segunda-feira, junho 28, 2004

De Génios e Loucos

[Lá vai o Valente com suas duas paixões mais uma vez...]




De Génios e Loucos




Mané e a fila de Joões


Da última vez que estive no Brasil, um dos meus amigos de adolescência ofereceu-me o livro “Estrela Solitária” sobre a vida do genial futebolista brasileiro Garrincha, a quem muitos chamavam o “Anjo das Pernas Tortas”. Disse-me ele: “Toma. Conta lá para eles em Portugal que um dia existiu o Mané.”
Poucos em Portugal saberão hoje em dia quem foi Mané Garrincha. Mas entre os que sabem, muitos ainda consideram-no o maior génio criativo que o futebol alguma vez gerou. A sua celebrada arte da finta era a própria antítese do conceito de “finta”, no sentido em que esta implica o logro, o engano, o ludibriar do opositor. Garrincha não fazia nada disso porque Garrincha, com suas pernas tortas, na mais improvável combinação física com que um atleta já se apresentou ao mundo do desporto, fazia sempre o mesmo: saía pela direita. Os defesas já o sabiam, seus colegas já o sabiam e o público também. Garrincha parava à frente do seu opositor, mirava-o, atiçava-o e... saía pela direita. E ninguém o apanhava, a evidência do gesto a tornar ainda maior a humilhação de uma legião de defesas a quem Garrincha chamava singelamente de “joão”, não importando que fosse um monstro sagrado de uma qualquer poderosa selecção nacional, ou o pé-descalço do campinho onde o descendente de índios disputava suas “peladas” com os amigos. Para ele, eram todos “joão”. Garrincha coleccionou “joões” ao longo da sua carreira e fez história ao conquistar praticamente sozinho o Mundial de 1962, no Chile. Dizem os especialistas que só houve dois mundiais cuja conquista pode ser atribuída quase em exclusivo à genialidade de um só jogador: a de 1986, no México, que Maradona levou para a Argentina, e a de 62, que pertenceu a Mané.
Mas se Pelé é o Rei do Futebol, Mané Garrincha foi o seu príncipe negro. O passeio iluminado de um é a viela escura do outro. O primeiro subiu aos píncaros da fama, envergando o manto dourado das estrelas cintilantes. O segundo afundou-se no fundo das muitas garrafas de álcool que lhe afogaram o brilho da sua estrela solitária. A história não tem complacência para os que traem o seu destino e hoje, apesar de idolatrada pelos eruditos da bola, a memória da sua magia não vai além das estantes mais ou menos empoeiradas dos poucos que vêem no desporto algo mais do que uma forma de exercitar o corpo, de divertir os sentidos ou de ganhar a vida.




As pernas tortas do Garrincha


E porquê esta conversa toda sobre futebol? Será da febre do Euro? Também, certamente. Mas o motivo principal tem a ver com a recente leitura da biografia do australiano Michael Peterson, que estará para a prancha como Garrincha está para a bola. MP dominou o surf mundial na pré-alvorada do profissionalismo. E dominou-o como só está ao alcance dos grandes. A sua mera presença era o suficiente para desarmar os seus rivais. Estratega implacável, mestre do jogo psicológico, tecnicista peculiar que criava para si pranchas que ele e só ele conseguia domesticar, e com elas desmoralizava toda uma geração que procurava encontrar o seu espaço no novo jogo que se começava a desenhar. Mas, tal como Garrincha, MP tinha outro lado que as câmaras não mostravam. Não tinha a jovialidade nem a alegria expansiva do jogador brasileiro. Era uma personagem sombria, misteriosa, de presença intimidadora e olhar incisivo. O abuso intensivo e extensivo de drogas ajudou a disfarçar uma esquizofrenia tardiamente diagnosticada e enquanto as habituais vítimas da sua genialidade técnica e competitiva, os seus “joões”, triunfavam pelo mundo fora e cimentavam o nascimento do circuito mundial de surf com seus dólares, fama a rodos e reconhecimento internacional, o antigo “Rei de Kirra” afundava-se num remoinho de alucinações, paranóia e depressões.





The Morning of the earth cutback - referência

Talvez a história de MP tenha um final mais feliz que a de Mané. Para começar, ao contrário deste, Michael está vivo. Já não surfa e, nos seus 50 e poucos anos, vive dependente da sua mãe. Mas durou o suficiente para ver publicada a sua biografia e para ver o seu nome renascer das cinzas, ascendendo da categoria de lenda do passado à de mito vivo. E, porque cada desporto tem o ídolo que merece, viveu o bastante para ouvir da boca do próprio Kelly Slater, o “rei” maior do desporto dos reis: “MP, tu és melhor que eu”.



MP vira em Sunset a la Kanaiaupuni



Numa edição em que falamos do ensino do surf, pergunto-me se a educação sobre o passado do desporto não deveria fazer parte, senão do currículo, pelo menos das sugestões de leitura que os professores deveriam passar aos seus jovens alunos. Quanto mais não seja, porque uma das características determinantes das antigas “tribos” às quais os surfistas pediram emprestado a imagem comunitária, era o respeito pelos mais velhos e pelo conhecimento que estes carregavam dos seus povos, da sua história, dos seus génios e dos seus loucos. -- JV

sexta-feira, junho 25, 2004

Pelé, o Édson.

[Juro que não é preguiça, mas depois de ler o Ricardo Calil hoje no saite nominimo.com.br, deu vontade de publicar inteiro a crítica. Ainda não vi o filme.
Confio no Calil.]



Pelé: eterno, omisso e cafona



25.06.2004 |  Um filme sobre o mais elegante jogador de futebol da história pode ser cafona? Um filme que consegue resgatar 300 gols desse craque, quase todos brilhantes e muitos deles inéditos nas telas, pode ainda assim ser omisso? Um filme com texto de um grande cronista esportivo pode estar repleto de clichês futebolísticos?

Se esse filme for “Pelé Eterno”, documentário de Aníbal Massaini Neto que estréia hoje nos cinemas brasileiros, a resposta para todas essas perguntas é, infelizmente, sim. A produção consegue ser, ao mesmo tempo, imperdível pelo conteúdo que mostra, criticável pela forma com que mostra e imperdoável pelo que esconde.

Em primeiro lugar, o imperdível: o belo trabalho de pesquisa e restauro de imagens, que demorou cinco anos e percorreu o mundo todo. Graças a ele, o público poderá ver pela primeira vez no cinema a estréia de Pelé no Maracanã, aos 17 anos, jogando com a camisa do Vasco, em um combinado do Santos com o time carioca; a estréia de Pelé na seleção brasileira em 1957, também no Maracanã; e o gol mais rápido de sua carreira, com 30 segundos de jogo, contra o Corinthians, entre várias cenas inéditas.

Além disso, poderá conhecer melhor algumas histórias lendárias, muito bem ilustradas e comentadas, como a da expulsão do juiz colombiano que deu cartão vermelho a Pelé ou a da trégua na guerra entre dois países africanos para ver uma partida com o atleta. As cenas antigas têm o duplo poder de nos deixar maravilhados, ao vermos o maior jogador da história no seu auge, e melancólicos, ao lembrarmos como a bola de futebol parece muito menos redonda hoje em dia.

Agora, a parte criticável: texto e visual do filme são de uma cafonice ímpar. E vale a pena abrir parênteses aqui para a definição do “Aurélio” para cafona: “diz-se da pessoa que, com aparência ou pretensão de elegância, foge ao que convencionalmente é de bom gosto”. E, embora gosto sempre se discuta, as inúmeras passagens bregas que tentam parecer sofisticadas no filme deixam pouca margem a dúvidas.

A produção fez grande estardalhaço sobre a reconstituição em computador daquele que é considerado o gol mais bonito da carreira de Pelé, conhecido como o gol da Rua Javari. Pelé chapelou três jogadores e depois o goleiro do Juventus antes de marcar, sem que nenhuma câmera tenha registrado o feito. Essa passagem foi anunciada como uma revolução na animação gráfica brasileira. Na tela, porém, lembra uma versão piorada do game Fifa Soccer.

Esse não é um caso isolado. Todas as vinhetas eletrônicas do filme padecem da mesma deselegância indiscreta. E o documentário utiliza o tempo todo um recurso incômodo e dispersivo: enquanto são exibidas cenas antigas de jogos em preto-e-branco, surgem no canto direito da tela as cabeças coloridas de pessoas comentando as jogadas, como se tivessem sido guilhotinadas.

Além disso, as declarações de Pelé parecem ser, em sua maioria, decoradas e interpretadas. E, como ator, ele sempre foi um grande jogador de futebol. Assim, essas cenas lembram de forma constrangedora as propagandas que ele fez para o Viagra ou a Vitasay.

Já o texto de Armando Nogueira tem uma certa tendência ao parnasianismo da crônica esportiva de antigamente: “Pelé e a bola nasceram um para o outro e viveram um pacto de amor eterno”. Ou para o clichê puro e simples: “Quem é rei nunca perde a majestade”. Nas efêmeras páginas de jornal, pode até funcionar. Na tela, porém, a poesia do texto é pequena e redundante em relação à de Pelé.

Em outros momentos, a coisa descamba para a grosseria mesmo. Por exemplo, as metáforas futebolísticas que o filme usa para falar dos “gols” que Pelé marcou com as mulheres – algo muito apropriado para uma mesa de boteco, mas não para um documentário. Talvez a cafonice do filme como um todo, além de alguns momentos de cafajestismo, seja uma herança tardia da experiência do diretor Aníbal Massaini Neto como produtor de pornochanchadas nos anos 70.

Por fim, vamos à parte imperdoável: o documentário é uma cinebiografia autorizada, definida pelo protagonista como “a Bíblia do Pelé”, o que significa que qualquer coisa prejudicial a sua imagem foi deixada de lado. Nesse sentido, o filme é mais um esforço para separar o Édson do Pelé, o homem do mito, posição muito confortável para o jogador, mas que não permite a compreensão total de sua personalidade.

Sobre a polêmica carreira empresarial de Pelé, o filme trata apenas de pequenos negócios malsucedidos dos anos 60. Pelé conclui que seu problema sempre foi confiar demais nas pessoas (em sua recente participação na novela “Celebridade”, ele dá um recado parecido: “Manda dizer para a Maria Clara que eu também já fui traído, mas dei a volta por cima”). Nada é mostrado sobre as acusações de falcatruas contra as empresas de Pelé nos anos 90.

A respeito do uso de sua imagem por políticos, o filme se resume a mostrar Pelé ao lado de Juscelino e Jango, mas nunca junto aos presidentes da ditadura. Por outro lado, o documentário utiliza como trilha sonora, sem qualquer dose de ironia, o hino ufanista do governo militar, “Pra Frente Brasil”, na voz de Zeca Pagodinho.

Sobre a condição do negro no Brasil, o filme traz uma pomposa declaração de Pelé sobre seu orgulho racial, mas não cita que ele foi constantemente acusado de não se engajar na luta contra o preconceito. Sobre seus filhos fora do casamento, cita de passagem que ele reconheceu judicialmente a filha Sandra Regina, mas esquece de dizer que isso aconteceu a contragosto, depois de vários exames e de uma longa batalha judicial.

Mesmo seus pequenos pecados no futebol, como o hábito de revidar os pontapés ou simular faltas que não recebeu, são elogiados no filme como um exemplo de boa malandragem. Mas talvez o maior problema de “Pelé Eterno” seja a falta de generosidade. Em nenhum momento Pelé destaca, por exemplo, a importância de seus companheiros Edu e Coutinho no Santos, ou de Garrincha ou Tostão na seleção. É um filme com um protagonista e nenhum coadjuvante.

Apesar de todos esses problemas, os lances geniais e casos saborosos tornam “Pelé Eterno” um programa interessante não apenas para quem gosta de futebol, mas também para quem ama o cinema. Se, como definiu o cineasta Samuel Füller, o cinema é “emotion/ a motion” (emoção/movimento), não pode haver nada mais cinematográfico que um drible ou um gol do maior jogador todos os tempos.

calil@nominimo.ibest.com.br

sexta-feira, junho 18, 2004

Longe, perto

Atenção malandragem,
enquanto bato pernas pelo mundo afora, gastem o tempo que gastariam aqui no Blog irmão lusitano Ondas.
Fica um abrazzo e atè dia 24 pròximo...



  • Ondas Blog

  • quarta-feira, junho 09, 2004

    Russinho

    [Recado do Boca]

    Me desculpem avisá-los em cima da hora,
    mas o Rip de hoje é um programa especial em homenagem
    ao saudoso Roberto Valério !

    O programa, como sempre, vai ao ar em dois canais da NET :
    RIP
    Quarta-feira
    Sportv, canal 39, às 16:00h (inédito)
    Sportv 2, canal 38, às 22:00h (reprise)
    Quinta-feira
    Sportv, canal 39, às 00:30h (reprise)
    Sportv 2, canal 38, às 06:30h (reprise)

    Espero que voces gostem.
    Foi feito pela equipe da Unigraf TV com todo o carinho.
    Um grande abraço
    Ricardo Bocão

    Star wars





    We are smaller than the sea when we surf, bigger than ourselves when we ride waves

    Dorian Paskowitz
    Surfer Vol.19 Nr 5 - Setembro 1978

    Editorial






    Já faz tempo, o tempo do Pier, onde se pegava onda e pronto.
    Agora tem muita gente trabalhando no surf, vivendo do surf e pegando onda cada vez melhor.
    Se isso é bom ou ruim, depende muito das características pessoais, mas o fato é que há uma outra realidade para o surf daqui que deve ser enfrentada

    Editorial da extinta revista Brasil Surf, Ano 2, número 2, Set/Out 1976

    terça-feira, junho 08, 2004

    KILLER, COWARD, CON-MAN GOOD RIDDANCE, GIPPER ... MORE PROOF ONLY THE GOOD DIE YOUNG

    (Greg Palast fala a verdade, seu livro 'A melhor democracia que seu dinheiro pode comprar' saiu recentemente no Salvelindo e mereceu capa da Carta Capital. Aproveitando a ida do cowboy Reagan desta para melhor, Palast escreveu o texto que reproduzo abaixo, a quem interessar possa.
    De lambuja, pesquisa de preços do livro e link pro texto da Carta Capital.)

  • Pesquisa de preços no saite Bondfaro.com

  • Artigo da Carta capital sobre o lançamento do livro do Palast



    Sunday, June 6, 2004



    by Greg Palast



    You're not going to like this. You shouldn't speak ill of the dead. But in this case, someone's got to.



    Ronald Reagan was a conman. Reagan was a coward. Reagan was a killer.



    In 1987, I found myself stuck in a crappy little town in Nicaragua named Chaguitillo. The people were kind enough, though hungry, except for one surly young man. His wife had just died of tuberculosis.



    People don't die of TB if they get some antibiotics. But Ronald Reagan, big hearted guy that he was, had put a lock-down embargo on medicine to Nicaragua because he didn't like the government that the people there had elected.



    Ronnie grinned and cracked jokes while the young woman's lungs filled up and she stopped breathing. Reagan flashed that B-movie grin while they buried the mother of three.



    And when Hezbollah terrorists struck and murdered hundreds of American marines in their sleep in Lebanon, the TV warrior ran away like a whipped dog … then turned around and invaded Grenada. That little Club Med war was a murderous PR stunt so Ronnie could hold parades for gunning down Cubans building an airport.



    I remember Nancy, a skull and crossbones prancing around in designer dresses, some of the "gifts" that flowed to the Reagans -- from hats to million-dollar homes -- from cronies well compensated with government loot. It used to be called bribery.



    And all the while, Grandpa grinned, the grandfather who bleated on about "family values" but didn't bother to see his own grandchildren.



    The New York Times today, in its canned obit, wrote that Reagan projected, "faith in small town America" and "old-time values." "Values" my ass. It was union busting and a declaration of war on the poor and anyone who couldn't buy designer dresses. It was the New Meanness, bringing starvation back to America so that every millionaire could get another million.



    "Small town" values? From the movie star of the Pacific Palisades, the Malibu mogul? I want to throw up.



    And all the while, in the White House basement, as his brain boiled away, his last conscious act was to condone a coup d'etat against our elected Congress. Reagan's Defense Secretary Casper the Ghost Weinberger with the crazed Colonel, Ollie North, plotted to give guns to the Monster of the Mideast, Ayatolla Khomeini.



    Reagan's boys called Jimmy Carter a weanie and a wuss although Carter wouldn't give an inch to the Ayatolla. Reagan, with that film-fantasy tough-guy con in front of cameras, went begging like a coward cockroach to Khomeini pleading on bended knee for the release of our hostages.



    Ollie North flew into Iran with a birthday cake for the maniac mullah -- no kidding --in the shape of a key. The key to Ronnie's heart.



    Then the Reagan roaches mixed their cowardice with crime: taking cash from the hostage-takers to buy guns for the "contras" - the drug-runners of Nicaragua posing as freedom fighters.



    I remember as a student in Berkeley the words screeching out of the bullhorn, "The Governor of the State of California, Ronald Reagan, hereby orders this demonstration to disperse" … and then came the teargas and the truncheons. And all the while, that fang-hiding grin from the Gipper.



    In Chaguitillo, all night long, the farmers stayed awake to guard their kids from attack from Reagan's Contra terrorists. The farmers weren't even Sandinistas, those 'Commies' that our cracked-brained President told us were 'only a 48-hour drive from Texas.' What the hell would they want with Texas, anyway?



    Nevertheless, the farmers, and their families, were Ronnie's targets.



    In the deserted darkness of Chaguitillo, a TV blared. Weirdly, it was that third-rate gangster movie, "Brother Rat." Starring Ronald Reagan.



    Well, my friends, you can rest easier tonight: the Rat is dead.



    Killer, coward, conman. Ronald Reagan, good-bye and good riddance.






    Greg Palast is author of the New York Times bestseller, The Best Democracy Money Can Buy. www.GregPalast.com

  • sexta-feira, junho 04, 2004

    Baralho

    (Recebi um imeio intrigante do camarada MP, pedi permissão e publico aqui para ouvir as sugestões...)





    Eu aposto 500 dolengos no Daltro para chegar em J. Bay...



    E aí Júlio!!!

    Queres saber mais uma que me ocorreu, enquanto analisava os artigos sobre Fiji? Aquela descrição do Sarge, sobre os jogos de poker dos nossos queridos amigos americanos na ilha de Tavarua, enquanto esperavam extremamente entediados pelas ondas que teimavam em não aparecer?! Lembras-te? Os bacanos ficaram tão entusiasmados com o jogo de cartas que começaram a colocar dinheiro na mesa?!... E o Sarge até comentou que se via bem qual a ilha americana e qual a australiana, uma vez que em Namotu jogava-se... rugby, ou algo parecido!...

    Pois é! Aqui o Tuga ficou a pensar na facilidade com que os americaninhos bem pagos e mimados esbanjam o dinheiro fácil dos seus patrocinadores em joguinhos fúteis, em comparação com o sufoco que o top 45 brasileiro Armando Daltro passa todos os dias para poder correr o circuito para o qual se classificou com mérito e mesmo assim não conseguiu ir para esta etapa, por causa do preço da estadia!!!

    Então pensei como seria bom que esses meninos mimados pudessem agarrar nesses "trocos" e oferecer ao Armando, para que ele pudesse competir contra eles e, quem sabe, "devolver-lhes o empréstimo com juros"!!! Isso sim, seria ajudar uma causa, a deles, dos top 45 como classe ou elite real! Isso seria realmente "put your money where your mouth is!"


    Quem deixar a bola cair perde o patrocínio!



    Tanta injustiça, meu deus! Será que o Slater não se lembrou dessa ainda, da mesma forma que resolveu pagar do seu bolso para convidar os amigos a pensar em novas fórmulas para o surf competitivo, lá nas Fiji também?! Eis, aliás, a grande diferença entre ele e AI, a tal diferença entre o surfista culto e o surfista cultivado!!!

    Desculpa lá estas deambulações mentais, mas és das poucas pessoas que ainda as percebe! Abraço!


    MP

    quinta-feira, junho 03, 2004

    Contra fato, há Argumento (clica aqui e vá para o saite)

    Quer um livro da série do Surfers Journal ?
    O último do Drew Kampion ?
    Passa na Argumento.
    Minha livraria predileta agora resolveu publicar uma revista fundamental.
    A capa do número 4 leva a Fernanda Guerra, novinha, posando com sua prancha no Arpoador.
    O conteúdo, especiaria cada vez mais rara nas nossas publicações, traz um gostinho de sal delicioso.
    A coluna Crônica da foto é o famoso texto do Jack London, Um esporte de reis.
    Temos Antônio Maria e Sérgio Augusto.
    De tudo um pouco, poesia e prosa mareadas pelo calor do Rio.
    Vinícius está lá.
    Logo de saída, no primeiro número, na seção cartas célebres, Ênio Silveira ensina uma regrinha básica pouco difundida na imprensa atual: 'Um editor publica, isto é, torna público tudo que faz.'
    Na terceira edição, Pelé na capa, o texto de Roberto Arruda fala de um rei esquecido, ofuscado pelo furão Edson.
    Enquanto a lei da propaganda empurra as hordas para a livraria da Travessa, mais parece uma loja de conveniências, com seus milhares de livros e CDs que emprestam aos bem nascidos desocupados uma aura de sabedoria.
    Na contra mão dos excessos, a Argumento ostenta bom senso.
    É possível adquirir a revista pelo saite da livraria clicando no título.
    Leia o que Júlio Daio Borges escreveu sobre o primeiro número da revista -
  • Digestivo cultural
  • quarta-feira, junho 02, 2004

    Zebra



    Vitinho já fez um bonito em Fiji em 1999, perdendo pro Occy por pouco. Desta vez é o A.I., será que dá ? eu arrisco na zebra de Cabófra!


    Hoje tem clássico!
    Enquanto a turma enche a moringa assistindo Brasil X Argentina, uma meia dúzia de tres ou quatro estarão colados na tela do computador torcendo pelo Victor Ribas contra o Irons.
    De uma tacada só, Vitinho já embolsou Egan e Slater em 1999 no ano em que eles estavam rente que nem pão quente, lá mesmo, em Fiji, enfrentando Occy justo quando o cabra estava pra ser campeão mundial.
    Analisar o resultado depois que acontece é mole. Quero ver é dar a latinha a tapa e fazer previsão...
    O ridículo ronda quem arrisca.
    Seria delicoso ver a carranca do Andy depois de levar uma varada do Gambazinho.
    Alguem já reparou como Andy sempre parece infeliz, enfadado, nas fotos que ilustram os 'press releases' ?
    Logo agora, quando o discurso, decorado, do momento é: 'quero apenas me divertir...'
    Ninguem se diverte quando compete, me perdoem.
    Competição requer concentração, determinação, superação.
    Divertimento é outra estória.
    Vamos Vitin!
    Pex, pex, pex...!!!!

    A Bela e a Fera

    Mais uma do portuga...desta vez o editorial da edição dedicada à pranchas.





    Ilustração do magnífico Rick Griffin para a marca de pranchas do não menos espetacular Greg Noll - reparem no autógrafo embaixo!






    Drop

    A Bela e a Fera

    Tenho uma confissão a fazer: não sei ler uma prancha de surf. Sei pegar nela e simular toda a coreografia de quem a observa com olhar cirúrgico. Viro-a e reviro-a com perícia e discernimento; miro-a de perfil, a partir do nose, a partir do tail; verifico o encaixe das quilhas e a configuração do fundo; sinto o volume e o formato dos rails, ponho-a debaixo do braço e, ultimamente, profiro o meu veredicto. Mas não faço a mínima ideia se aquilo que o instinto me diz tem correspondência na realidade, se as linhas que me correm com fluidez escorreita sob a mão, irão escorregar de igual maneira sobre a superfície aquática de uma onda.
    Mesmo assim, não hesito em realizar todo o meu cerimonial de apreciação táctil cada vez que encontro uma prancha que me atrai o olhar como um perfume capta os sentidos. Porque, em todo o surf não existe acto mais sensual do que o manuseamento de uma prancha de surf. Esqueçam as associações eróticas com os tubos ou as manifestações hedonísticas dos mais belos exemplares da nossa comunidade. Nada supera o acariciar daquelas formas, a impressão libidinosa do encaixe perfeito entre a mão e a axila, a fibra de vidro endurecida pela resina como matéria pulsante, a pedir para ser conquistada, abusada e amada. Como compreendo um amigo meu que até ao teste final de uma prancha nova, dentro de água, dorme com ela ao lado da cama, observando-a, tocando-a, alisando a sua superfície, num perverso ritual de acasalamento.
    Uma prancha, para mim, é como uma mulher: fascinante e misteriosa, atraente e dissimuladora. Debaixo das suas formas harmoniosas, pode esconder-se a companheira fiel ou a traidora implacável, a celebração da nossa existência ou a ruína dos nossos sonhos. Invejo os que sabem desvendar os seus segredos com um olhar. Aqueles que não se deixam enganar, que têm domínio absoluto sobre o seu comportamento futuro, que não se deixam enganar por encantos falsos, adivinhando à partida se estão diante da bela ou da fera.
    Deveria ser proibido alguém ter simultaneamente uma prancha má e uma companheira (ou companheiro, que isto vale para ambos os sexos) desleal. E, pelo menos uma vez na vida, todos merecemos estar plenamente satisfeitos com ambas, sendo obrigados a gerir com habilidade e diplomacia a sempre difícil relação entre os dois sujeitos da nossa paixão. Mas felizes a cada passo do caminho. – JV