'Que bom que tem gosto pra tudo', foi a frase/discurso do Pepe quando Fábio Fabuloso ganhou o prêmio do público no Festival do Rio. Partindo desse argumento, anuncio aqui, embora reticente, porque tímido, que um camarada resolveu me dissolver em uma grande entrevista (bota grande nisso, meu chapa!) no blog Surfe pensado.
Cláudio da Matta é jornalista e surfista, não necessariamente nesta ordem, trabalhou com imprensa escrita e televisão sempre tentando descobrir o mal que se esconde atrás duma prancha de surfe - o bem, digo eu, é tão óbvio...
Relendo a entrevista e vendo as fotos, quatro horas depois, reflito e concluo que deveria ter aceito o conselho do Brasas e interrompido a cálvice, provável causa de tanta minhoca no lado de dentro da cabeça.
Nunca fui de mendigar comentários, mas juro pelo cut-back do Curren que gostaria de saber uma ou outra opinião...
terça-feira, agosto 30, 2005
quinta-feira, agosto 25, 2005
terça-feira, agosto 16, 2005
Dorival
'Quem vem pra beira-mar, nunca mais quer voltar,
andei por andar, andei,
e todo caminho deu no mar'
Quem vem prá Beira do Mar - Dorival Caymmi
andei por andar, andei,
e todo caminho deu no mar'
Quem vem prá Beira do Mar - Dorival Caymmi
segunda-feira, agosto 15, 2005
Desafio
[Revista Surf Portugal, Julho 2005, #151]
Estamos em 2005, escrevo ainda em julho, uma tarde de inverno no Rio de janeiro, temperatura de inverno no Rio: nem quente, nem frio.
Espero pacientemente pelo dia seguinte, hoje não teve o WCT de J. Bay.
Habituei-me aos WCT na grande rede.
Habituei-me não; estou viciado.
Fitei a figura no espelho e desafiei: me prove que hoje não é a melhor época que já houve na ASP desde os tempos de IPS.
Raiz de tempo
Demorava uns bons 3 meses ou mais para encontrar uma Surfer ou Surfing e conferir os resultados de todos cameponatos de 1977, entre uma edição e outra.
Caso um amigo ou fera da praia viajasse e testemunhasse um World Cup, Pipe Masters, ou um Stubbies, a turma saberia com mais antecedência quem ganhou.
As imagens desses históricos eventos seriam contempladas muito tempo depois, revistas (de 3 a 6 meses) descansando no colo, ou olhos grudados na tela (de 6 meses até 2 anos!) improvisada num colégio ou centro de convenções de hotel, ambientes estranhamente esfumaçados.
A pressa chegou com os anos 80, suas maravilhosamente kitsch cores berrantes, tres quilhas, revistas mensais importadas espalhadas por mais do que as tradicionais 3 bancas de jornal e aeroportos e, por fim!, revistas nacionas por todos lados.
Aparece uma das mais importantes e democráticas ferramentas que inaugura um dinâmico intercâmbio sem precedentes na história do surfe: VHS.
O que antes era contemplado uma única vez, aquelas cenas inesquecíveis do Free Ride ou Storm Riders, poderiam, então, ser revisitadas e estudadas.
A velocidade da evolução tambem aumentou vertiginosamente, cada vídeo que chegava parecia trazer novidades tão distantes quanto na década anterior.
Quando os 90 chegam, Slater é lançado em Black and white, cores estão por fora. O circuito mundial passa pelo quatro cantos, voce e eu já assistimos uma competição internacional.
Entra internet.
Caiu a conexão…
Discada: contas caras, pouco tempo, muita coisa.
Pipocam saites com resultados, muitos tão somente e nada mais, chamam a isso conteúdo.
G. Land e J. Bay.
Tavarua e Ilha Reunião.
Tahiti.
DVD.
Comprimem-se as imagens, AVI, MPG, WMV, MOV.
Real Player, Quicktime, Windows Media Player.
O genial niteroiense Mano Ziul desenvolve um saite para se acompanhar notas pela rede.
Não satisfeito, integra uma web-cam no sistema.
Banda Larga: tanto tempo, todo tempo…tempo ? o que é tempo ?
Entra a cultura copia e cola, ‘press release’, diários de viagens, discute-se direito autoral, fotos iguais na revista e no saite da ASP.
Rabbit aposta na força da grande comunidade de aficcionados.
Surfar na rede transcende seu significado.
Seu computador nunca mais será o mesmo, voce nunca mais será o mesmo.
Transformou-se num crápula incapaz de dividir as poucas horas que o dia reserva para todos usarem o computador da família, alienado num mundo onde o que conta é a última nota nos segundos finais.
São décadas esperando por esse momento, voce finalmente tornou-se onipresente – e por consequência, onisciente, ha!
Nada mais lhe escapa.
Sim, voce sabe que a prancha que Andy está usando é uma 6’6’’ cheipada pelo Tio Merrick, ou que Slater não surfou nas duas últimas semanas porque estava com uma gripe violenta.
Não só isso, mas isso comentado pelo próprio Slater e o Andy, numa informal conversa com Martin Potter ou Tom Carrol.
O SporTV arrisca suas primeiras transmissões ao vivo, ancoradas pelos duzentos anos de surfe do Ricardo Bocão, uma aula de surfe para a turba, devidamente decorada pelo pedaço de mau caminho que é Diana Bouth, uma dupla inusitada mas que funciona.
As possibilidades são infinitas.
Centenas de milhares repetem essa rotina escravizadora e fascinante que é monitorar uma etapa do circuito mundial de surfe, com todas suas imperfeições, erros grotescos, injustiças e frustrações.
Olho com inveja para a figura irônica no espelho, balanço a cabeça e reconheço que o melhor ainda está por vir.
Estamos em 2005, escrevo ainda em julho, uma tarde de inverno no Rio de janeiro, temperatura de inverno no Rio: nem quente, nem frio.
Espero pacientemente pelo dia seguinte, hoje não teve o WCT de J. Bay.
Habituei-me aos WCT na grande rede.
Habituei-me não; estou viciado.
Fitei a figura no espelho e desafiei: me prove que hoje não é a melhor época que já houve na ASP desde os tempos de IPS.
Raiz de tempo
Demorava uns bons 3 meses ou mais para encontrar uma Surfer ou Surfing e conferir os resultados de todos cameponatos de 1977, entre uma edição e outra.
Caso um amigo ou fera da praia viajasse e testemunhasse um World Cup, Pipe Masters, ou um Stubbies, a turma saberia com mais antecedência quem ganhou.
As imagens desses históricos eventos seriam contempladas muito tempo depois, revistas (de 3 a 6 meses) descansando no colo, ou olhos grudados na tela (de 6 meses até 2 anos!) improvisada num colégio ou centro de convenções de hotel, ambientes estranhamente esfumaçados.
A pressa chegou com os anos 80, suas maravilhosamente kitsch cores berrantes, tres quilhas, revistas mensais importadas espalhadas por mais do que as tradicionais 3 bancas de jornal e aeroportos e, por fim!, revistas nacionas por todos lados.
Aparece uma das mais importantes e democráticas ferramentas que inaugura um dinâmico intercâmbio sem precedentes na história do surfe: VHS.
O que antes era contemplado uma única vez, aquelas cenas inesquecíveis do Free Ride ou Storm Riders, poderiam, então, ser revisitadas e estudadas.
A velocidade da evolução tambem aumentou vertiginosamente, cada vídeo que chegava parecia trazer novidades tão distantes quanto na década anterior.
Quando os 90 chegam, Slater é lançado em Black and white, cores estão por fora. O circuito mundial passa pelo quatro cantos, voce e eu já assistimos uma competição internacional.
Entra internet.
Caiu a conexão…
Discada: contas caras, pouco tempo, muita coisa.
Pipocam saites com resultados, muitos tão somente e nada mais, chamam a isso conteúdo.
G. Land e J. Bay.
Tavarua e Ilha Reunião.
Tahiti.
DVD.
Comprimem-se as imagens, AVI, MPG, WMV, MOV.
Real Player, Quicktime, Windows Media Player.
O genial niteroiense Mano Ziul desenvolve um saite para se acompanhar notas pela rede.
Não satisfeito, integra uma web-cam no sistema.
Banda Larga: tanto tempo, todo tempo…tempo ? o que é tempo ?
Entra a cultura copia e cola, ‘press release’, diários de viagens, discute-se direito autoral, fotos iguais na revista e no saite da ASP.
Rabbit aposta na força da grande comunidade de aficcionados.
Surfar na rede transcende seu significado.
Seu computador nunca mais será o mesmo, voce nunca mais será o mesmo.
Transformou-se num crápula incapaz de dividir as poucas horas que o dia reserva para todos usarem o computador da família, alienado num mundo onde o que conta é a última nota nos segundos finais.
São décadas esperando por esse momento, voce finalmente tornou-se onipresente – e por consequência, onisciente, ha!
Nada mais lhe escapa.
Sim, voce sabe que a prancha que Andy está usando é uma 6’6’’ cheipada pelo Tio Merrick, ou que Slater não surfou nas duas últimas semanas porque estava com uma gripe violenta.
Não só isso, mas isso comentado pelo próprio Slater e o Andy, numa informal conversa com Martin Potter ou Tom Carrol.
O SporTV arrisca suas primeiras transmissões ao vivo, ancoradas pelos duzentos anos de surfe do Ricardo Bocão, uma aula de surfe para a turba, devidamente decorada pelo pedaço de mau caminho que é Diana Bouth, uma dupla inusitada mas que funciona.
As possibilidades são infinitas.
Centenas de milhares repetem essa rotina escravizadora e fascinante que é monitorar uma etapa do circuito mundial de surfe, com todas suas imperfeições, erros grotescos, injustiças e frustrações.
Olho com inveja para a figura irônica no espelho, balanço a cabeça e reconheço que o melhor ainda está por vir.
terça-feira, agosto 09, 2005
A Vida Vem em Ondas
[texto de 2004, iniciado em 2000, sem pé, mas com cabeça]

-- Tudo é onda.
Ele dava uma baforada no charuto e um gole no Santa Helena olhando firme pra mim, como quem dissesse: qualquer imbecil sabe disso, não é verdade? Dudu celebrava nesse dia, 6 de Julho de 2000, 29 anos da morte de Louis Armstrong, o camarada que popularizou o jazz e o deixou, digamos, mais palatável para o chamado ‘grande público’. Uma banda improvisada, mas muito bem sintonizada, tocava “When the Saints Go Marchin’ In”. Dudu no banjo – é pai do surfista de Ubatuba Tadeu Pereira – e seus irmãos tocavam o resto dos instrumentos: guitarra, baixo, bateria e até um pandeiro. Na platéia, dançando animadamente, Binho Nunes e Paloma. Dudu celebra nascimento e morte do seu ídolo – Sachtmo vive.
-- Tudo é onda: música é onda, tempo é onda, a vida – por que não? -- vem em ondas, cantava o poetinha.
Papa Du sabe do que assunta. Três dias mais tarde, deitado nas areias de Itamambuca, assistiu o filho mais velho levar, varrendo tudo, com uma tremenda onda, a etapa do Super Surf em Ubatuba – Francisca Pereira, baixista da banda, terminou em 3º.
Nascido em 24 de Agosto de 1890, portanto 11 anos mais velho do que Armstrong (4 de Agosto de 1901), Duke Paoa Kahinu Mokoe Hulikohola Kahanamoku veio como uma vaga gigantesca para mudar o jeito da gente olhar pro mar. O que Louis Armstrong fez pelo jazz, Duke fez pelo surfe: até então era o esporte dos Deuses e, a partir dali, dele, o Duke, ficou ao alcance de qualquer maluco que tivesse ousadia e saúde pra carregar aqueles pranchões de madeira (olo = redwood = pau-brasil) terrivelmente pesados, principalmente depois de ensopados.
Um grande surfista deve, por probabilidade e excelência, ser um exímio nadador. Imagino uma regra como essa num manual de grandes surfistas. O Duke não era apenas um exímio nadador, não senhores! O Duke era o maior de todos, o revolucionário do estilo, o melhor do planeta – suas 5 medalhas olímpicas não me deixam mentir… Um pé enorme, calçando lá pelos 45, era responsável pela velocidade anormal que ele alcançava -- ele já usava o pé para direcionar a prancha quando surfava, na técnica tradicional havaiana (de onde mais?) do período pré-quilha, pré-Blake.
E mãos enormes também!

Quando, no dia 12 de Agosto de 1911, o jornal Honolulu Advertiser estampou a notícia de que um jovem havaiano quebrara o recorde mundial dos 100 metros numa competição de final de semana, o comitê da associação americana amadora prontamente se levantou contra o fato e concluiu que, “como foi realizado em água salgada, sujeita a correntes, não vale.” Afinal, não se tratavam de meros centésimos ou mesmo décimos de segundo, eram 4.6 segundos de diferença pelamordedeus!!! Na verdade, era um século inteiro à frente do recorde mundial do campeão olímpico, Charles M. Daniels, nadados num ancoradouro, entre um pier e outro, numa manhã qualquer em Waikiki.
O impacto que teve a meteórica carreira de Kahanamoku na imprensa ajudou o surfe a se popularizar em todo mundo, começando com dois pés direito na Olimpíada de 1912 em Estocolmo, Suécia: duas medalhas, uma de ouro nos 100 metros livre, quebrando mais uma vez o recorde mundial – a lenda reza que ele estava tão à frente dos outros que se deu ao trabalho de olhar pra trás e, mesmo com essa pequena pausa, ainda terminou dois metros adiante do segundo colocado – e outra de prata no revezamento 4 x 200. O próprio Rei Gustaf da Suécia fez questão de entregar a medalha a Duke. Majestoso momento: um rei honrando o rei do esporte dos reis.
Atropelado pela fama, Duke acabou virando um embaixador do Havaí e do esporte que ressurgia após anos na obscuridade, por ser considerado pagão, estimulador da vadiagem e obsceno. Sim, esse mesmo que hoje vende refrigerantes e planos de saúde, o tal do surfe.
Em 1916 não houve Jogos Olímpicos por causa da Primeira Grande Guerra e Duke teve que esperar até 1920 para defender o seu título.
Bélgica, Antuérpia. O tempo passara tão rápido quanto sua velocidade dentro d’água. Duke, com 30 anos de idade, considerado muito velho para uma Olimpíada, não fez por menos: igualou seu recorde na semi-final e o quebrou na prova final, repetindo o ouro e a prata de ‘12.
Tudo é onda…
Um dado curioso é que, nesse tempo, as Olimpíadas eram exclusivamente para atletas amadores e, portanto, outro grande surfista pioneiro, George Freeth, apesar de estar entre os melhores nadadores dos EUA, não pôde participar das seletivas por ser salva-vidas profissional no estado da Califórnia.
“Precisou do Tarzan em pessoa para me parar.” Foi o que Duke disse à imprensa quando, aos 34 anos de idade, foi derrotado na final dos 100 metros livres na Olimpíada de 1924, em Paris. Duke fora batido pelo jovem ator Johnny Weismuller que, anos mais tarde, tornaria-se o primeiro e mais popular Tarzan da história do cinema.
Não pensem que o Duke desistiu de sua carreira olímpica depois da sua prata em ’24. Ele ainda teve disposição para disputar mais uma, em Los Angeles, 1932, como integrante do time de pólo aquático – com 42 anos!
“Eu precisava saber se ainda era capaz de nadar…”, disse ele. “Não fui muito bem… acho que a gente começa a ficar mais devagar quando se aproxima dos 40.”
Enquanto isso, de volta a 2004, Occy, com 37 anos, continua no top 16…

-- Tudo é onda.
Ele dava uma baforada no charuto e um gole no Santa Helena olhando firme pra mim, como quem dissesse: qualquer imbecil sabe disso, não é verdade? Dudu celebrava nesse dia, 6 de Julho de 2000, 29 anos da morte de Louis Armstrong, o camarada que popularizou o jazz e o deixou, digamos, mais palatável para o chamado ‘grande público’. Uma banda improvisada, mas muito bem sintonizada, tocava “When the Saints Go Marchin’ In”. Dudu no banjo – é pai do surfista de Ubatuba Tadeu Pereira – e seus irmãos tocavam o resto dos instrumentos: guitarra, baixo, bateria e até um pandeiro. Na platéia, dançando animadamente, Binho Nunes e Paloma. Dudu celebra nascimento e morte do seu ídolo – Sachtmo vive.
-- Tudo é onda: música é onda, tempo é onda, a vida – por que não? -- vem em ondas, cantava o poetinha.
Papa Du sabe do que assunta. Três dias mais tarde, deitado nas areias de Itamambuca, assistiu o filho mais velho levar, varrendo tudo, com uma tremenda onda, a etapa do Super Surf em Ubatuba – Francisca Pereira, baixista da banda, terminou em 3º.
Nascido em 24 de Agosto de 1890, portanto 11 anos mais velho do que Armstrong (4 de Agosto de 1901), Duke Paoa Kahinu Mokoe Hulikohola Kahanamoku veio como uma vaga gigantesca para mudar o jeito da gente olhar pro mar. O que Louis Armstrong fez pelo jazz, Duke fez pelo surfe: até então era o esporte dos Deuses e, a partir dali, dele, o Duke, ficou ao alcance de qualquer maluco que tivesse ousadia e saúde pra carregar aqueles pranchões de madeira (olo = redwood = pau-brasil) terrivelmente pesados, principalmente depois de ensopados.
Um grande surfista deve, por probabilidade e excelência, ser um exímio nadador. Imagino uma regra como essa num manual de grandes surfistas. O Duke não era apenas um exímio nadador, não senhores! O Duke era o maior de todos, o revolucionário do estilo, o melhor do planeta – suas 5 medalhas olímpicas não me deixam mentir… Um pé enorme, calçando lá pelos 45, era responsável pela velocidade anormal que ele alcançava -- ele já usava o pé para direcionar a prancha quando surfava, na técnica tradicional havaiana (de onde mais?) do período pré-quilha, pré-Blake.
E mãos enormes também!

Quando, no dia 12 de Agosto de 1911, o jornal Honolulu Advertiser estampou a notícia de que um jovem havaiano quebrara o recorde mundial dos 100 metros numa competição de final de semana, o comitê da associação americana amadora prontamente se levantou contra o fato e concluiu que, “como foi realizado em água salgada, sujeita a correntes, não vale.” Afinal, não se tratavam de meros centésimos ou mesmo décimos de segundo, eram 4.6 segundos de diferença pelamordedeus!!! Na verdade, era um século inteiro à frente do recorde mundial do campeão olímpico, Charles M. Daniels, nadados num ancoradouro, entre um pier e outro, numa manhã qualquer em Waikiki.
O impacto que teve a meteórica carreira de Kahanamoku na imprensa ajudou o surfe a se popularizar em todo mundo, começando com dois pés direito na Olimpíada de 1912 em Estocolmo, Suécia: duas medalhas, uma de ouro nos 100 metros livre, quebrando mais uma vez o recorde mundial – a lenda reza que ele estava tão à frente dos outros que se deu ao trabalho de olhar pra trás e, mesmo com essa pequena pausa, ainda terminou dois metros adiante do segundo colocado – e outra de prata no revezamento 4 x 200. O próprio Rei Gustaf da Suécia fez questão de entregar a medalha a Duke. Majestoso momento: um rei honrando o rei do esporte dos reis.
Atropelado pela fama, Duke acabou virando um embaixador do Havaí e do esporte que ressurgia após anos na obscuridade, por ser considerado pagão, estimulador da vadiagem e obsceno. Sim, esse mesmo que hoje vende refrigerantes e planos de saúde, o tal do surfe.
Em 1916 não houve Jogos Olímpicos por causa da Primeira Grande Guerra e Duke teve que esperar até 1920 para defender o seu título.
Bélgica, Antuérpia. O tempo passara tão rápido quanto sua velocidade dentro d’água. Duke, com 30 anos de idade, considerado muito velho para uma Olimpíada, não fez por menos: igualou seu recorde na semi-final e o quebrou na prova final, repetindo o ouro e a prata de ‘12.
Tudo é onda…
Um dado curioso é que, nesse tempo, as Olimpíadas eram exclusivamente para atletas amadores e, portanto, outro grande surfista pioneiro, George Freeth, apesar de estar entre os melhores nadadores dos EUA, não pôde participar das seletivas por ser salva-vidas profissional no estado da Califórnia.
“Precisou do Tarzan em pessoa para me parar.” Foi o que Duke disse à imprensa quando, aos 34 anos de idade, foi derrotado na final dos 100 metros livres na Olimpíada de 1924, em Paris. Duke fora batido pelo jovem ator Johnny Weismuller que, anos mais tarde, tornaria-se o primeiro e mais popular Tarzan da história do cinema.
Não pensem que o Duke desistiu de sua carreira olímpica depois da sua prata em ’24. Ele ainda teve disposição para disputar mais uma, em Los Angeles, 1932, como integrante do time de pólo aquático – com 42 anos!
“Eu precisava saber se ainda era capaz de nadar…”, disse ele. “Não fui muito bem… acho que a gente começa a ficar mais devagar quando se aproxima dos 40.”
Enquanto isso, de volta a 2004, Occy, com 37 anos, continua no top 16…
quinta-feira, agosto 04, 2005
Fura onda
Texto para revista da loja ‘Star-point’ - Maio de 2005
‘Quero ver o sorriso estampado
Pela cara dessa gente
Quero ver quem vai, quem fica
Ou quem chega de repente’
Tudo está no seu lugar, música de Benito de Paula, pelos idos de 76.
A grande contradição é entre o egoísmo e a abnegação.
Uma dúvida dolorida que nos atormenta da hora em que colocamos a cabeça pra fora do ventre materno até o grandioso momento de abotoar o paletó de madeira: dividir ou esconder ?
Sem pensar duas vezes, um guarda o conhecimento como o personagem da trilogia ‘Senhor dos anéis’: Precious, precious…
Enquanto o outro, logo ao lado, mostra sorridente à todos sua preciosidade.
Tal tesouro pode ser o disco do Coltrane com Johnny Hartman ou uma praia no litoral norte de Zampa.
O ano, 1960, John Severson ouve Laurindo de Almeida no rádio enquanto pensa em publicar um programa mais elaborado com fotos, para divulgar seu terceiro filme, Surf Fever, que chamaria de The Surfer.
Shirley Mac Laine deslumbrante fazia dupla histórica no cinema com Jack Lemmon em ‘Se meu apartamento falasse’, do diretor colecionador de Oscars, Billy Wilder, enquanto o mestre dos sustos, Hitchcock, lançava seu clássico ‘Psicose’.
Severson se surpreende com a popularidade da sua publicação e nasce ali uma periodicidade sem interrupções de 45 anos.
A fotografia clássica do jovem empreendedor sentado numa cadeirinha na praia catando milho na sua Remington enquanto ondas podem ser vistas ao fundo, talvez um dos momentos mais influentes de toda história desde Duke elegante em Waikiki.
Trabalhar na praia.
As cores da turma do sal-e-sol eram tão variadas quanto permitia a emergente psicodelia.
Mickey Dora estabelece ordem hierárquica na Meca do estilo, Malibu, enquanto Phil Edwards começa a se aborrecer com toda pompa que sua antiga rotina parece atrair.
Dividir ou não ?
A cultura de praia do jeito que conhecemos hoje começa ali.
Os principais articuladores terminam como anarquistas, artistas reclusos, rebeldes ou solitários convictos.
A lista é grande: Brian Wilson enoluquece, Dora foge, Edwards some, Leary vai em cana, Severson vende tudo, Bunker morre e Hendrix avisa: voce nunca ouvirá surf-music novamente.
Lojas brotam como erva daninha, revistas engrossam, pranchas diminuem, cabelos crescem, mentes se expandem…
Tudo isso, embrulhadinho, vende que é uma beleza.
Os sessenta, os setenta e agora os oitenta (em breve os noventa), são produtos, deixaram de ser décadas.
O seu esporte predileto, ou o meu, passa agora pela caixa registradora e vem com nota fiscal.
A legitimidade é um certificado lavrado por designers descolados.
As sentenças são repetidas como mantras, curtas e definitivas – e mentirosas, como acima.
Recebo em casa um catálogo da H. Stern com nova coleção de relógios, um papel caríssimo, bela diagramação, inspirado no Arpoador anos 60, surfistas, calçadão tradicional com pedras portuguesas, belas mulheres.
Tenho ânsia de vômito.
O texto nos comunica que o autor é surfista.
Dois anos antes uma revista semanal de diário carioca informa que o surfista da frase anterior é ex-surfista, como se fosse uma fase, um mero período de transição para um estado superior de, imagino, escala social.
Sou ex-croto, temo afirmar, copiando descaradamente meu atual oráculo, Fausto Wolff.
Não sei ainda quem vai nem quem fica, mas reconheço na mesma hora quem chega de repente.
‘Quero ver o sorriso estampado
Pela cara dessa gente
Quero ver quem vai, quem fica
Ou quem chega de repente’
Tudo está no seu lugar, música de Benito de Paula, pelos idos de 76.
A grande contradição é entre o egoísmo e a abnegação.
Uma dúvida dolorida que nos atormenta da hora em que colocamos a cabeça pra fora do ventre materno até o grandioso momento de abotoar o paletó de madeira: dividir ou esconder ?
Sem pensar duas vezes, um guarda o conhecimento como o personagem da trilogia ‘Senhor dos anéis’: Precious, precious…
Enquanto o outro, logo ao lado, mostra sorridente à todos sua preciosidade.
Tal tesouro pode ser o disco do Coltrane com Johnny Hartman ou uma praia no litoral norte de Zampa.
O ano, 1960, John Severson ouve Laurindo de Almeida no rádio enquanto pensa em publicar um programa mais elaborado com fotos, para divulgar seu terceiro filme, Surf Fever, que chamaria de The Surfer.
Shirley Mac Laine deslumbrante fazia dupla histórica no cinema com Jack Lemmon em ‘Se meu apartamento falasse’, do diretor colecionador de Oscars, Billy Wilder, enquanto o mestre dos sustos, Hitchcock, lançava seu clássico ‘Psicose’.
Severson se surpreende com a popularidade da sua publicação e nasce ali uma periodicidade sem interrupções de 45 anos.
A fotografia clássica do jovem empreendedor sentado numa cadeirinha na praia catando milho na sua Remington enquanto ondas podem ser vistas ao fundo, talvez um dos momentos mais influentes de toda história desde Duke elegante em Waikiki.
Trabalhar na praia.
As cores da turma do sal-e-sol eram tão variadas quanto permitia a emergente psicodelia.
Mickey Dora estabelece ordem hierárquica na Meca do estilo, Malibu, enquanto Phil Edwards começa a se aborrecer com toda pompa que sua antiga rotina parece atrair.
Dividir ou não ?
A cultura de praia do jeito que conhecemos hoje começa ali.
Os principais articuladores terminam como anarquistas, artistas reclusos, rebeldes ou solitários convictos.
A lista é grande: Brian Wilson enoluquece, Dora foge, Edwards some, Leary vai em cana, Severson vende tudo, Bunker morre e Hendrix avisa: voce nunca ouvirá surf-music novamente.
Lojas brotam como erva daninha, revistas engrossam, pranchas diminuem, cabelos crescem, mentes se expandem…
Tudo isso, embrulhadinho, vende que é uma beleza.
Os sessenta, os setenta e agora os oitenta (em breve os noventa), são produtos, deixaram de ser décadas.
O seu esporte predileto, ou o meu, passa agora pela caixa registradora e vem com nota fiscal.
A legitimidade é um certificado lavrado por designers descolados.
As sentenças são repetidas como mantras, curtas e definitivas – e mentirosas, como acima.
Recebo em casa um catálogo da H. Stern com nova coleção de relógios, um papel caríssimo, bela diagramação, inspirado no Arpoador anos 60, surfistas, calçadão tradicional com pedras portuguesas, belas mulheres.
Tenho ânsia de vômito.
O texto nos comunica que o autor é surfista.
Dois anos antes uma revista semanal de diário carioca informa que o surfista da frase anterior é ex-surfista, como se fosse uma fase, um mero período de transição para um estado superior de, imagino, escala social.
Sou ex-croto, temo afirmar, copiando descaradamente meu atual oráculo, Fausto Wolff.
Não sei ainda quem vai nem quem fica, mas reconheço na mesma hora quem chega de repente.
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