segunda-feira, setembro 27, 2004

Orfãos de onda ruim


A foto é do Scott Soens

[Revista Surf Portugal, Agosto 2004, #139, ano 18]

Garoto ainda, cabulava aula para ir ao Arpoador, uma espécie de Templo sagrado, com estádio de futebol e curso avançado de estudos na cadeira de surfologia.
O motivo era simples: Waimea 5000, campeonato internacional de surfe.
Rotina: acordar muito cedo.
‘Ué, meu filho, caiu da cama ? o que deu em voce pra sair tão cedo ?’
Dinheiro contado pro pão, mortadela e Coca-cola.
Surfing debaixo do braço, aquela com o Shaun Tomson na capa, entubando de pé em Sunset, ficava lá, sentadinho, vendo o desfile de feras saindo da revista pra água, ali, na minha frente.
Era Joey Buran, Bud Lamas, Michael Ho, Dane Kealoha, Greg Day, Cheyne Horan…E tinha ainda! Fred D’orey, Valdir Vargas, Valério, Picuruta… Temida e respeitada equipe Rico/Visual Esportivo.
Em dois, tres dias, um moleque com vontade de aprender assimilava e evoluía mais do que em 3 anos de surfe diários.
Tempo passando e a curiosidade aumentando. Juntava todo dinheiro que podia e me mandava, de carona, pra assistir os internacionais novamente, 5 anos depois do Waimea definhar e morrer.
O Rio já não era mais nem Meca, nem Maracanã, as capitais do surfe nacional, pelo menos durante os eventos, agora atendiam por nomes gozados como Joaquina e Itamambuca.
Foi na areia de Itamambuca que vi o Sunny indo surfar na minha frente – e ainda nos pediu para olhar por um pedaço de parafina que viraria souvenir nas nossas mãos. Sunny era tão jovem quanto a gente, mas já tinha adesivos da Billabong no bico da prancha, um segundo lugar no tradicional OP da Califórnia, fotos na revista, fama de mau rapaz e parte no filme ‘Surf into the summer’.
Enfim, pronto para ser idolatrado por adolescentes que sonhavam um dia poder ostentar uma das coisas da lista acima.
Por que, afinal, tanta nostalgia em torno de assunto tornado enfadonho pela imprensa atual ?
Rob Machado é a minha resposta.
Alguem pode me apontar um único surfista que herdou, ou quis herdar, o cetro de plasticidade da linha do magrelo ?
Numa roda de chope, tarde de temperatura amena do inveno carioca, nos entreolhamos e perguntamos ? E o Machado, hein ?
Não deixou escola…
Engraçado que um dos caras mais influentes do surfe nos anos 90 não tenha deixado uma escola do seu espetacular jeito de surfar.
Improvisação!
Isso não se copia. Diz um.
Corta pra sentença do Matt Warshaw no Billabong Surf into the summer: 'desde dois garotinhos sentados nas areias de Cronnola até 50.000 espectadores espremidos na arquibancada de Huntinghton Beach, quando ele rema para o outside, nós podemos sentir até uma mudança no ar. Vire sua cabeça por um momento e talvez voce deixe de ver o impossível tornando-se possível. Poucos surfistas tem esse poder que Mark Occhilupo possue…'.
2004, WCT, internet, TV a cabo, lugares idílicos, ondas perfeitas, câmeras digitais, computadores portáteis, comunicação.
A praia, como conhecemos, cada vez mais distante.
Elite.
Tempo é dinheiro.
Eficácia.
Dinamismo.
Machado, cadê Machado ?
Taylor Steele copiou o que fazia Paul Sargeant no seu Sarge’s Scrapbook, ondas ruins, manobras boas, música rápida, bastidores, péssimas imagens – o que interesa é o momento: Momentum.
Esse pedacinho insignificante do surfe precisa de proximidade para se alimentar.
Machado, com 32 anos, continua com adesivo no bico da prancha, surfa ondas boas quando quer, guarda remorso e rancor da ASP.
Bob boa gente nunca foi um lutador.
Dos 17 goofies no WCT, nenhum traz nada do bom Bob.
Occy ainda é o mais influente.
Nos 44 primeiros do WQS, 15 goofies, nem sombra do Machado.
Tem aquele Bob Martinez, que não é lá grande coisa…mas nem entre os 100 primeiros.
Uma questão grave: onde foi parar o legado do bom e velho Bob ?
E por que a ASP, nem ele, foram capazes de perpetuar um dos grandes surfistas que deram uma leitura diferente para nossas ondas ?
O que quer essa garotada, que nem se interessa em simular, e assim evoluir, a criatividade do Machado ?
Cada vez mais o surfe profissional se afasta do surfista comum.
Talvez seja mesmo nostalgia besta…
É possível que ninguem se importe.

sexta-feira, setembro 24, 2004

Aula

[Surf Portugal, #138/ ano 18/ Julho de 2004]


foto de Todd Messick do Moonshine Conspiracy

Numa volta de bicicleta entre Leblon e Arpoador conto 5 escolinhas de surfe.
Criançada aprendendo como remar, como subir na prancha, como furar uma onda malvada que quer te pegar.
Olho com candura, mas em algum lugar escuro dentro de mim uma voz se levanta: Bom pro esporte nada!
E argumenta…
Nem vamos nos ater ao lado didático da conversa, pois surfe é demasiado humilhante para ser ensinado, quiçá aprendido.
Um desses sítios da grande rede tem como lema uma frase brilhante: ‘Não é sobre um estilo de vida, é sobre a vida.’
Bonito, não ?
Então, nós buscamos no esporte um passatempo, como diz o termo, uma forma de pasar o tempo e quem sabe juntar qualquer desculpa para uma terapia, higiene mental, cada um na sua.
Os primeiros passos tem uma importância enorme quando iniciamos no surfe, assim como os mesmos primeiros passos, remetem á infância, blah, blah,blah…
Sujeito simula movimentos, ajusta daqui, equilibra de lá e voilá! Surfando todos estamos.
O alemão de férias no Algarve, o canadense em Ipanema, de pé na espuma, glorioso, sorriso de orelha a orelha.
Enfim encontramos, toda comunidade, uma maneira de introduzir (Epa!) nossa maravilhosa e única experiência para os ditos ‘meros mortais’.
O lado escuro irrita-se.
Uma ova com isso!
Quem disse que o mundo seria melhor se todos surfassem?
Aonde escutei que se todos exprimentassem o surfe uma única vez estáriamos, toda humanidade, salvos?
Um babaca continua babaca surfando, senão pior.
O insistente vai prevalecer sobre o hablidoso quando ele menos esperar.
Rodinhas irão falar horas sobre o talento perdido que foi fulano.
Assim no surfe como na terra.
Subjetividade permeia o surfe desde os primórdios e, agora, nessa onda das escolinhas, como habilitar um professor virou tese de mestrado em curso de filosofia.
Um profissional aposentado seria um melhor professor do que um magistrado de educação física na universidade federal ?
Aquele senhor que nunca fez nada da vida, parte integrante do mobliário da Praia Grande ou de Carcavelos, Arpoador ou Saquarema, o mesmo senhor que sequer consegue formular uma frase é capaz de ensinar um inglês a surfar ? Tanto quanto o articuladíssimo e engajado surfista e ativista ecológico da Praia Mole ?
Qual é o critério ?
Na altura, parece menos importante o envolvimento com o mar desde que as aulas acontecem sempre na beira d’água e os alunos pouco são exigidos além do mero ajoelhe-levanta-faz com a mão assim-pula da prancha.
Cabe aos novos surfistas escolherem se vale ou não a pena ir um pouco mais fundo.
Amedronto-me em pensar que um rapazinho dos seus 10, 12 anos, tenha seu primeiro contato com o surfe através de camarada que nada tem para lhe oferecer além duma fórmula burocrática da concepção do surfista.
Chamem de romantismo e me digam que os tempos são outros, ninguem mais quer perder meia hora do dia, nem pais, nem filhos, para aprender sozinhos o que pode ser ensinado a preços módicos em cada esquina.
Alem do teor de fast food que as escolinhas carregam, é preocupante a quantidade de gente que, à beira da falta do que fazer, se imbúi do personagem de instrutor sem nunca ter tido um envolvimento maior com o surfe do que gastar o tempo na praia.
Talvez seja capaz de reconhecer o vento, no máximo, mas não carrega consigo a chama, a paixão, embora isso não lhe desqualifique, pelo mar. Temo que a escolinha seja refúgio dos imprestáveis, como tenho atestado aqui no Brasil, tomando dinheiro de inocentes em busca de um pouco de emoção.
A falta de referência de quem procura uma escolinha é alarmante.
Reparem que o momento inaugural do leigo com o surfe agora tem hora e área marcada e limitada. Não existe um método eficiente para ficar ereto na prancha e encantar-se. A subjetividade vira um temível argumento a favor dos incompetentes.
Dora indignou-se com isso no final dos anos 60, em meio a febre dos filmes da Gigdet- onde ele atuava-, a moda da cultura de praia, Malibu, Hollywood, Beach Boys…mas nem por isso deixou de capitalizar nessa.
O Cavaleiro negro, como gostavam de chamar ao Mickey Dora, denunciava que aquele ‘bando de pregos’ não era capaz de ensinar nada a ninguem porque o surfe exigia uma dose de sacrifício maior do que eles eram capazes de emprestar aos iniciantes.
A comercialização vai matar o surfe, dizia Dora, pessoas sem amor ao esporte vão tomar conta.
No entanto, quando ouço um bom amigo dizer que ‘matriculou’ seu filho numa escolinha de surfe, sentou na areia e assitiu o moleque fazer a sua primeira onda até o fim, comoveu-se…quando me confronto com uma dessas, jogo um pouco de luz no lado negro e mando Dora passear.

terça-feira, setembro 21, 2004

Fon-fon

Findo o Boost Mobile Pro, a corrida ao título finalmente começa a ficar interessante.
Joel passeou em Trestles e deixou o resto invejoso de tanta classe e sintonia.
C. J. com sua rotina vencedora avisa que farda, mas não talha.
Slater continua na sua incessável luta pela vitória espetacular.
O foco está perdido em algum lugar.
Insistindo nas esquerdas, Slater queria mostrar a mágica que Curren tinha por volta de 89/90, o erro custou caro. Tivesse competido pra ganhar, estaria agora alguns pontinhos mais próximo do primeiro no ranking.
Uma mera foto publicada num saite provocou a avalanche de 2.000 encomendas de rabetas diamante para All Merrick.
Quanto ganha o K.S. da Channel Island ?
Taylor Knox já ordenou a sua.
Que outro surfista tem esse impacto brutal no comportamento de toda comunidade ?
A Billabong finca bandeira no pódio do campeonato que perdeu para a rival Quiksilver: ações, Uól istriti, meia dúzia de cavalheiros vestidos de terno e gravata conspiram...
Em 2003, no Velho Mundo, Andy ganhou Hossegor (Quik) e Kelly, Mundaka (Billa).
No meu ouvido chega a notícia que uma parte da torcida quer que Irons perca de qualquer maneira, nem que para isso Cê Jota tenha que sagrar-se Bi-campeão.
Prefiro Irons Tri.
Joel acelera sem co-piloto e pode ultrapassar todos nessa corrida maluca.
Slater parece perdido em algum lugar onde a vida é azulzinha.
Não é.
Parko feriu o bom garoto com uma vitória incontestável em solo americano, 14 anos depois do mundo se assustar com as imagens do vídeo 'Kelly Slater in Black and White', Touché!
Os Coolie Kids querem o trono do rei.
O Rei que se cuide.

O Braga


Foto do saite www.we-walk.com

[Desconheço, talvez por pura e simples ignorância, alguem que melhor escreveu sobre a vida no Rio - e sobre a vida.
Rubem Braga olhava pra tudo de um jeito especial. Os fatos mais corriqueiros se transformavam em crônicas deliciosas.
Abaixo vai um trechinho do texto publicado na Folha da tarde, Sábado, 13 de Novembro de 1954. Clica no título e leia tudo.]

'Acordo cedo e vejo o mar se espreguiçando; o sol acabou de nascer. Vou para a praia; é bom chegar a esta hora em que a areia que o mar lavou ainda está limpinha, sem marca de nenhum pé. A manhã está nítida no ar leve; dou um mergulho e essa agua salgada me faz bem, limpa de todas as coisas da noite.'

sexta-feira, setembro 17, 2004

Preto e branco


Quase rasgou...

“I’m going to get things together VERY soon” Disse Slater ao velho e bom Sargento depois de levar o principal prêmio da imprensa especializada yankee: Surfista mais popular do mundo, segundo a revista Surfer.
Andy fora dessa.
Bruce fora dessa.
Irmãos Robinhúdi enfrentam Raoni, nosso animalzinho, e Daltro, valioso combatente, estrategista de primeira.
A tarde de hoje promete... (clica no título e vai!)


Voadeira pra moer onda (rabeta diamante - dáiamônd têiu - estão de volta!?)

quinta-feira, setembro 16, 2004

Robinho

[Texto de Guy Lawson, publicado no Observer, 5 de Setembro de 2004. Clique no título e leia na íntegra.]


Robinho 'Machado' adiantando

The malabarista nears the square, walking slowly, caressing her gently forward with his feet. She, in Portuguese, is ela. The ball. The Estadio do Morumbi, in S¿o Paulo, is packed with a crowd of 80,000 and millions more watch on television as Santos and Corinthians play in the final of last year's Brazilian league football championship. Robson do Sousa, a skinny 18-year-old who goes by the nickname Robinho ('Little Rob', courtesy of the diminutive 'inho'), was, until a few months ago, just another prospect playing amateur football for Santos, this port city team. A few years ago he was just another malnourished kid chasing a ball along the dirt roads of the slums and shantytowns of Brazil. Now, with the game at 0-0 in the first half, he takes the ball on the left side of midfield. And then the pedaladas begin.

Robinho approaches the goal with the ball - with ela - from the left side of midfield as the defender Rogerio steps backwards, towards the penalty area. A pedalada is a motion that mimics the action of pedaling a bicycle - not the famed bicycle kick, with the ball booted backwards overhead, but a specific kind of feint. Robinho's foot steps over the ball in a circular motion, as if he's going to dribble, but he doesn't. He could change the direction of the ball at any moment, forwards or backwards or sideways. But it just continues rolling, untouched, as Robinho's foot passes over her again and again.

One pedalada.

Two.

Three.

The veteran Rogerio lurches left and right each time. The camera covering Robinho from behind the goal jerks back and forth. The moves are so convincing it's impossible not to believe the fictions.

Four pedaladas.

Five.

A malabarista, in Brazil, is a magician with the ball, a trickster and illusionist. There is something comic in the serial deceptions, but there is also the hint of contempt. Robinho is just a skinny boy playing with men. But he is also a malandro - a kid raised in the streets, gangster-wise, ghetto-hard. He plays with malicia, or malice, disguised by the delicacy of his appearance.

Six pedaladas.

By now Rogerio is wild-eyed, desperate.

Seven.

sexta-feira, setembro 10, 2004

Sua Santidade



Curren agora é, além de um fenômeno da natureza, tambem virtual.
Aproveite a visita e compre o CD novo - só em caso dele resolver sair distribuindo troféus por aí.

A entrevista da revista Water vale o tempo, tinta e papel, copia e cola no word, imprima, sinta-se um verdadeiro jornalista no exercício nobre de sua profissão.

Frampton versus Billabong - Round 1


Voce estamparia esse rostinho no biquíni da sua irmã ?

Se voce ainda não completou os seus trinta e poucos aninhos, a probabilidade de ter ouvido o refrão ' Uh baby i love your way' é pequena.
Peter Frampton embalou muita viagem de Fusca pra Saquarema e Ubatuba nos anos 70, seu disco 'Frampton comes alive' foi fenômeno de vendas em 1976 (6 milhões de cópias!) - ele tinha apenas 26 anos.
Alguns anos antes, 1969, o cabeludo tinha formado uma banda chamada Humble Pie com Steve Marriot, ex-Small Face e Greg Ridley, ex-Spooky Tooth, onde gravaram cinco LPs.
Eleito 'Face of 68' pelas ainmadas revistinhas inglesas, Frampton já gozava (Epa!) de algum destaque com a bandinha Herd, que enlouquecia as adolescentes com o hit 'Paradise lost' e suas madeixas loiras.
Depois de deixar o Humble Pie em 71, PF gravou um disco solo em 72 e chamou uma turma da pesada, Billy Preston (Little Richards, Rolling Stones, Ray Charles...), Ringo Starr (Beatles dã ?), entre outros.
Aqui no Salvelindo, Frampton vendia cigarros Hollywood na TV e embalava os 'Hi-fis' da molecada com 'Show me the way' no terraço dos prédios da classe média.
Agora, careca, distante daquela figura exuberante dos anos 70, Frampton processa a gigante Billabong por usar indevidamente sua imagem e refrão do mais executado de todos sucessos.
Uma coleção de roupas femininas carinhosamente chamada de 'Frampton' pela Billabong causou a fúria do nosso calvo herói.
A estampa traz a frase 'Baby i love your waves', numa clara alusão ao seu 'hit' 'Baby i love your way' e um rosto, digamos, familiar.
Biquini, Camisa de lycra e camisetas.
O guitarrista que nos trouxe 'Take me away', pede através de seus advogados que a Billa tire os produtos batizados com seu nome das lojas e, naturalmente, despeje alguns milhões de verdinhas na sua conta para repor os danos causados pelas meninas sentando em cima do seu rosto.


Parecido com o malandro da capa ?

sexta-feira, setembro 03, 2004

O Olhar do Galeano



[Texto da série Maladragem é o seguinte, publicado no camerasurf.com, 2000]


Elogios...
Zé das candongas! Acordei hoje com uma vontade de sorrir imensa. O motivo desse sorriso frouxo, logo cedo, era o livro do uruguaio Eduardo Galeano (1940, Montevidéu, Uruguai) De pernas pro ar (L&PM, 1999). Não que o livro nos dê muitos motivos pra sair por aí rindo feito bobo.
Muito pelo contrário.
Um bom livro sempre inspira a leitura de outros, então fui na prateleira buscar o Livro dos abraços (L&PM, 1989) do mesmo autor, pra iluminar a cachola.
Na quarta capa, o motivo do fascínio que tenho pelo homem desde algum tempo quando, em Cabo-frio na casa de um amigo do peito, dei com os olhos no conto que reproduzo agora em homenagem a meia-dúzia de três ou quatro leitores que perdem precioso tempo lendo minhas mal traçadas.

A Função da arte/1

Diego não conhecia o mar. 
O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

   E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!

Poucas vezes tive a oportunidade de ler algo tão próximo da experiência do surfe em nossas vidas.
O menino somos todos nós, surfistas, com nossa infância eternizada no olhar daquele moleque.
Galeano escreve na revista Bundas, eventualmente, e tem um belo editorial nas bancas com Caros amigos extraído do já citado De pernas pro ar.
A arte... é um elogio pra essa rapaziada.
Valeu Zé !
aquele abrazzo.
Julio

P.S.
Essa coluna deve ser lida com lentidão, acompanhada de uma música leve (pode ser Taj Mahal, Astrud Gilberto ou Air...), de preferência deitado numa rede - mas vai ter que imprimir...