta-coluna 'Malandragem é o seguinte' que o Zé cavou no camerasurf.]


Desconhecido fazendo o de sempre em Copa.

Pê 5

“Ai de ti Copacabana....” Rubem Braga
Verão no Rio de janeiro, meu caro Zé, é uma experiência ímpar.
Duas semanas atrás uma ondulação, dessas que entra no litoral carioca com mais intensidade do que em qualquer outro estado do Brasil, trouxe um presente inusitado até pros mais fissurados: quebrou o Posto 5.
E quando quebra o Posto 5, meu camarada, a cidade fica ainda mais maravilhosa e a Princesinha do Mar, Copacabana, veste seu traje de gala.
Nenhuma onda no Brasil tem mais intensidade do que o Pê 5.
Opa ! pularam dezesseis Paulistas: “Maresias....” Epa ! dezenove Pernabucanos gritaram: “e Noronha ??!!!”
Nem dá pro cheiro...
Pra começar, não Conheço um cara que vai Pra Copa de carro. Galera chega de camelo ou caminhando. Trezentos body-boarders disputam as ondas com apetite de quem não come faz tempo. Locais de pranchas grandes e disposição ainda maior dominam o pico sem deixar ninguem pensar em se meter a engraçadinho. E a onda Zé... Ah, a onda, parceiro, é o seguinte: lembra daquelas fotos de uma tal de Paúba que saía muito em revista antigamente ? multiplica a grossura do lipe por uns 5.
Se tem alguma onda que lembra, mesmo que de longe, a experiência havaiana de surfar, o crowd, o “power”, a tensão, essa onda quebra no Posto 5, em Copa, meia hora de bicicleta da minha casa, Zé.
Saindo da água quase 8 horas da noite, sentei com o Pereira e o Fiapo no quiosque em frente pra olhar as últimas ondas do dia, tomando uma latinha de Bavária, a cerveja dos amigos, de bobeira como se a vida dependesse desses momentos que o Rio não cansa de nos proporcionar.
Em meia hora começaria o show, de graça, do Ed Mota nas Areias de Copa, com exibição de filme depois. No dia seguinte tinha Gilberto Gil, tambem de graça pra rapaziada.
No final de semana passado, não quebrou o 5 mas teve showzaço dos pernambucanos da pôrra, Mundo Livre S.A. e Nação Zumbi.
Grátis.
Cerveja a um Real, chuvinha pra refrescar, as musas todas se rebolando, pé sujo de areia, playboyzada e bandidagem juntas curtindo uma praia em Copa, que ninguem vai perder uma dessas, né Zé ?
Dá-lhe Cabidela!
Fui...
P.S: Puta que pariu, Zé ! estou apaixonado.... Já é a segunda vez que vou ver a paulista Paula Lima (que ironia...) cantar aqui no Rio. Meu irmão, a nêga canta demais ! e ainda tem o sorriso mais lindo dos palcos brasileiros.
A Aretha Frankyn versão nacional. Que voz, Zé,voce tinha que ver...e que charme...que doçura de movimentos....
Sabe quem acompanhava ela ? Sandra de Sá, Luís Melodia, Ivo Meireles, uma tal de Dora Reis, gatona, com um puta vozeirão de estremecer o Ballroom. O Jorge Benjor tava resfriado e não foi. Dia 13 tem mais.
Tomara que a Paula Lima vá...

quarta-feira, outubro 19, 2005

Amor de resina



Spicoli Is Dead
Inside Andrew Kidman's New Surf Film Glass Love
by Ethan Stewart

For too long surfers have struggled to explain themselves to the non-surfing public, oftentimes losing their message in a swirl of "dude," funny hand gestures, and tired metaphors. To the non-surfing masses, surfing is a sport. Period. And any verbal attempts to break down this misconception and replace it with a more holistic understanding of surfing usually crashes and burns in an ugly wreck of corniness. But the fact remains that, for those individuals who choose to live their lives connected to the ocean, surfing transcends sport and is a very real and personal expression of spirituality.

As 1966 world champion of surfing Nat Young put it, "I wish that when they asked us, 'What is surfing?' I would have said it's a spiritual activity, and not just a sport, because that's what put us on the wrong track." In a post-Point Break reality, where surfing helps sell credit cards, cell phones, and SUVs, a new film from a young Australian surfer is making serious moves in the right direction.

Andrew Kidman is an artist. He plays guitar; writes songs, poems, and books; records albums; takes photos; paints; draws; and, as if all that weren't enough, he makes absolutely beautiful surf films. His first film, Litmus, is an underground classic among surfers everywhere. As raw and emotional as the ocean itself, it showcases surfing purely for surfing's sake. And now, more than seven years since Litmus, the Australian native has given us Glass Love, a film of equal emotion and stunning beauty.

This movie, which could hold its own in an art house as well as it does a surf shop, is an exploration of waves and surfboards of all shapes and sizes and the people who ride them. But beyond this - or perhaps because of this - it is also a film about family, culture, and what it means to be a surfer.

Kidman explains, "In the film I wanted to feature the generational link and love of surfing that gets passed down through families, in particular through the Curren and Purchase families. The sons are surfers and their fathers are surfer/shapers. It was nice to peek in on a small part of their relationships and how surfing makes them special."

The Curren clan provides one of the more memorable sections of the film, when father Pat, a big-wave surfing legend and esteemed surfboard craftsman, makes a board for his two sons, four-time world champion Tom and his younger brother Joe, both of whom call Santa Barbara home. The "generational link" is a thing of beauty as you watch Joe and Tom surf the board, followed by vintage footage of the elder Curren surfing Hawaii several decades ago. And then the Purchases, Neil Sr. and Neil Jr., offer up an Australian variation on the family theme, with intimate interviews and Neil Jr.'s otherworldly backside tube-riding skill at Kirra, Down Under.

The film goes beyond father-son family fun as it also includes the world-class surfing of Aussie charger Garth Dickenson, surfer/artist Ozzie Wright, the legendary Skip Frye, the enigmatic Derek Hynd, and many others. Also, like Litmus before it, the film has a wicked psychedelic and heavy animation section by Mark Sutherland. All in all, Glass Love is good - damn good - and in some ways, as only a truly special work of art can, the film explains away the stereotypes and reminds surfers and non-surfers alike about what it means to be alive.

Currently, Andrew, his partner Michelle, and their young daughter Bella are couch-surfing their way up the coast of California, relying on the kindness of friends to show Glass Love in theaters big and small. They will be in town next Thursday, May 12, with two showings at Santa Barbara Junior High's Marjorie Luke Theatre starting at 7 p.m. The evening includes an acoustic set of music by Andrew and Tommy Curren. If you surf or love someone who does, Glass Love is an hour of melodious, color-soaked, pure, and meaningful art that cannot be missed.

Somdi

Os craques da corrupção

Os craques da corrupção

SÉRGIO AUGUSTO NO ESTADÃO



Alguns comentaristas esportivos se surpreenderam e sentiram-se enganados, lesados, esbulhados pelas coisas que o árbitro Edílson Pereira de Carvalho aprontou em 11 jogos do Campeonato Brasileiro. Por que a surpresa? Por que o espanto? Futebol e corrupção não viraram sócios ou sinônimos na semana passada, nem no mês passado, nem na década passada. Indignação, tudo bem; mas é bom ter consciência de sua inutilidade. Pelo menos dois senadores petistas já admitiram que são fortes, crescentes e quase certamente imbatíveis as pressões contra a instalação de uma CPI do Apito ou a absorção pela CPI dos Bingos dos envolvidos no escândalo protagonizado por Edílson de Carvalho. A máfia do futebol não dorme de touca.
Foi só falar na criação de uma CPI, para Ricardo Teixeira, sumo-pontífice da CBF, dar uma circulada no Senado. Coincidência ou não, no dia seguinte a CPI dos Bingos adiou para a próxima terça-feira a votação dos requerimentos de convocação dos árbitros Edílson de Carvalho e Paulo José Danelon, do empresário de jogatinas Nagib Sayad (o Gibão) e do “atravessador” Wanderlei Pololi, os quatro principais implicados no mensalão do Brasileirão. Se convocados, irão depor em data ainda a ser fixada. Se ficar para fevereiro, que não seja no dia 29, como alguns pessimistas receiam.
Edílson (agora mais célebre por pedir a três santinhos que ninguém note as suas trapaças em campo do que por ter xingado os jogadores Tévez e Sebá, do Corinthians, de “gringos de merda”) andou roubando no Brasileirão, Danelon garfou no Campeonato Paulista, Pololi manipulou até jogos fora do Brasil e Gibão faturava os resultados fajutados, através da internet. Suspeita-se que haja outros gaveteiros envolvidos, a maioria sopradores de apito: uns oito, mais ou menos. Se as investigações não se aprofundarem, é bom encomendar mais farinha de trigo, mussarela e orégano. Apenas anular os 11 jogos sob suspeita e realizar novas partidas não basta. Como não basta punir, ainda que exemplarmente, os lalaus até agora indiciados, dando o caso por encerrado a poucos metros da entrada da gruta de Ali Babá.
É preciso espremer, por exemplo, o Roberto Jefferson desse mensalão: um tal de Roberto Tibúrcio, que há tempos confessou à rádio CBN de Belo Horizonte ter subornado jogadores do Corinthians, Coritiba, Ponte Preta e até do Cruzeiro para o Atlético Mineiro não cair para a Segundona, no Brasileiro do ano passado. Curiosa mistura de Jefferson com Marcos Valério, Tibúrcio é, como Pololi, a perfeita encarnação do que antigamente chamavam de malaquias, o homem da mala, o agente do suborno de juízes e jogadores. De tão velha, a palavra saiu de moda, mas não da memória de quem não se surpreende mais com a ladroeira do futebol brasileiro.
Não diria que é agora ou nunca, mas que estamos diante de uma boa oportunidade para devassar o bas fond futebolístico, ah, isso estamos. Não o fizemos entre 1981 e 1982, quando a revista Placar desmascarou a Máfia da Loteria Esportiva. Nem 13 anos depois, quando se descobriu que o ex-árbitro Wilson Catani recebera R$ 18 mil para beneficiar o Botafogo de Ribeirão Preto na Série A-2 do Campeonato Paulista. Nem em 1997, quando Ivens Mendes, o poderoso chefão da Conaf (Comissão Nacional de Arbitragem de Futebol), foi apanhado com a boca na botija, pedindo grana ao presidente do Corinthians, Alberto Dualib, e ao mandachuva do Atlético Paranaense, Mário Celso Petraglia, que chegaram a ser suspensos, mas voltaram a seus cargos. Nem em 2002, quando Armando Marques foi afastado da Comissão de Arbitragem da CBF por ter coagido um árbitro a mentir na súmula.
Nossos cartolas não têm o menor interesse em limpar e profissionalizar o futebol. Se um roto-rooter ético entrasse, sem entraves, nas entranhas da CBF, a faxina só iria terminar nos entupidíssimos esgotos da Fifa, o que muitas alegrias daria a um mundaréu de gente, em especial a um sujeito chamado David A. Yallop, que na década passada contou todos os podres daquela entidade durante o longo reinado de João Havelange (1974-1998), num livro traduzido pela Record com o título de Como Eles Roubaram o Jogo.
Ladrão e futebol já conviviam no gramado quando em nossos campos predominavam imigrantes britânicos ou seus descendentes, que entre si só falavam em inglês. Sempre que um companheiro de equipe parecia alheio à aproximação de um adversário que lhe pudesse roubar a bola, ouvia-se o grito de alerta: “Man on you!” (homem em cima). Talvez um antropólogo possa explicar por que preferimos traduzir “man on you” por “ladrão”, em vez de “inimigo” ou “cuidado”. Não tenho certeza se herdamos dos ingleses as expressões “roubar a bola” e “enganar o adversário”. De todo modo, assumindo-as, nos comprometemos—ou nos entregamos. Começam pelo léxico as perigosas relações do futebol com o ilícito.
No Chile, começou pela onomástica. Tinha o sobrenome de Ladrón o árbitro chileno que em 1922 veio apitar, no estádio do Fluminense, um jogo entre as seleções do Brasil e do Paraguai. Éramos infinitamente superiores aos guaranis, mas não conseguimos passar de um empate (1 x 1) porque o juiz chileno, fazendo jus ao nome de sua família, anulou, descaradamente, três gols legítimos da equipe brasileira. Não apanhou da torcida—que se deu por satisfeita gritando bem alto e sem parar o sobrenome do chileno—mas nunca mais voltou ao Brasil. Entrou em nosso índex, como um dia entrariam em outras listas negras José Marçal Filho (que prejudicou o Botafogo, no final do campeonato carioca de 1971), José de Assis Aragão e José Roberto Wright (personae non gratae no Atlético Mineiro), Armando Marques (que garfou a Portuguesa na decisão do Campeonato Paulista de 1973). Bem, a lista é interminável, e se não tivemos um gatuno de apito na boca chamado Ladrão, consertamos com um trocadilho o nome de “sua senhoria” José Eunápio de Queiroz, que entrou para a história da infâmia futebolística com o gracioso e justíssimo alcunha de Larápio de Queiroz.
Nem toda arbitragem equivocada merece ser tomada por uma ação malévola, condenada como fruto de um complô, de uma rapinagem mafiosa. Mas depois do escândalo detonado por Edílson de Carvalho, ficou mais difícil aceitar faltas não marcadas ou inexistentes e cartões sonegados ou gratuitos como meras falhas humana. Os árbitros vão penar um bocado. Os honestos e os desonestos. Sem exclusão dos incompetentes. Se forem espertos, juntam suas forças, se organizam, e ajudam a sanear, a desmirandar e a desteixeirar o futebol pentacampeão do mundo.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Revolver



Lennon e Mc Cartney já diziam: De ignorância e ódio padecem os mortos.
Isso é daquela cançãozinha manjada chamada 'Tomorrow never knows' (amanhã ninguem sabe...numa tradução livre), do disco que chamava-se 'Revolver', uma das cinco maiores obras da música moderna em qualquer lista.
Nada como ouvir 'Revolver' sem parar enquanto pensamos no tal plebiscito do desarmamento.
A onda agora é escorregar no tobogã do não, mostrando consciência social e ensinando aos desavisados, como eu, que estaremos todos desprotegidos do lobo mau.
Algo como dizer que nem adianta fazer campanha para a turma vestir camisinha, vai mesmo tudo morrer de aids, que é doença de boiola e pobre. Muito menos avisar que jogar lixo na rua é feio, o argumento é que sem lixo os garis ficam desempregados.
Quero que o policial aposentado pare de apontar seu trabuco para qualquer bobalhão que o atrapalhar no trânsito.
Voto sim e se amanhã uma bala atravessar meu peito no meio da rua será por negligência histórica desses governos fundamentalistas de merda que infestam nossas prefeituras e não porque fui contra a venda de armas.
Em algum momento o brasileiro terá que romper com essa violência.
A solução não está em inverter grades, morando, nós, no lado de dentro.
Marina Maggessi, Walter Maierovitch e Luis Eduardo Soares incomodam bem mais do que o delegado Ivaney de São Paulo, condecorado por bons serviços prestados a comunidade, enquanto os tres primeiros são sutilmente afastados.
Meu gatilho aciono nas teclas.
O alvo é bem no meio da testa, mas no lado de dentro.
Cada um se defende como pode.

terça-feira, outubro 04, 2005

Outre Mer



Um comprador de discos doentio compra até pela capa, sem se importar com o que vem dentro.
Vez por outra, dá sorte de encontrar coisa fina, caso do Garage a trois, nomezinho que pega de jeito.
'Outre Mer' é trilha sonora de um filme dum tal Klaus Tontine, que ninguem sabe, ninguem viu (exceto por um punhado de, err, críticos).
A sonoridade passeia pelo jazz solto do Medesky, Martin & Wood, mas tem o seu pezinho na cozinha do Bill Frisell, segundo o John Kelman, do sempre alerta All about jazz.
É possível ouvir quase o album inteiro no saite (clique no título e corre pro abrazzo).
Pode ser mais caso, cada vez mais corriqueiro, de filme merda e trilha fantástica - uma variação ao tema 'O filme é uma bosta mas o diretor é genial.

Mouco

Pedro Gonçalves é desses camaradas que merecem ser lidos com atenção.
Esteve pensando o jornal Blitz desde 1994 e assumiu a direção em 2003, opinando com autoridade e informando música para os exigentes leitores desse semanal lusitano.
Blitz, para quem não conhece, é o New musical express escrito em português claro.
Mas tambem é um pouco Mojo, Q, Melody Maker, Straight no chaser, Uncut, Les Inrockuptibles, Down Beat, tudo isso e mais alguma coisa.
Sou de deslumbre fácil.
A idéia do seu blog é duca, uma conclusão insistente e genial acompanha cada texto.
Logo de cara, Pedro fala dessa tão alardeada 'surf music' que existe apenas na cabeça de quem perdeu o trem das onze.
Leiam já, ou calem-se para sempre - quando o assunto for música e arredores.