A foto é do Scott Soens
[Revista Surf Portugal, Agosto 2004, #139, ano 18]
Garoto ainda, cabulava aula para ir ao Arpoador, uma espécie de Templo sagrado, com estádio de futebol e curso avançado de estudos na cadeira de surfologia.
O motivo era simples: Waimea 5000, campeonato internacional de surfe.
Rotina: acordar muito cedo.
‘Ué, meu filho, caiu da cama ? o que deu em voce pra sair tão cedo ?’
Dinheiro contado pro pão, mortadela e Coca-cola.
Surfing debaixo do braço, aquela com o Shaun Tomson na capa, entubando de pé em Sunset, ficava lá, sentadinho, vendo o desfile de feras saindo da revista pra água, ali, na minha frente.
Era Joey Buran, Bud Lamas, Michael Ho, Dane Kealoha, Greg Day, Cheyne Horan…E tinha ainda! Fred D’orey, Valdir Vargas, Valério, Picuruta… Temida e respeitada equipe Rico/Visual Esportivo.
Em dois, tres dias, um moleque com vontade de aprender assimilava e evoluía mais do que em 3 anos de surfe diários.
Tempo passando e a curiosidade aumentando. Juntava todo dinheiro que podia e me mandava, de carona, pra assistir os internacionais novamente, 5 anos depois do Waimea definhar e morrer.
O Rio já não era mais nem Meca, nem Maracanã, as capitais do surfe nacional, pelo menos durante os eventos, agora atendiam por nomes gozados como Joaquina e Itamambuca.
Foi na areia de Itamambuca que vi o Sunny indo surfar na minha frente – e ainda nos pediu para olhar por um pedaço de parafina que viraria souvenir nas nossas mãos. Sunny era tão jovem quanto a gente, mas já tinha adesivos da Billabong no bico da prancha, um segundo lugar no tradicional OP da Califórnia, fotos na revista, fama de mau rapaz e parte no filme ‘Surf into the summer’.
Enfim, pronto para ser idolatrado por adolescentes que sonhavam um dia poder ostentar uma das coisas da lista acima.
Por que, afinal, tanta nostalgia em torno de assunto tornado enfadonho pela imprensa atual ?
Rob Machado é a minha resposta.
Alguem pode me apontar um único surfista que herdou, ou quis herdar, o cetro de plasticidade da linha do magrelo ?
Numa roda de chope, tarde de temperatura amena do inveno carioca, nos entreolhamos e perguntamos ? E o Machado, hein ?
Não deixou escola…
Engraçado que um dos caras mais influentes do surfe nos anos 90 não tenha deixado uma escola do seu espetacular jeito de surfar.
Improvisação!
Isso não se copia. Diz um.
Corta pra sentença do Matt Warshaw no Billabong Surf into the summer: 'desde dois garotinhos sentados nas areias de Cronnola até 50.000 espectadores espremidos na arquibancada de Huntinghton Beach, quando ele rema para o outside, nós podemos sentir até uma mudança no ar. Vire sua cabeça por um momento e talvez voce deixe de ver o impossível tornando-se possível. Poucos surfistas tem esse poder que Mark Occhilupo possue…'.
2004, WCT, internet, TV a cabo, lugares idílicos, ondas perfeitas, câmeras digitais, computadores portáteis, comunicação.
A praia, como conhecemos, cada vez mais distante.
Elite.
Tempo é dinheiro.
Eficácia.
Dinamismo.
Machado, cadê Machado ?
Taylor Steele copiou o que fazia Paul Sargeant no seu Sarge’s Scrapbook, ondas ruins, manobras boas, música rápida, bastidores, péssimas imagens – o que interesa é o momento: Momentum.
Esse pedacinho insignificante do surfe precisa de proximidade para se alimentar.
Machado, com 32 anos, continua com adesivo no bico da prancha, surfa ondas boas quando quer, guarda remorso e rancor da ASP.
Bob boa gente nunca foi um lutador.
Dos 17 goofies no WCT, nenhum traz nada do bom Bob.
Occy ainda é o mais influente.
Nos 44 primeiros do WQS, 15 goofies, nem sombra do Machado.
Tem aquele Bob Martinez, que não é lá grande coisa…mas nem entre os 100 primeiros.
Uma questão grave: onde foi parar o legado do bom e velho Bob ?
E por que a ASP, nem ele, foram capazes de perpetuar um dos grandes surfistas que deram uma leitura diferente para nossas ondas ?
O que quer essa garotada, que nem se interessa em simular, e assim evoluir, a criatividade do Machado ?
Cada vez mais o surfe profissional se afasta do surfista comum.
Talvez seja mesmo nostalgia besta…
É possível que ninguem se importe.
