terça-feira, novembro 30, 2004

Mineiro e Saca


Saca tenta em 2000, deixa Andy pra trás em Sunset, perde por pouco pro Nêgo Sunny e agora vê a vaga, tão perto!, lhe escapar por entre os dedos.


A turma aqui gosta mesmo é de reclamar.
Passa ano, entra ano, jornalistas iradinhos exercitam sua indignação fazendo coro com a horda para acumular mais alguns pontinhos com os leitores, xingando a gringaiada de racistas, alardeando o quão injustiçados somos, pobrezinhos de marré deci, esse povo tão valente e colonizado, brasileiros - com muito orgulho!
Essa mesma turba se alimenta como hienas quando algum patrício falha em competição importante, revelando o quanto falíveis todos somos capazes de ser.
Aconteceu com Vitinho em Pipe. Agora, nesse exato momento, no saite Waves , uma chuva de acintes e necedades (Eba!) assola o grupo de discussões acusando a nossa última 'maior esperança' de amarelão pra baixo.
Não perdem tempo em descascar o garoto - dá-lhe Mineiro!- , que nem teve tempo de ganhar merecidos parabéns pelo 17º que conseguiu em Haleiwa, deixando os queridinhos da imprensa americana Chris Ward e Bobby Martinez a ver jet skis e se tornando o mais jovem brasileiro desde Peterson Rosa em Sunset, 1990, a fazer algo que preste nas Ilhas com tão pouca idade.
Esses carniceiros não concedem sequer o benefício da dúvida, logo partem para o ataque com suas garras sujas de vergonhas de se enxergarem em personagens que tem o dever de atuar como super-heróis, sempre.
Na verdade, o medo maior é de ser apenas brasileiro.
Só vale a pena vestir essa camisa se for pra ser campeão- assim pensam os pobres de espírito.
Por outro lado, na borda sul do Atlântico, nossos irmãos portugas incentivam com belas palavras o seu guerreiro solitário, Tiago Pires no Blog Ondas , faço questão de reproduzir aqui os comentários feitos diante da notícia que o Saca tinha falhado mais uma vez, recheados de esperança no camarada que luta para representar seu país no mundo do surfe.
Gostaria de ler coisas assim por aqui.



Vai Tiago!!!
Para o ano cá estaremos outra vez, torcendo por ti.
E obrigado por não desistires.

Afixado por hp em novembro 30, 2004 12:11 PM



FORÇA SACA!!!!! NÃO PUDEMOS DESANIMAR!!!! FORÇA!!!

Afixado por Eri78 em novembro 30, 2004 12:16 PM



Mais uma vez, assino por baixo. Um abraço ao Tiago.

Afixado por MCG em novembro 30, 2004 12:45 PM



Nem há que desanimar, todos sabemos que ele é o melhor surfista português e está a fazer o seu melhor, mas muitas vezes as coisas não correm bem. Já muito ele faz! Enche-nos de orgulho, como dizia o Nuno ontem, orgulho à trupe surfista portuguesa! Força Saca!

Afixado por dias em novembro 30, 2004 05:06 PM



Ora nem mais sr. dias...nem mais.
FORÇA SACA!!

Afixado por Filipe MATIAS em novembro 30, 2004 05:18 PM

E o Fia dobra os cabras novamente... (Clica e leia)



And then there's Brazilian Fabio Gouveia, who won this event in 1991 and is currently starring in a much-lauded biography film called Fabio Fabuloso. The 35-year-old, Currenesque regularfoot continued his winning ways today, and is hoping an O'Neill World Cup victory will catapult him back on the elite tour. "I've taken my break and am ready to do this again," says the longtime 'CT vet. "As soon as you're relaxed about it, good things just….happen."
diz a revista Surfing onlaine

Ser tão carioca

[Paulo Roberto Pires sabe tudo do riscado. MPB, BMP, MBP, ou qualquer sigla de cismarem de inventar, ele traça e transforma em texto pro saite nominimo.com.br, cada texto seu vale os graus de miopia que custarão mais tarde de tanto apertar os olhos nessas merdas de monitores que roubaram nosso tempo lendo jornais.
Seus 'petardos' (minha homenagem aos jornalistas que, ao contrário do Pires, eternizam expressões medíocres como que devora um manual de redação) que duvagam sobre a 'nova cultura carioca' são imperdíveis.
Clica no títtulo e leia os outros nove do manual...vai!]

O carioca de almanaque

X – No fundo, o carioca de almanaque detesta a espontaneidade e a alegria. Por isso as transforma em obrigação e militância. Assim, aos poucos, vai matando o carioca que sobrevive, esquálido, ente um clichê e outro.

(Paulo Roberto Pires)

sexta-feira, novembro 26, 2004

Junior Baiano salva casamento

[Numa tarde de jogo do Flamengo tudo pode acontecer, mesmo cometer um conto.
Exercício de fantasia temperado de realidade.
Aproveitem.
Júlio]



RITUAL
O ritual tinha sido religiosamente seguido à risca: a velha camisa rubro-negra, a cerveja no mesmo copo de sempre, posicionamento impecavelmente imitado aos últimos 25 anos.
Dera certo algumas vezes- por que diabos não daria certo agora ?
Juíz apita o início da peleja, primeiro gole na cerveja, nada pode dar errado hoje, ai meu Deus do céu! primeiro ataque do Galo, atacante entra sozinho, Junior Baiano faz falta.
Cartão vermelho, expulso de campo, dois minutos de jogo.

4 HORAS
Todo Domingo é a mesma coisa, ele coloca aquela camisa velha e xexelenta do Flamengo, ô corzinha feia, chega a feder de tão usada. Me pede pra colocar duas cervejas no congelador, dá um beijo na minha testa e diz que me ama.
São quinze pras 4, antigamente era mais tarde, cinco horas, agora adiantaram pra não atrapalhar a programação da Globo, Wânia! Traz amendoim.
Levo amendoim salgadinho pra ele comer vendo o jogo e tomando cerveja.
Já sei que se o Flamengo perder ele emburra e não fala mais uma palavra até Segunda-feira.
Quando ganha, sai pra beber na rua e só volta tarde da noite – bêbado.
Não aguento mais.
Ouço um grito de horror, segue uma lista infindável de xingamentos e palavrões que faria corar qualquer papagaio de anedota.

SESSAO DA TARDE
Filudumaputa do Junior Baiano foi expulso de campo! Dois minutos de jogo!
Flamengo corre risco de rebaixamento e esse corno me apronta uma dessas.
Gol do Atleetico Mineiro.
Vai tomar no seu cú, Junior Baiano.
Quer saber ? vou convidar a patroa pra assistir aquele filme que tá levando aqui ao lado.
Eu que não vejo mais um minuto dessa merda de jogo.
Ela vive mesmo reclamando que a gente nunca sai aos Domingos, e Sábado não tem jeito, é dia de pelada.
Sujeito trabalha a semana inteira, merece lazer do final de semana, não é verdade ?
Vamos arriscar aquele filme que a moça do O Globo recomendou, Bonequinho batendo palmas, diz que trata de amor, um casal discutindo relação, parece que tá na moda esse trem.
Relação pra mim se discute na cama.
Amor é contas pagas no fim do mês e pau duro.
Vou puto ao cinema, mas faço qualquer coisa pra agradar a patroa – ‘inda mais quando um escroto feito o Junior Baiano fode com o Flamengo assim.

ANTES DO ENTARDECER
Nem faço idéia do que deu nele, desligou a tevê e falou pr’eu me arrumar que a gente ia ao cinema ver aquele filme que já ando namorando faz é tempo.
Parou de beber, tomou até banho e colocou perfume – hoje tem.
Eu acho tão romântico ir ao cinema Domingo de tarde…
Quando começamos a namorar, todo Domingo era dia de cinema, a gente ficando bolindo naquelas poltronas confortáveis, cada amasso…
Tinha pipoca, Frumello e Fanta, mas bom mesmo era beijo – cada chupão de novela!
Li cada coisa bonita do filme no jornal, a mulher e o homem da revista diziam que era filme pra não se perder, que o amor do casal durava sete anos (desconfiei dessa parte, sete é conta de mentiroso) e que tinha começado noutro filme.
Nunca vi o outro.
Vou calçar aquela sandalinha que ele adora e vestir uma saia curtinha – não posso esquecer o casaco, ai que faz um frio naquele cinema...

DOIS MINUTOS
Quero que se foda o Flamengo. Vou tratar da minha vida que a vida desses muquiranas já está ganha. A patroa anda meio esquisita ultimamente, diz que não compareço mais com aquela vontade do início, são mais de vinte anos juntos, queria o quê ?
E o Flamengo já não é o mesmo…
Em 81 o Mengão era campeão mundial, ganhava tudo que disputava, até par ou ímpar.
Eu era o cara mais feliz do mundo, tinha uma namorada gostosa pacas, torcia pro Flamengo e, feito na música do Jorge Ben, dirigia um Fuscão 76, com rodas de magnésio.
Ninguem podia comigo- nem com o Mengão.

PLUMA
Bonito mesmo esse ator, um pão, quando conheci o Gilberto ele era bonitão assim, bem mais novo e mais forte. A menina é meio magrelinha, parece que tá doidona de fumo, lembra umas modelos que a gente vê no GNT, tudo com problema de bulimia, diz que comem e vomitam tudo para não engodar.
Eu li na revista.
Povo tão evoluído, ele escritor, ela ativista, o papo é tão gostoso, não sabia que discutir relação era bacana desse jeito.
Fiquei curiosa pra ver o primeiro filme, diz que passa em Veneza, igual as Casas Veneza, né ?
Elegante que só, o escritor, nunca levanta a voz, Gilberto vive gritando comigo: Wânia! Traz o almoço! Wânia, joga minha chuteiras pela janela!
É Wânia isso… Wânia aquilo… pra cá e pra lá.

PARIS
Cada parque legal nessa tal de Paris aí, dava pra bater cada pelada…
Ninguem joga bola nessas pracinhas não ?
Esses cara tem pinta de viado, escritor é tudo boiola, né ?
A mulher é magrela, nem peito, nem bunda, e ainda por cima trabalha com negócio de ajudar os outros.
Uma conversa mole, um tal de falar de passado e reclamar do presente, não sai um tiro, um soco, nada.
Acho que esse cara já passou o rodo nessa magrinha, pelo jeito ela gostou, senão nem procurava ele de novo.
Até o final do filme ele come ela.
Quanto deve tá a merda do jogo ?
Junior Baiano filudumgradissíssimocorno.

6 X 1
Fui no banheiro limpar o rosto, nunca gostei de chorar na frente dele, manchou o lápis do olho, aproveitei pra perguntar quanto tava o jogo: 6 x 1.
Gilberto vai ficar pê dentro da roupa quando souber do resultado.
Tomara que ele não ligue.
Ai, será que eles terminam juntos ?
Ela finge que não quer nada, mas dá pra ler nos olhinhos que tá perdidinha por ele – ele por ela tambem.
Tô achando meio chatinho esse filme, mas mil vezes melhor do que ficar em casa lavando louça do almoço em pleno Domingo.
Será que ele vai conquistar ela no final ?

O GALO
Quanto deve estar o jogo ?
Júlio Cézar segura tudo lá atrás, vai garantir a turma.
Será que Jean e Dimba desencantam ?
Sou do tempo do Zico.
A gente era Zico e Flamengo, nessa ordem.
Esse tinha sangue rubro-negro, lutava até o fim – e era franzino, hein ?!
Cara de babaca, esse escritorzinho aí, se fosse eu… como conversam esses dois!
A Wânia gosta muito de conversar, quando pega no telefone é um Deus nos acuda.
Vai entender essas mulheres. Por que essa gente conversa tanto ?
Homem não conversa, homem bebe.

FIM
Gostei do final não. Meio brusco, sem graça.
Essa lenga-lenga toda não deu em nada.
Diz que o filme era tão inteligente e tal… Sei de filme inteligente não.
Quer dizer que esse povo vive de conversa ?
Gostei de Paris, um dia quero conhecer, vou tentar convecer o Gilberto.
Mas foi muito bom quebrar a rotina e ir ao cinema com meu amorzinho.
Homem feito o meu, não tem.

SALGADA
Merda de filme, mas foi melhor do que ficar em casa vendo aquela pelada.
Wânia é que é mulher de verdade, de trezentos talheres, cama, mesa e banho.
Quanto mais vejo essas frescas no cinema, mais amo minha patroa.
Fiquei com um tesão do caralho.
Tava imaginando mais ação no filme, mulher pelada e tal.
Hoje vou dar uma salgada na carne da patroa.
Quanto deve ter sido o jogo ?

quinta-feira, novembro 25, 2004

Dois Cabras e uma coroa

Pigmeu fazendo final em Haleiwa não lá grande surpresa, Fabinho perdendo na semi surfando do jeito que surfou durante todo evento, isso sim foi um susto.
Quem acompanha um pouco mais de perto o circuito, sabe que um Pigmeu, um Trekinho, um Raoni, pode fazer uma final e arrastar qualquer campeonato do mundo.
Digo qualquer campeonato e já me apresso para afirmar: de Pipeline até Nijima.
Caso alguem tenha perdido o bonde, é bom lembrar que Pigmeu e Fabinho devem ser convidados para o Pipe Masters pelo simples fato de que, pontuando em treceiro e quinto, entram imediatamente na corrida à coroa do Triple Crown.
Se não forem convidados (o que duvido), vai soar preconceituoso, que tambem não é novidade quando falamos de surfistas brasileiros.
De todos surfistas que já estiveram no WCT, Fia é o que mais evoluiu em Pipe- aqui cabe uma menção ao Bronco, que tem a atitude mais condizente com seu apelido: Animal- tanto pra esquerda, quanto pra direita, sempre tentando ficar mais fundo e dropar mais atrasado, mas levo mesmo fé é em Sunset, onde Fabinho tem uma identificação enorme e, apesar de ter vencido num mar que nem pode ser chamado de Sunset Beach (tava mais para Sunset Point), tem se destacado a cada ano com desempenhos de levantar as sobrancelhas mais exigentes.
Uma excelente colocação em Sunset antecipa a volta do Fia ao WCT num ano que ele aproveitou para descansar - mais um capítulo da fábula.
Bernardo Pigmeu já está sendo apontado pelo sîtio do Triple Crown com grande revelação.
Quando se escreve sobre brasileiros em Pipe, sempre é alardeado o 10 do Renan como único 10 em Pipe na história do surfe nacional, mas pouca gente se recorda do 10 que o Pig arrancou, de backside, num mar difícil, em 2002 - levem em consideração que esse evento era local e brasileiros nem sempre são, err...bem-vindos.
Curioso, aliás, é o pouco, ou nenhum, interesse que a brasileirada tem pelo Triple Crown, um dos eventos mais prestigiados da nossa comunidade, senão o mais importante de todos.
Reconheço que deve ser quase insuportável tentar surfar Sunset ou Pipe em plena temporada, ainda mais com essa horda de covardes que infesta a Ilha atualmente, mas nunca foi muito diferente - Rabbit, o presidente, teve todos seu dentes arrancadados na base da porrada quando acusou os locais havaianos de bairristas ainda na longínqua década de 70.
Uma semi final em Sunset garante a vaga do Pig no WCT em 2005 e o deixa numa confortável posição no ranking da tríplice coroa.
Vamos torcer.
Neco dificilmente perderá o título de WQS.
Andy Irons, o imbatível, acumula duas derrotas para brasileiros no WQS em 2004: uma pro Pigmeu na Austrália e agora, rufam os tambores, Trekinho em Haleiwa.
Não se iludam, A.I. vai usar de toda sua força para vencer uma das jóias da coroa.
E por falar em jóias, Tom Curren na primeira fase de Sunset.
Mais um chance de aprender um truque, ou dois...

segunda-feira, novembro 22, 2004

A MAIOR EMOÇÃO DA MINHA VIDA

[Sim, reconheço o atraso, o desleixo e o descaso que tenho dedicado ao Goiabada mas tento recompensar o tempo perdido com uma semana dedicada ao esporte das multidões.
Inaugurando, meio tarde nessa segunda-feira incerta, lhes apresento um novo amigo que já veio com jeito de velho amigo.
Léo é flamengusita, ponto.
Mas tambem é surfista (merece outro ponto), porém aqui cabe uma vírgula, vejamos mais adiante porque.
A crônica carioca é algo encontrado facilmente nas livrarias assinadas por Rubem Braga, talvez fundada por João do Rio, eternizada pelo grande (em todos aspectos) Antônio Maria e caracterizada pelo Sérgio Porto na forma do Stanislaw Ponte Preta.
Tem mais gente.
Na verdade, tem gente que não acaba mais.
Nos anos 80, teve um cronista muito popular que escrevia semanalmente no finado Jornal do Brasil - digo finado porque o JB de lá não guarda mais nada do JB de cá-, chamava-se Carlos Eduardo Novaes e tinha o melhor humor que um garoto de 15 anos era capaz de alcançar.
Reconheci um pouco do Novaes do Cândido Urbano Urubu e das crônicas do Flamengo no texto do Léo.
Fiquei comovido, mas não deixei de dar boas risadas.
Léo Barroso é tambem advogado, mas essa assinatura tem sido, ultimamente, precedidas por Flamenguista e surfista.
O texto é uma homenagem ao seu irmão Ricardo, Flamenguista, Surfista e advogado, que não tive a sorte de conhecer.]


Pet comemora o gol mais importante de sua carreira

A MAIOR EMOÇÃO DA MINHA VIDA

Antes de qualquer mal-entendido, e de que tome uma bronca da patroa, quero dizer que até hoje, a grande emoção de minha vida foi nosso casamento. Mas o casamento é uma grande emoção que vem aos pouquinhos, em várias pequenas doses, desde o pedido em si, da marcação da data, até a chegada do grande dia, a festa e tudo mais que vem de bom depois. É mais ou menos como um grande porre resultado de várias doses modestas, contudo constantes, de whisky durante uma festa. Nunca conseguimos lembrar do momento específico no qual ficamos bêbados, é o somatório de todos goles que nos derruba. Disse até hoje pois ainda não temos filhos, que dizem ser a maior emoção de todas, então posso apenas supor, no entanto sem grandes certezas, que a emoção da paternidade também deve estar no resultado da soma de muitos momentos mágicos, ao longo de muitos anos.

No entanto, a emoção que conto aqui não é nenhuma destas tradicionais, importantíssimas, porém que adquirimos em suaves prestações ao longo do tempo, mas sim daquelas que vêm toda num só jorro de adrenalina, endorfina ou sabe-se lá que outras inas. Cai como um raio sem aviso. Aquela explosão de emoção-bomba avassaladora, homicida até, pois se o coração de quem a sentiu não for forte, dá boot na mesma hora.
- Coitado, morreu de que?
- Pela cara, de alegria!
Contudo, aparentemente, o meu conseguiu sobreviver sem grandes seqüelas, já que ainda bate no meu peito enquanto escrevo, mas confesso que nem sei como resistiu, já que, como vou relatar aqui, a emoção que senti foi destas de arrancar os olhos das órbitas e as meias dos pés.
Dito isso, tecnicamente talvez o título devesse ser "a emoção mais arrebatadora da minha vida", ou "a mais explosiva", mas como ficaria um troço meio afrescalhado, fica mesmo o título que já está.

Ainda nas preliminares, também já tinha recebido ótimas notícias na minha vida que trouxeram emoções fabulosas, como quando soube que minha mulher, na época ainda namorada, havia sido resgatada sã e salva depois de um dia e uma noite perdida na Floresta da Tijuca. Ou quando eu próprio consegui encontrar nosso cachorro após ele ter ficado perdido (já virou tradição na família) vagando por toda Itaipava por uma noite inteira, com direito a relatos de seu atropelamento no meio da busca. Mas finais felizes como esses são sempre esperados, já que é nosso dever manter sempre o pensamento positivo nessas horas, nem imaginando desfechos diferentes. No entanto, a emoção sentida que vou contar agora, não trouxe resultados tão importantes quanto aquelas, chega a ser uma besteira até. Mas talvez seja exatamente por essa sua diferença das demais, por se tratar, ao contrário das outras, do inesperado e do imponderável, combinado com uma experiência quase mística, que a fez ser tão marcante e tão avassaladora.

Então, sem outros desvios ou retornos, passemos à tal maior emoção da minha vida.

Aconteceu em 27 de maio de 2001. Naquela tarde de domingo, como na música, fui ao Maracanã, acompanhado, como sempre, pelo Meio Quilo, amigo de duas décadas e companheiro da tantos carnavais fora de época que o Flamengo nos proporciona nas arquibancadas do maior do mundo. E o carnaval daquela tarde prometia. Era a finalíssima do que poderia ser o tri estadual.

Era um dia muito especial para mim. Mesmo se o Fla conquistasse o título, contra todas as previsões dos que taxavam o Vasco como favorito, ainda mais contando com a vantagem de poder perder pela diferença de um gol, seria a primeira comemoração de título que, por causa dessas porradas que a vida de vez em quando nos dá, não poderia telefonar para a primeira pessoa para a qual sempre telefonava nas conquistas do Flamengo: meu irmão Ricardo, que em datas como essa sempre atendia ao telefone já dizendo "Mengão campeão, boa noite!". Ricardo sempre combinava de me encontrar nas comemorações no Clipper após os títulos, mas depois de tanta emoção e cerveja, o sono batia e ele acabava furando nossa arruaça na rua e comemorava em casa mesmo, com seus filhos pequenos. Então, voltando ao grande dia, entrei no estádio com uma latinha na mão, meu amigo do lado e meu irmão no coração.

Aquela experiência mística que mencionei já começava a se anunciar. Antes, abro parênteses: sou ateu ortodoxo, agnóstico praticante, cético de carteirinha e descrente fanático. Encarno em quem vai à cartomante, saio de perto de papo sobre "outras vidas", não sei nem quero saber qual é meu ascendente, e só jogo tarô se for no lixo. Explicada então à minha suscetibilidade natural a experiências místicas, fecho parênteses. Sentamos atrás do gol da torcida do Flamengo. Para quem não sabe, ali fica a arquibancada verde, a mais popular, já com seus assentos individuais de plástico recém instalados, em um dos lugares mais crowdeados do Maraca. Imagina então numa final, contra o Vasco, valendo o tri. O tri! Pois bem, o Estádio Mário Filho foi lotando, aquele mar de gente inundando as duas torcidas, público anunciado de 60.038 pessoas, o Meio do meu lado direito, e o assento do meu lado esquerdo... vazio. Sessenta mil pessoas se apertando lá e aquele assento vazio. Cacete! Até o cara mas antiesotérico do mundo ficaria meio bolado com um negócio desses. Então tá. Negócio fechado. Ali era o lugar do meu irmão e não se fala mais nisso.

A bola rolou no solo sagrado, e eu fiquei ali, conversando com a boca para o lado direito, e com o pensamento para o esquerdo. A nação rubro-negra ali presente, fazia barulho, mas, considerando que é sempre a que dá mais espetáculo, de um jeito meio tímido. Um esporro baixo, meio ressabiado. Afinal, ter que ganhar de dois gols de diferença numa final é soda. E a bacalhoada do outro lado fazendo a festa, já contando com a taça na mão. Só que aos 21 minutos de jogo, explodiu a torcida do mengão. Pênalti convertido pelo Edílson. A festa passou de lá para cá, até o Juninho Paulista empatar aos 40. Banho de água fria para o intervalo. Hora de comentar o jogo e xingar todo mundo da partida. O segundo tempo começou e logo aos 8 minutos, o Petkovic que nos treinos nem olhava para cara do Edílson, no jogo olhou para a testa dele, e botou a bola, num cruzamento em câmara lenta, bem no meio dela. Com todo o açúcar. E a testa do Capeta, agradecida pela doçura, empurrou a bola para as redes. Valeu a esperança, a alegria voltou à nossa torcida. Depois dos abraços no Meio e em mais uns 20 desconhecidos, comemorei silenciosa e particularmente com meu irmão ali do meu lado. Até que o tempo foi passando e ninguém comemorava mais, nem de cá, nem de lá. A cada minuto que passava a torcida do Vasco da Gama ficava mais perto do título, mas a ferida de um bi-vice ainda aberta e o temor de um gol algoz durante a pressão que o time rubro negro fazia, deixava a todos calados. A torcida do Flamengo, por sua vez, ansiosa por um milagre, um gol salvador nos últimos minutos também não emitia um som. Talvez porque estava toda ela rezando. Toda ela menos eu, que sou ateu. Ou era, já nem sei mais. Sessenta mil pessoas lá oprimidas por uma calmaria pesada no ar silencioso. Mas era a famosa calmaria que procede a tormenta. Em alguns poucos minutos, qualquer um dos dois lados do Maracanã expulsaria o silêncio com o grito de "é campeão".

Então finalmente, depois de 8 parágrafos, chegamos àquela já famosa maior emoção da minha vida. Estava lá eu sentado, a cinco minutos do fim da partida. Desesperado. Eu e a torcida do Flamengo. E nesse caso, a expressão fica com um significado ainda maior: eu, a torcida do Flamengo e a torcida do Vasco. Desespero geral. Falta para o Fla bater. Como toda a falta perigosa em final de jogo, confusão generalizada, horas para se posicionar a bola. Foi então que virei para meu lado esquerdo e falei: Ricardo, sua companhia foi ótima, mas está na hora de você fazer alguma coisa. Então, na minha cabeça, fiquei imaginando meu irmão se levantando e começando a descer as arquibancadas em direção ao campo. Imaginei aquele pulo que só irmão caçula acredita que o irmão maior pode dar, e meu irmão sobrepujava o fosso que separa a geral do campo e pisava o gramado. Nessa altura o Pet já se posicionava para cobrar a falta. Foi aí que aquela cena que eu imaginava começou ficar tão real. Aos 43 minutos de jogo, do lado do camisa 10 do Flamengo estava meu irmão. Cada detalhe em seu rosto tão nítido como eu havia visto pela última vez há 5 meses e 3 dias atrás. Cada fio da sua barba estava lá. E ele me olhava com um sorriso largo, de orelha a orelha, seus dentes brilhando e com o braço e o polegar em sinal de positivo levantados. Ele não tinha uma expressão apenas confiante, tinha uma expressão exultante, esfuziante, quase uma gargalhada de alegria antecipada de quem já tinha certeza do que aconteceria.

Foi quando aquela bota chutada lá do meio da rua, não sei se por um pé ou por dois ao mesmo tempo, fez uma curva impossível no ar e entrou no gol. Se furasse a rede e subisse um pouco mais, batia na minha cara. Foi ali, naquele momento, que se meu coração tivesse 7 vidas teria perdido 6 de uma vez. Desde a perda de meu irmão, repetia para mim mesmo a cada cinco minutos que tinha que ser forte o tempo todo, segurava a tristeza para tentar superar a perda e ajudar a cuidar de quem e do que ficou. Aquele sinal de positivo da imagem do meu irmão foi como se ele estivesse me liberando dessa obrigação. Como se estivesse agradecendo a força, me dando um tri de presente, e me liberando para me emocionar. Confesso que nem vi a comemoração nem mais lance nenhum do jogo. Nem do tempo regulamentar e nem dos descontos. Caí sentado, com o rosto enterrado no manto sagrado e chorei. Chorei muito. Até muito depois do apito final, molhava e melecava minha camisa do Flamengo toda. Vários desconhecidos, não sei se já informados pelo Meio, vinham me abraçar e me consolar e eu ali chorando sentado sem nem conseguir levantar a cabeça. Estavam ali juntos o místico, o inesperado e o imponderável, todos de uma só vez, de modo arrebatador e explosivo, gerando a maior emoção da minha vida.


sábado, novembro 13, 2004

Banquinho e violão



Voces querem rock.n roll ?
Yeah!!!
Bem...não haverá pôrra nenhuma de rock hoje.

Chrissie Hynde pergunta e responde à horda de pomposos e esticadas no palco do Morro da Urca.
Foi o tradicional caso de hora errada, lugar errado, público completamente equivocado.
Era Domenico, Kassin e Moreno (sim, ele mesmo, filho do Caê) dum lado, e dois Pretenders do outro, todos sentadinhos no banquinho, felizes com a oportunidade de inovar.
Definitivamente, show intimista não presta para se asistir em pé.
Aquilo era mais para Mistura fina do que Noites cariocas.
Numa noite onde o carioca podia se dar ao luxo de escolher entre Dóris Monteiro, Mundo Livre S.A acompanhado de Otto, Paula Morelembaum, Racionais, Bethânia, Henrique Cazes e Orlandivo ou Ithamara Koorax, diversidade sem igual, que faria corar o mais eclético do noviorquinos, numa noites destas, de ineditismos sem frescuras, o bom velho Rock se reinventava.
O trio calafrio, Moreno + 2, Kassin e Domenico, cada um com disco mais diferente e inclassificável do que outro, vestiram os sucessos dos Pretenders com um bom humor e leveza que, permitam-me, só aqui no sudeste do Bananão seria capaz de cair tão bem.
As versões de outros artistas, conhecidas como 'couves', valeram o preço proibitivo do ingresso(60 mangos!), principalmente quando Hynde soltou: When you were here before, couldn't look you in the eye...
Os poucos que entenderam o que estava acontecendo ficaram arrepiados.
Provável que 'Creep' do Radiohead nunca tenha sido tão adequada ao momento.
Chrissie cantava com aquela doçura raivosa o refrão:' I'm a creep, I'm a weirdo/ What the hell am I doing here?/I don't belong here.'